Trinômio da precocidade: sexual, de crescimento e acabamento

Por Adriana Luize Bocchi1, Sarah Laguna Meirelles2, Gabriela Zoccolaro Costa3, Patricia Kobal de S. Rodrigues4

Nas muitas reuniões realizadas neste ano, tanto científicas como de produtores, um dos temas mais abordados nas palestras e nas discussões foi a precocidade. Quando se fala em precocidade pensa-se em precocidade sexual, mas a preocupação é no trinômio da precocidade: a sexual, a de crescimento e a de acabamento.

De uma forma simples isto fica claro. Um animal ideal seria aquele que entra na puberdade mais cedo, atinge o peso de abate em uma menor idade e produz uma camada mínima de gordura uniforme sobre a carcaça. A produção de carcaças com esse perfil além de garantir e manter a qualidade da carne irá produzir carcaças mais padronizadas, que ainda é um problema na carne bovina brasileira.

A qualidade da carne, apesar de ainda não trazer grandes retornos diretos aos produtores, parece ser um futuro próximo. Alguns poucos frigoríficos estão pagando um diferencial, e a união dos produtores aumentará o poder de barganha junto a estas indústrias.

Entretanto há retornos indiretos como o menor tempo que este animal fica na propriedade e maior número de bezerros por ano, trazendo um maior giro econômico para a propriedade.

Sempre foi o objetivo dos melhoristas e criadores a antecipação da idade à puberdade combinada com maiores taxas de crescimento e redução da idade de abate (Pereira, 2001). O que mudou foram os termos utilizados, as chamadas precocidades.

Precocidade sexual

A precocidade sexual das fêmeas está intimamente ligada à característica de idade à puberdade. Entretanto, esta característica é muito difícil de ser mensurada, principalmente em condições extensivas de exploração. Assim sendo, podem utilizar outras características para detectar a precocidade sexual das fêmeas. Uma das características muito utilizadas é a idade a primeira parição, devido a sua fácil mensuração e herdabilidade semelhante à idade à puberdade, significando que esta apresenta resposta à seleção.

No caso dos machos, a seleção é feita de forma indireta através de uma característica indicadora, a circunferência escrotal. Pesquisas já demonstraram que a circunferência também é uma característica indicadora da fertilidade das fêmeas; além de ser uma característica de fácil mensuração.

Outras características que estão sendo utilizadas ultimamente são a data do parto e/ou dias para o parto. Estas características são indicadoras da habilidade individual das fêmeas em conceberem mais precocemente na estação de monta e parirem também mais cedo na estação de monta (Pereira, 2001). Dias para o parto é o número de dias compreendidos entre o início da estação de monta e a data do parto de determinada fêmea. Já a data do parto corresponde ao número de dias compreendidos entre a data de início da estação de parição e a data do parto determinada pela fêmea.

Outra característica que está apresentando resultados promissores é a chamada PP14 ou Probrabilidade de Prenhez aos 14 meses, em decorrência do Projeto de Seleção para Precocidade Sexual realizado pelo PMGRN.

Bergmann no Congresso de Reprodução Animal em 1993 propôs algumas práticas interessantes para aumentar a eficiência reprodutiva (Bergmann, 1993):
– Eliminar touros de baixa fertilidade;
– Selecionar tourinhos com maior circunferência escrotal;
– Eliminar fêmeas com dificuldade de parto;
– Selecionar fêmeas que conceberem mais precocemente na estação de monta;
– Eliminar fêmeas que não conceberem durante a estação de monta;
– Selecionar fêmeas que estejam ciclando há mais tempo.

Precocidade de crescimento

De acordo com Spike et al. (1991) citado por Queiroz (2005) o crescimento é expresso como uma razão entre um diferencial de peso e um diferencial de tempo e isto é geralmente medido pelo peso vivo em idades específicas ou pelo peso vivo entre duas idades. A precocidade de crescimento se refere à taxa ou velocidade de crescimento. Esta pode ser medida pelo ganho médio diário entre medidas fixas ou idades fixas.

As avaliações genéticas destas características são apresentadas de forma simples para facilitar as decisões dos criadores para as diferentes etapas da criação e sistemas de produção, portanto os pesos são avaliados de acordo com a etapa da vida que o animal se encontra, sendo consideradas características diferentes.

As características que estão sendo utilizadas hoje pelos programas de avaliação genética são: peso a várias idades dos animais, como peso ao nascer, peso a desmama e ao sobreano; ganho médio diário no período pré e pós-desmama; e dias para se ganhar determinado peso, como dias para ganhar 160kg entre o nascimento e a desmama (D160) e dias para ganhar 240kg entre a desmama e o produto final pronto para o abate (D240).

Os animais precoces quanto ao crescimento podem ser determinados estudando as curva de crescimento destes e avaliando aqueles que apresentam maiores pesos na mesma idade fisiológica. A idade fisiológica se refere ao estágio de desenvolvimento do animal, como puberdade e obtenção de peso corporal máximo ou peso adulto. Animais de raças diferentes apresentam estes estágios em idades cronológicas diferentes, quer dizer, existem raças que apresentam uma maturidade precoce e outras uma maturidade tardia. Por isso é importante comparar animais dentro da mesma raça ou da mesma idade fisiológica.

