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Uso de dispositivos intravaginais com menor concentração de progesterona

Os dispositivos intravaginais de liberação de progesterona já são hoje bastante conhecidos e utilizados em programas reprodutivos de bovinos. De forma geral, os dispositivos são compostos por uma alma plástica resistente e com boa memória (capacidade de retornar ao formato original após sua manipulação) recoberta por um polímero (como o silicone) impregnado com progesterona. Seu formato pode ser variado, mas é necessário que proporcione uma adequada retenção do dispositivo na vagina (evitando perdas) sem ser, no entanto, muito agressivo à mucosa vaginal. Em termos funcionais, os dispositivos devem liberar progesterona (quando em contato com a mucosa vaginal) em uma taxa constante, mantendo concentrações plasmáticas desse hormônio suficientes para a manipulação desejada do ciclo estral dos animais. Quando o dispositivo é removido, a concentração de progesterona circulante cai rapidamente.

Inicialmente, os dispositivos eram utilizados apenas uma vez e descartados. No entanto, descobriu-se que a reutilização dos dispositivos comercialmente disponíveis pode ser realizada sem que haja comprometimento das taxas de prenhez aos protocolos de IATF e TETF. Assim, dispositivos de 1 g de progesterona (como o DIB®, Sincrogest®, Primer®, Cronipres®) passaram a ser utilizados até três vezes em gado de corte, enquanto os de 1,9 g (CIDR®) já estão sendo utilizados pela quarta vez em algumas propriedades.

A reutilização de dispositivos tem vantagens e desvantagens. A maior vantagem é a redução dos custos com esse produto, pois ele passa a ser utilizados três ou quatro vezes com o mesmo valor gasto anteriormente para uma utilização. No entanto, há desvantagens inerentes a reutilização que devem ser cuidadosamente avaliadas em cada situação específica. Uma delas é o tempo e mão de obra gastos com a limpeza dos dispositivos que serão utilizados novamente (sem contar o custo do agente desinfetante utilizado). A isso se soma o maior risco de ocorrência de vaginites e outras infecções do trato reprodutivo (especialmente nos casos em que há má higienização e armazenamento do dispositivo), a maior ocorrência de queda de dispositivos (perdas) e a necessidade de maior organização com relação ao número de vezes que cada dispositivo foi utilizado.

Uma alternativa para evitar os problemas da reutilização de dispositivos foi o lançamento de dispositivos com menor concentração de progesterona impregnada (0,558 g), que seriam indicados para uso único em bovinos. Por essa razão esses dispositivos foram batizados de “monodose” (Cronipres Monodose®). Esse dispositivo também pode ser uma boa opção para animais sensíveis a concentrações mais elevadas de progesterona, como é o caso de novilhas.

A seguir, serão apresentados estudos realizados com o dispositivo monodose (Cronipres Monodose®) relacionados ao perfil plasmático de progesterona e ao teste de eficácia a campo, sendo dois deles em receptoras de embriões (TETF) e o outro com inseminação artificial (IATF).

O primeiro estudo teve como objetivo avaliar o perfil plasmático de progesterona em vacas ovariectomizadas tratadas com dispositivos intravaginais com diferentes concentrações de progesterona: Cronipres Monodose® e Cronipres® de primeiro, segundo e terceiro usos (Gráfico 1; De La Sota, 2005).

Gráfico 1. Perfil plasmático de progesterona de vacas tratadas com dispositivos intravaginais com diferentes concentrações de progesterona: Cronipres Monodose® (0,558 g) e Cronipres® (1 g) de primeiro, segundo e terceiro usos (Adaptado de De la Sota, 2005)

É possível notar que tanto o Cronipres Monodose® quanto os Cronipres® de diferentes usos são capazes de manter níveis circulantes de progesterona suficientes para controlar o ciclo estral (simulando uma fase progesterônica) e, portanto, podem ser utilizados nos protocolos de sincronização do ciclo reprodutivo.

