“Trata-se de um cruzamento em que se vê compreendidas as grandes demandas da pecuária de corte atual” – Gabriel Junqueira

O BeefPoint já publicou diversos artigos apresentando casos de sucesso e experiências com cruzamentos de bovinos de corte, mas hoje, optamos por reunir uma série de opiniões de profissionais ligados ao setor do melhoramento genético, professores e produtores para discutirem a seguinte questão: Cruzamento entre bovinos europeus x continentais será que essa é uma tendência que veio pra ficar?

Por Gabriel Junqueira

Quando falamos desse tema algumas perguntas iniciais são extremamente importantes para que possamos refletir sobre a viabilidade do projeto e da utilidade de se optar por tal caminho. Pensamos, de início, em duas perguntas principais que, muito embora não sejam as únicas possíveis, são relevantes e necessárias para a consideração do assunto e serão discutidas neste texto.

O que se busca?

O produtor em primeira análise deve ter em conta quais os objetivos que busca atingir com a atividade pecuária, bem como deve estar ciente de todos os desafios que a pecuária de corte de alta performance coloca ao pecuarista. Como é sabido, o produtor de carne deve, sempre, buscar produzir mais carne com a melhor qualidade ao menor custo possível. Diante desse quase mantra do produtor, deve partir para a opção do melhor sistema de criação ou escolha do tipo de animais que lhe servirão de matéria-prima.

Nesse sentido, o cruzamento entre animais de raças europeias de origem britânica com indivíduos de origem continental pode ser uma excelente forma de consecução dos objetivos da atividade. Isso se deve tanto ao fato de que temos como característica genética das raças britânicas a boa habilidade maternal e a velocidade de terminação (deposição da gordura subcutânea) enquanto as continentais emprestam à sua progênie velocidade de ganho de peso e volume muscular acentuado, muito embora recomendemos uma análise minuciosa e cuidadosa dos indivíduos com os quais se trabalha.

O que se ganha na heterose decorrente do cruzamento desse animais – que ainda que seja menor que aquela vista nos cruzamentos entre animais europeus e zebuínos existe e é relevante – é a precocidade de acabamento de uma carcaça com maior porção comestível, maior rendimento e volume final. Há que se falar na característica do marmoreio que é visto tanto em animais britânicos quanto em animais continentais cujas raças vêm trabalhando no melhoramento nesse sentido e que, por isso, será percebido em quantidade absolutamente satisfatória nos produtos.

Em relação ao baixo custo, deve se ter em conta que as raças britânicas têm naturalmente a tendência de apresentarem fêmeas com ótima habilidade materna, enquanto que as continentais naturalmente apresentam a condição de velocidade de ganho de peso e, dependendo da raça continental que se utilize, alto rendimento de carcaça. Dessa forma, o que se tem é que o animal responderá muito favoravelmente a boas condições de manejo nutricional ao qual estiver submetido. Para o criador, de muito servirão as mães britânicas, já que reduzir-se-á o custo para a produção de um bezerro pesado e diferenciado. Para o recriador e para o confinador, a facilidade para o ganho de peso reduzirá os custos envolvidos no processo, por influência da raça continental utilizada auxiliada pela boa condição das mães em criarem seus produtos.

Em síntese, o pecuarista deve ter em conta que o cruzamento entre continentais e britânicos ou os frutos desse cruzamento pode resultar grande satisfação econômica, visto que em um menor tempo observará grande ganho muscular, com alto rendimento de carcaça e bons resultados para o marmoreio. O que se vê, portanto, é que para aquele que segue o “mantra” citado, essa opção pode ser extremamente interessante, uma vez completos os três requisitos propostos.

Onde se pretende realizar o projeto?

Como falamos, essa é uma alternativa interessante e que evidentemente tem potencial para trazer resultados para o produtor. Entretanto, devemos sempre ressaltar que isso é, em nossa opinião, uma atividade interessante para os criadores e invernistas do Sul do Brasil. Isso por conta das condições climáticas favoráveis a essas raças encontradas naquela região.