Observando o gráfico abaixo se pode observar uma curva característica de crescimento.


Figura 1. Curva típica de crescimento (adaptado de Albino, 2000).

A curva de crescimento apresenta dois segmentos principais, o primeiro seria de crescimento acelerado, até atingir o ponto de inflexão, onde a taxa de crescimento é máxima. Este ponto de junção ocorre durante a puberdade do animal e, a partir deste ponto, a taxa de crescimento começa a diminuir, aumentando a taxa de deposição de gordura (Albino, 2000). Este é o ponto de abate ideal, a parti daí o animal irá depositar muito mais gordura, uma matéria prima extremamente cara para o produtor.

Precocidade de acabamento

A exigência dos consumidores quanto a uma carne de maior qualidade, ou seja, mais macia, suculenta, e ao mesmo tempo “magra”, vem exigindo da cadeia produtiva uma adaptação quanto a esse novo mercado.

Vários trabalhos têm sido realizados para avaliar a maciez, espessura de gordura e marmorização da carne produzida no Brasil nos diferentes grupos genéticos, principalmente no zebuíno e cruzamentos destes. Pesquisas estão sendo feitas diretamente na carcaça, e também através do ultra-som, mostrando altas correlações entre as duas medidas, e assim possibilitando a utilização do ultra-som como ferramenta de grande confiança nas medidas.

O ultra-som é uma ferramenta interessante e que pode ser utilizada com mais de um objetivo. Para os pecuaristas e a indústria frigorífica, está na predição do tempo certo de abate através da espessura de gordura. Esta é uma boa parceria que poderia ser feita entre os criadores e o frigorífico, investimento em um técnico especializado, e trazendo benefícios a todos. Outra grande vantagem é o acumulo de informação para a avaliação genética destes animais, selecionando animais mais precoces quanto ao acabamento e maciez da carne (marmorização).

Considerações finais

Sabe-se que o Brasil atualmente é o maior exportador de carne bovina em quantidade, entretanto o valor pago está muito aquém do que é pago para outros países, isto se deve exclusivamente a qualidade da nossa carne. Entretanto, a existência de políticas de incentivo são quantitativamente inexpressivos quando se leva em conta o número total de animais abatidos que são beneficiados por estas iniciativas.

Nos últimos anos a preocupação tem se tornado maior e a indústria e o governo têm se visto a importância do assunto e das providências a tomar. O SIC está com um programa inovador quanto a desfazer velhos preconceitos para aumentar o consumo de carne. Cabe aos produtores se unirem para além de obterem maior poder de barganha, produzir um animal mais uniforme, precoce, mantendo o custo baixo e recebendo o retorno da preocupação de qualidade investida.

Referências bibliográficas

ALBINO, L.F. Pecuária da carne bovina. 1 ed. São Paulo: ª Luchiari Filho, 2000. p.6-19.

Bergmann, J.A.G. Melhoramento genético da eficiência reprodutiva em bovinos de corte. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE REPRODUÇÃO ANIMAL, 10, 1993. Belo Horizonte, Suplemento… Belo Horizonte: CBRA, 1993 p.7-86.

QUEIROZ, S.A. Precocidade de crescimento em bovinos de corte. In: Workshop em Genética e Melhoramento Animal, 2, 2004. Jaboticabal, Anais… Jaboticabal, 2004. Disponível em . Consultado em 10 de agosto de 2005.

PEREIRA, J.C.C. Melhoramento genético aplicado à produção animal. 3. ed. Belo Horizonte: FEPMVZ Editora, 2001. p.292-298.

SPIKE, F.L. et al. Applied Animal Breeding Laboratory Manual. Iowa, Iowa State Univ. 273 p., 1991.

__________________________________
1Aluna de Doutorado – Programa de Pós-graduação em Zootecnia – Área de Concentração em Melhoramento Genético Animal – FMVZ / Unesp – Campus de Botucatu.

2Aluna de Doutorado – Programa de Pós-graduação em Zootecnia – Área de Concentração em Melhoramento Genético Animal – FCAV / Unesp – Campus de Jaboticabal.

3Mestre em Genética e Melhoramento Animal – FCAV / Unesp – Campus de Jaboticabal.

4Zootecnista formada pela FCAV / Unesp – Campus de Jaboticabal – Coordenadora SRG ABCBSenepol.

This post was published on 1 de setembro de 2005

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  • Sem dúvida alguma é de extrema importância a seleção de animais precoces, pois isso possibilita um aumento na taxa reprodutiva do rebanho, uma vez que se diminui a idade ao primeiro parto.

    Além disso, os animais se tornam capazes de atingir o peso de abate mais cedo e isso se reflete no bolso do produtor.

    Apenas achei interessante nesse artigo a passagem em que os autores comentam que os consumidores estão exigindo "uma carne de maior qualidade, ou seja, mais macia, suculenta e ao mesmo tempo magra", não podemos nos esquecer que quando selecionamos por precocidade buscamos uma deposição de gordura de marmoreio mais precoce nos animais, gordura esta que confere palatabilidade à carne e também maciez, embora não seja o principal fator responsável pela maciez.

    Penso ser equivocada essa idéia de que o consumidor deseja uma carne magra, mais sim uma carne que não seja excessivamente gorda.

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