Terminação de bovinos confinados com dieta de milho grão inteiro

Por Fernando José Schalch Jr.

Colaboradores: Cauê Augusto Surge, Milena Hama Totake Watanabe e Octavio Celso Pacheco de Almeida Prado Neto

A sazonalidade de produção das plantas tropicais é um verdadeiro desafio para os pecuaristas brasileiros e muitos acabam perdendo todo o esforço realizado durante o período de águas quando os animais começam a perder peso e rendimento produtivo na seca.

No Brasil, o confinamento normalmente é utilizado durante a época seca do ano, visando à redução da idade ao abate, aumento da taxa de desfrute e ajuste da oferta de forragem na fazenda. A estimativa de animais confinados em 2012 deve superar 4 milhões de cabeças, números impulsionados pela baixa oferta de forragem (cigarrinha em algumas regiões, falta ou excesso de chuvas em outras e a maior das causas, aumento de retenção de animais e das taxas de lotação durante o período das águas) e pela redução do preço do milho observados nos últimos dias (boa produção da safrinha brasileira).

O principal componente do custo da terminação em confinamento são os alimentos. Excluindo os animais, os alimentos representam cerca de 70% do custo total (RESTLE e VAZ, 1999). As dietas convencionais de terminação normalmente utilizam em grande parte grãos cereais processados (moagem, floculação), e uma menor parte de alimento volumoso, necessário para manter a saúde do rúmen e reduzir a incidência de desordens metabólicas como acidose, laminite, que possam prejudicar a produtividade animal (NAGARAJA e LECHTENBERG, 2007).

No entanto, a inclusão desse volumoso reduz a quantidade de energia da dieta, o que a torna menos rentável em algumas ocasiões (BRITTON e STOCK, 1987), além de implicar em gastos com mão-de-obra, produção e confecção de forragens conservadas, preparo e mistura da dieta, depósitos para máquinas e equipamentos responsáveis pela distribuição dos alimentos (tratores, carretas e vagão distribuidor).

A utilização de milho grão na dieta de terminação é uma alternativa para eliminar a forragem da dieta. Devido a ausência de processamento, a taxa de passagem do milho é lenta assim como a fermentação do amido quando comparado ao milho moído ou grão úmido (BRITTON e STOCK, 1987). Dessa forma, o milho grão inteiro pode evitar as desordens ruminais que ocorrem com a produção excessiva dos ácidos orgânicos no rúmen.

Outras vantagens dessa dieta: utilização de apenas um alimento e um concentrado para bovinos de corte; redução nos gastos com produção de volumosos, mão-de-obra, infra-estrutura, entre outros; além de obter alta eficiência biológica comprovada (maior relação de arrobas produzidas com menor consumo da dieta).

De acordo com dados de literatura, o índice de eficiência biológica é alto em dietas que utilizam milho grão inteiro, no entanto, pode ocorrer variação na eficiência de acordo com a categoria animal utilizada.

Os resultados de pesquisas em confinamento (TOWNSEND et al., 1988; QUADROS et al., 1990) mostram que a eficiência de transformação do alimento consumido em ganho de peso decresce, à medida que avança a idade dos animais. Considerando o potencial de desempenho dos animais a serem explorados em confinamento, MACEDO et al. (2001) relataram que a utilização de machos não-castrados tem aumentado substancialmente, em virtude do maior ganho de peso, da melhor conversão alimentar, da menor quantidade de gordura visceral, da maior área de olho-de-lombo e da maior porção comestível. Por outro lado, a taxa de abate de fêmeas no Brasil permanece superior a 40% (RESTLE et al., 2001), comprovando a importância desta categoria para a oferta de carne no mercado.

A Tabela 01 apresenta os valores de eficiência biológica (relação de quantidade necessária em kg de comida na matéria natural para o ganho de uma arroba) médios encontrados em experimentos com a estratégia, para as diferentes categorias animais.

Bois inteiros apresentam a melhor eficiência biológica quando comparados a animais castrados, novilhas e vacas para descarte.