Consideramos que a região Sul, e parte da Sudeste, tem potencial para desenvolver bem esse tipo de projeto, naquilo que tange, sobretudo, a criação. Quanto a recria e a engorda, aparentemente é possível que se estenda para algumas outras regiões, desde que o produtor leve em conta as condições climáticas encontradas na sua região e qual o impacto delas no projeto, uma vez que há, indubitavelmente, alguma perda de eficiência do animais face a condições climáticas desfavoráveis em que se encontram e os custos para a redução desses impactos.

Conclusões

Derradeiramente, entendemos que esse tipo de cruzamento pode ser, como dissemos, economicamente, muito interessante, sobretudo para aqueles criadores da região Sul e parte da Sudeste, já que consideradas as condições climáticas as quais estão submetidos, sejam os produtos do cruzamento, sejam os reprodutores e fêmeas iniciantes desse processo. Dizemos que é interessante economicamente por se tratar de um cruzamento em que se vê compreendidas as grandes demandas da pecuária de corte atual, ou seja, busca por animais de maior rendimento de carcaça, precocidade de terminação, qualidade da carne e volume de carne.

Importante ressaltar que não há que se “rechaçar” do cruzamento industrial tradicional (europeu X zebuíno), uma vez que é de maneira igualmente relevante, gerando grandes resultados e com identidade muito maior  nas condições climáticas vividas e percebidas no Brasil. Entretanto, o que sabemos é que a região Sul tem vocação para a criação de gado europeu e, nesse sentido, a heterose observada no cruzamento entre animais britânicos e continentais pode acrescentar muitíssimo à pecuária sulista. Em suma, a busca econômica é a mesma, em condições distintas de criação, clima e vocação regional.

Assim, recomendamos que o cruzamento se dê com o acasalamento entre fêmeas de origem britânica e reprodutores, ou sêmen, de procedência continental. Dessa forma, e como não poderia ser diferente, vemos que a raça Limousin acrescenta características de grande relevância econômica a esse tipo de cruzamento, face à sua facilidade e velocidade de ganho de peso, com alto rendimento de carcaça e qualidade da carne superior, além da alta fertilidade de seus indivíduos.

Observação:

As fotos acima são de animais de cruzamento entre touros Limousin e vacas Angus, realizado pelo criador Edgar Lima, de Cachoeira do Sul, RS.
Esse animais tiveram rendimento de 55,03%, sendo que a maioria com classificação de carcaça de 3. Os 10 animais, juntos, tiveram peso de 4759 Kg.

This post was published on 16 de maio de 2014

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  • Seria um atraso fazer este cruzamento. Tudo que o Hereford e o Angus fazem de melhoria no cruzamento com o Zebu perderiamos com o cruzamento com raças continentais, principalmente na questão precocidade reprodutiva e fertilidade sem falar no retrocesso do sabor da carne.

  • Para utilizar animais deste cruzamento em qualquer do Brasil?
    A receita é simples... SENEPOL neles.

  • Gabriel. Tua avaliação foi brilhante. Conseguiste, em poucas palavras, demonstrar as qualidades do Limousin e que o cruzamento com fêmeas de origem britânica comprovadamente tem dado certo. Obrigado em meu nome e da ABL.
    Vamos divulgar ainda mais nossa excelente raça, amparado em dados e pareceres corretos que nem o teu acima.
    Parabéns.
    Edgar Lima

  • Boa apresentação Gabriel Junqueira, lembrando que os produtos destes três cruzamentos, tanto machos como as fêmeas, acredito devam ir ao abate, pois sabemos das dificuldades de manejo destes animais nas propriedades de cria.
    E lembrando ainda de outra raça continental para terminação de excelentes resultados, o Charolês, para as multíparas 1/2 sangue.
    Também como dissestes, sabemos da qualidade da carne dos britânicos, mas, somos reconhecidos economicamente?
    Att.

    Ricardo Cauduro

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