Volumoso vantajoso

Nem sempre o que é bom para os Estado Unidos é bom também para o Brasil. É o caso das chamadas dietas de alto grão no confinamento de bovinos. A utilização de grandes quantidades de concentrado na dieta dos animais em confinamento, ou dieta de alto grão, é empregada há tempos nos EUA. Mas, no Brasil, as condições são diferentes.

A redução dos custos de alimentação é um dos aspectos mais importantes quando se adota o confinamento como estratégia na pecuária de corte. Apoiado por um técnico, o pecuarista precisa analisar todas as opções existentes para escolher a mais adequada para seu caso.

Nos Estados Unidos, as quantidades de ração ultrapassam 70% e podem chegar a 100%. A função do volumoso, quando empregado, é meramente a ação física no rúmen. Promove a ruminação e reduz distúrbios ruminais como a acidose e a laminite.

Em tese, a quantidade de volumoso pode ser muito baixa, pois a energia e a proteína exigidas pelo organismo do animal provêm quase totalmente do concentrado. O bagaço de cana hidrolisado, de fácil armazenamento, presta-se bem a essa finalidade. E começa a estar disponível em várias partes do Brasil graças ao crescimento da indústria sucro-alcooleira. A dieta de alto grão propicia altos ganhos de peso, melhor padronização e acabamento de carcaças e terminação mais rápida dos animais. Ademais, dispensa o investimento em maquinário e estruturas exigidas quando se trabalha com silagem, como silos e ensiladeiras. Contudo, dependendo das quantidades empregadas, exige investimentos em outro tipo de estrutura para recebimento, secagem e armazenamento dos grãos.

Os aspectos da dieta de alto grão são ainda reforçados pelo bom desempenho da agricultura brasileira. A produção nacional de grãos cresce ano após ano. O aumento da produtividade das principais culturas engrossa a oferta de grãos e de resíduos da industrialização destes, como farelos, cascas, etc. Tais produtos são à base da composição de concentrados. Portanto, a oferta maior poderia resultar na redução do custo dos principais insumos para o confinamento. Seria mais um argumento a favor da maior participação de concentrados nas dietas para se obter o menor custo da arroba produzida.

Entretanto a análise do emprego de dietas de alto grão em confinamento exige ainda algumas considerações. A primeira consiste em entender a razão de seu uso nos Estados Unidos. Naquele país a cultura do milho é fortemente subsidiada. E a produtividade média, superior a 10 mil kg/ha, é mais que o dobro da registrada no Brasil. Nos EUA, é mais eficiente produzir grãos do que fibras (volumosos). Apesar da menor digestibilidade, lá é comum o uso de grãos inteiros na alimentação dos bovinos. Além de fornecer a energia exigida pelos animais, os grãos inteiros têm ação física no rúmen, substituindo o volumoso.

Lamentavelmente, no Brasil alguns pecuaristas e até mesmo técnicos incluem grãos inteiros em dietas com significativa proporção de volumoso. Mas, isso é um contra-senso pois gera perdas absurdas e rentabilidade duvidosa. Se a dieta inclui volumosos, não há razão para utilizar grãos inteiros, abrindo mão de parte do poder nutritivo destes.

A expectativa de redução dos preços dos grãos (milho e soja) e farelos, em razão da maior produção, está se esvaindo. Estudos do departamento de Economia Global da Pioneer indicam que, além da produção de etanol, nos Estados Unidos, haverá maior demanda de milho para rações em países asiáticos como a China. Em 2007, segundo o estudo, o etanol consumirá mais de 30% da área de milho dos EUA. Em 2011, quase a metade da área se destinará às destilarias de álcool. Com isso, as exportações de milho daquele país, que já chegaram a 15 milhões de toneladas, ficaram abaixo de 5 milhões em 2006. A China, em 2009, será um importador líquido de milho.

O estudo diz ainda que a soja dos Estados Unidos deverá perder 5% da área para o milho. A redução da oferta levará à valorização da soja no mercado internacional. A se confirmar tal cenário, mesmo que apenas parcialmente, há tendência de aumento das exportações brasileiras de grãos, com preços mais atraentes. A previsão é boa para os agricultores, mas poderá tornar inviável o uso de grãos em dietas para bovinos.

Existem insumos alternativos como a polpa cítrica, a casca de soja e o caroço de algodão. Contudo, por serem substitutos do milho e da soja, seus preços costumam acompanhar as cotações desses grãos. No caso da polpa de citros a situação é ainda mais difícil. Havendo bom preço no exterior, a oferta no mercado interno tende a se reduzir com aumento do preço. É possível, portanto, que, em pouco tempo, o principal componente do custo desses insumos deixe de ser o frete, como ocorreu até o ano passado.

A falta de opções eficazes na redução do custo com alimentação leva o pecuarista a procurar por outros produtos como resíduos, varreduras, descartes, etc. Com raríssimas exceções, a análise do custo por unidade de energia e proteína em base seca mostra que tais insumos custam o mesmo ou até mais que o milho, a soja e o caroço de algodão.