Em outro trabalho, visou-se a avaliação da taxa de aproveitamento, concepção e prenhez de receptoras de embriões mestiças Bos taurus x Bos indicus (n = 736) sincronizadas para TETF utilizando o dispositivo monodose comercialmente disponível (Cronipres Monodose®; 0,558 g). Previamente a TE, as receptoras foram avaliadas e um embrião fresco (não criopreservado) foi transferido no corno uterino adjacente ao ovário com corpo lúteo de cada uma delas. O diagnóstico de gestação foi realizado aos 35 dias após a TE. Os resultados por fazenda e gerais estão apresentados nos gráficos abaixo (2, 3 e 4).

Gráfico 2. Taxa de aproveitamento de receptoras de embriões sincronizadas para TETF com dispositivo de progesterona monodose (0,558 g).

Gráfico 3. Taxa de concepção (total de prenhes / total de transferidas) de receptoras de embriões sincronizadas para TETF com dispositivo de progesterona monodose (0,558 g).

Gráfico 4. Taxa de prenhez (total de prenhes / total de tratatadas) de receptoras de embriões sincronizadas para TETF com dispositivo de progesterona monodose (0,558 g).

Em suma, esse estudo é sugestivo que o dispositivo monodose possa ser eficientemente utilizado em protocolos de TETF, dados os bons índices obtidos. Não houve, no entanto, comparação com os dispositivos convencionais de 1 g nesse estudo, o que seria muito importante para a conclusão de que o monodose funcione semelhantemente aos demais.

Por outro lado, em outro estudo, comparou-se a taxa de aproveitamento e a sincronização do estro novilhas de raças sintéticas (Brangus e Braford) utilizadas como receptoras de embrião após a detecção de cio seguinte ao tratamento com duas aplicações de PGF2α (14 dias de intervalo) ou protocolo com dispositivo Cronipres Monodose®. Maior porcentagem de novilhas tratadas com dispositivo monodose teve o estro sincronizado [70% (55/78)] do que as que receberam PGF2α [55% (87/157)]. Ainda, maior taxa de aproveitamento foi observada nas novilhas tratadas como monodose [51,2% (40/78) vs 40/78) vs 35,6% (56/157), indicando a eficiência do dispositivo na sincronização do ciclo estral.

Em outro estudo essa comparação de dispositivos monodose e de 1 g foi realizada em novilhas Nelore sincronizadas para IATF. Dispositivos com 1 g de progesterona (Cronipres®) novos e reutilizados pela terceira vez foram comparados ao monodose (Cronipres Monodose®). Um terceiro grupo com monodose e administração de meia dose de prostaglandina F2α no início do protocolo (para reduzir ainda mais a concentração de progesterona no caso de presença de corpo lúteo) foi também testado. Após a IATF foi realizado repasse com touros por 30 dias (na proporção de 1:20). Os resultados estão apresentados a seguir (Gráfico 5).

Gráfico 5. Taxa de prenhez de novilhas Nelore (após a IATF e após IATF seguida de repasse com touros) sincronizadas para IATF com diferentes dispositivos de progesterona.

Analisando os resultados desse estudo é possível concluir que o uso de dispositivo monodose (0,558 g) resultou em semelhante taxa de prenhez que o uso de dispositivo de 1 g de progesterona novo ou de terceiro uso. Assim, fica disponível no mercado mais uma boa opção de dispositivo para ser utilizado em programas reprodutivos.

Apesar de não ser o foco desse artigo, vale ressaltar que o implante auricular de Norgestomet (Crestar®) também deve ser lembrado como uma boa opção nas sincronizações para IATF e TETF. Ele poder ser reutilizado sem as desvantagens mencionadas acima para os dispositivos intravaginais (não há riscos de infecção do trato reprodutivo por ser auricular, é pequeno e de fácil higienização e armazenagem, não aumenta o risco de queda com aumento do número de usos) e pode ser utilizado eficientemente em categorias com maior sensibilidade à progesterona (por ser um progestágeno, ou seja, uma “progesterona sintética”).