Em busca de bons resultados econômicos, muitos pecuaristas usam aditivos para melhorar o desempenho dos animais. Há produtos de eficácia cientificamente comprovada, mas não são a maioria. Muitos, quer pela composição, quer pela quantidade recomendada, não têm ação biológica alguma. O pecuarista fica à mercê do crescente segmento de produtos milagrosos para a engorda dos bovinos. E estes, na verdade, apenas contribuem para o aumento dos custos.

Na análise das opções para engorda em confinamento, o produtor também tem de considerar a eficiência real dos animais submetidos a dietas ricas em concentrados. O gado zebuíno foi selecionado pela natureza em regiões nas quais as pastagens são predominantes. Sob dieta de alto grão, é comum a redução do consumo. Também são freqüentes os casos de acidose ruminal e laminite. Existem produtos que controlam, de modo eficiente, os distúrbios do rúmen, mas seu custo é significativo.

Muitos pecuaristas e técnicos consideram a silagem de milho uma opção de custo muito alto no confinamento de gado de corte. Alguns até a julgam inviável. Como todas as culturas, o milho tem o risco de frustração de safra. Contudo, sob condições climáticas favoráveis, responde diretamente, e com grande eficiência, na conversão de insumos em produtividade. E esse é o ponto mais crítico na determinação do custo final e na qualidade da silagem de milho.

É freqüente o pecuarista não investir o suficiente na lavoura destinada à silagem. Economiza em adubos, sementes e defensivos e dá pouca ou nenhuma atenção às operações de colheita e armazenamento.

O potencial produtivo da lavoura de milho, no caso de bons híbridos, é muito superior ao que se colhe na maioria das lavouras destinadas à silagem. Técnicas como adensamento do estande, com a redução do espaçamento entre linhas de plantio, permitem substanciais aumentos de produtividade. São práticas já adotadas em várias propriedades, de eficácia comprovada. A Tabela 1 mostra exemplos de produtividade de alguns híbridos.


Com mais plantas por hectare há uma redução do custo final. Os custos operacionais (plantio, colheita, compactação e retirada) são diluídos porque independem da produtividade. Portanto, uma quantidade maior de massa verde (MV) por hectare resulta em custo menor por tonelada colhida, como se vê na Tabela 2.


No exemplo da lavoura de 50 t/ha mostrada na Tabela 2, pode-se aumentar a produtividade para 60 t de massa verde por hectare. Para isso, acrescentam-se 25% no custo das sementes e 10% na despesa com fertilizantes. O custo final será de R$ 36 por tonelada de silagem, ou seja, 10% inferior aos R$ 40/t da Tabela 2.

As Tabela 3 e Tabela 4 mostram, de modo simplificado, uma comparação entre duas dietas de confinamento. Uma destas utiliza silagem de milho de qualidade. A outra usa bagaço de cana como volumoso e alta participação de concentrado (72%). As tabelas exibem a quantidade de ração concentrada para que um boi de 400 kg ganhe 1,3 kg/dia e uma estimativa dos custos de alimentação.



Os custos com alimentação podem ser bem menores quando se reduz a porcentagem de concentrado na dieta. Também se reduz a incidência de acidose e laminite. Mas esta participação depende da qualidade do volumoso. No caso da silagem de milho a qualidade relaciona-se com a maior proporção de grãos. Silagens com mais grãos são obtidas em lavouras de maior produtividade, justamente as que têm menor custo por unidade de matéria seca e energia (NDT) produzidas.

Assim, sem expectativa de adquirir soja e milho e outros grãos a baixos preços, a viabilidade econômica das dietas de alto grão está comprometida. Pode continuar sendo uma opção conveniente para confinamentos com grande número de animais, em regiões de elevado custo da terra, e que dispõem de grande e constante oferta de insumos alternativos como a polpa cítrica. Em tais casos, ainda que o custo de produção da arroba seja maior, há vantagens no frete e no melhor preço da arroba em razão da proximidade de grandes centros consumidores ou canais de exportação.

Essa conjugação de fatores favorece, sobretudo, os frigoríficos. Estes vêm se tornando cada vez mais eficientes na transformação e na agregação de valor a cada kg de boi abatido, desde o couro até a produção de biocombustíveis, como o biodiesel feito com sebo bovino. Para o pecuarista, porém, a rentabilidade se baseia quase exclusivamente no valor recebido pela arroba.

O pecuarista que deixa de lado os preconceitos e implanta uma lavoura de milho em conjunto com a engorda do gado só tem a ganhar. Por meio de parcerias ou arrendamentos firmados em contrato, pode-se ter lavouras produtivas dentro da propriedade, dispensando investimentos em maquinário. E o pecuarista contará com alimentos de qualidade enquanto promover a recuperação ou o aumento da produtividade da área de pastagens. A lavoura de milho para silagem ocupa o terreno por 130 dias, deixando a área disponível para outra atividade o resto do ano.

Terceirizar a colheita é uma opção muito conveniente na produção de silagem. Além de dispensar a imobilização de capital com máquinas que ficarão paradas a maior parte do ano, permitirá ao pecuarista, estabelecer critérios de qualidade no trabalho, como tamanho de corte, processamento do grão, etc.

Autor: Prof. Dr. João Ricardo Alves Pereira
Professor-Adjunto do Depto. de Zootecnia. Curso de Zootecnia UEPG/Castro (PR)

Fonte: Pioneer Sementes


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