Cabe o veterinário responsável pelo manejo reprodutivo da fazenda realizar um estudo sobre o custo-benefício dos dispositivos e implantes disponíveis no mercado para que a melhor opção seja empregada para cada situação de manejo e rebanho.

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View Comments

  • Muito bom esse artigo..
    Uma duvida, em bovinos de leite ja tem algum estudo?
    Em vacas de alta e media produção..
    Novilhas?

  • Prezado Junior
    Essa é uma dúvida bastante comum. Nos protocolos usamos hormônios iguais ou semelhantes aos que o próprio animal produz naturalmente. A única diferença é que fazemos isso de forma que podemos controlar o ciclo estral deles e predizer o momento da IA sem necessidade de observar cio. Assim, ao contrário do que perguntou, os protocolo não desregulam o ciclo, mas auxiliam a cilicidade normal. Inclusive, em animais em anestro, pode auxiliar a indução do retorno a ciclicidade normal. Se feito por profissionais bem instruídos, os protocolos somente trazem benefícios a reproduçao, aumentando a eficiência reprodutiva das fêmeas.

  • Belo artigo, Dr. Roberta, uma duvida, o uso desses medicamentos e dispositivos para reprodução não fazem mal para a vida da matriz? não descontrola o cio natural e nem compromete a vida sexual natural desse animal?! Obrigado.. Aguardo..

  • Prezado Giovani Rocha Queiroz
    Ainda não existem estudos que apresentem dados seguros sobre a utilização do Crestar pela terceira vez, nem mesmo utilizando dois implantes (o que é também uma dúvida bem comum). Estudos visando essa avaliação e o uso de Crestar usado para indução de ciclicidade estão em pauta, mas ainda não temos resultados concretos! A minha recomendação e da empresa MSD é que ainda não se utilize Crestar de terceiro uso para IATF, mas seria interessante guardá-los. Assim que houver mais dados, estes certamente serão divulgados.
    Att

  • Prezados Rogerio Fonseca e Rayf Tirloni
    O esperado nesse esxperimento era de haver uma taxa menor quando o dispositivo de 1g de progesterona foi utilizado, no entanto, observamos taxas iguais. Esse experimento esta sendo repetido para gerar informacoes mais precisas e por esse motivo ele ainda nao foi publicado. Dele, apenas extraimos que o Monodose foi bastante eficiente.
    O numero de animais utilizado foi 150 por grupo e sim, os grupos foram sempre sincronizados e inseminados contemporaneamente, para evitar variacoes endesejaveis.

  • Bom dia Roberta,



    Qual seria a justificativa encontrada por vocês para que não exista diferença na taxa de prenhez à IATF em novilhas sendo utilizados dispositivos novos (1g), reutilizados pela terceira vez, monodose e monodose + PGF?



    Teoricamente, e de acordo com os demais trabalhos existentes na área, o dispositivo de 4º uso, o monodose e o monodose + PGF seriam mais indicados e apresentariam maior taxa de prenhez nesta categoria animal.



    Ainda com relação ao experimento, estes animais pertenciam a mesma propriedade e foram inseminados no mesmo dia?



    Att,



    Rayf R. Tirloni.

  • Olá Roberta,

      Assim como o colega acima, eu também gostaria de saber qual seria o protocolo de melhor eficiência indicado para o implante monodose e quais seriam as taxas de prenhezes obtidas em vacas e em novilhas.

    Existe algum estudo sobre o uso da IATF em novilhas de primeira para segunda cria ?



                                     grata pela atenção...........monica

  • Olá Roberta, como disse, não é o foco, mas gostaria de saber se o crestar pode ser reutizado tbem 3x, e um quarto uso para aumentar a ciclicidade em novilhas pré-púberes, se possivel passe o protocolo p/ mim ok.

  • O custo e benefício do implante monodose é viável economicamente?




    Grato,



    ____________________________________________________________________


    Ronaldo Mendonça dos Santos - Médico Veterinário - Especialista em Reprodução e Produção de Bovinos

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