TURGEON, et. al. (2010) realizaram 6 ensaios experimentais com 6895 bois confinados alimentados com uma dieta convencional com grãos processados e uma pequena parte de alimento volumoso(CON), e outra dieta com milho grão inteiro (23%) na dieta e ausência total de alimento volumoso (MG).

Os autores observaram um menor PV final, menor GMD e menor IMS na dieta com o milho grão inteiro, no entanto, a eficiência dessa dieta foi melhor do que a dieta de confinamento tradicional, já que o ganho de peso em relação ao consumo de alimento foi maior. Além disso, os autores também constataram que, a dieta com milho grão inteiro apresentou uma maior energia de ganho, o que torna o custo dessa dieta menor do que a convencional.

Para que esse tipo de dieta possa atuar de forma precisa, tendo uma boa eficiência biológica, devemos estar atentos a algumas particularidades, tais como:

• Qualidade do milho, pois os grãos devem estar inteiros, graúdos e com umidade máxima de 13%;

• Categoria animal e raça, por exemplo, animais cruzados com raças leiteiras tendem a ter menores desempenhos;

• Escore corporal inicial, pois animais muito magros tendem a um maior período de adaptação;

• Idade do animal, pois os animais mais velhos diminuem a eficiência biológica;

• Área de cocho (50 cm/cabeça), além de boa disponibilidade e qualidade da água;

• Total ausência de volumoso (lembrando que ocorre uma redução de bactérias ruminais eficientes para degradação de forragem neste tipo de dieta).

• Qualidade da mistura, muito importante, apesar de simples (Figura 01);

• Adaptação adequada, evitando distúrbios prejudiciais ao desempenho. Existem algumas maneiras de ser realizada essa adaptação, porém a mais simples e prática é através da restrição alimentar. A mistura deve ser oferecida gradativamente aos animais, iniciando em 1,6% do peso vivo até que o consumo se estabeleça entre 2,0 a 2,2 % do peso vivo dos animais, em média de 2 Kg da mistura para cada 100 Kg de PV por dia;

• A mistura deve ser oferecida em dois tratos por dia, podendo ser oferecido até de uma só vez, desde que a dieta permaneça sempre seca.

A chave do sucesso para este sistema de confinamento é o preço do milho, aliado a uma boa eficiência biológica para se chegar ao menor custo por arroba engordada (Figura 02).

A Figura 03 complementa a conta para determinação do custo da arroba engordada e o lucro por animal no sistema de produção de confinamento com grão inteiro.

A utilização de milho grão inteiro associado a um concentrado para bovinos de corte adequado melhora a eficiência de ganho dos animais com baixo investimento, é uma ferramenta estratégica segura, prática e rentável para os pecuaristas com acesso ao milho grão e com pouca estrutura para atividade. É a solução contra a perda de peso ou a venda de animais baratos devido à falta de pasto durante o período seco!

Referências Bibliográficas

BRITTON, R. A., e STOCK, R. A.  1987. Acidosis, rate of starch digestion and intake. Pages 125–137 in Symposium Proceedings: Feed Intake by Beef Cattle. F. N. Owens, ed. Publ. MP 121. Oklahoma State Univ., Stillwater.

MACEDO, M.P.; BASTOS, J.F.P.; BIANCHINI SOBRINHO, E. et. al. Característica de carcaça e composição corporal de touros jovens da raça Nelore terminados em diferentes sistemas. Revista Brasileira de Zootecnia, v.30,n.5,p.1610-1620, 2001.

NAGARAJA, T. G., K. F. LECHTENBERG. Acidosis in FeedlotCattle. Vet. Clin. Food Anim. 23:333–350, 2007.

QUADROS, A.R.B. de, RESTLE, J. SANCHEZ, L.M.B. Desempenho em confinamento de bovinos de diferentes idades alimentados com diferentes fontes protéicas. In: REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 27, 1990, Campinas, SP. Anais…Campinas: SBZ, 1990, p.25.

RESTLE, J., VAZ, F.N. 1999. Confinamento de bovinos definidos e cruzados. In: LOBATO, J.F.P., BARCELLOS, J.O.J., KESSLER, A.M. (Ed.) Produção de bovinos de corte. Porto Alegre: EDIPUCRS. p.141-168.

RESTLE, J.; NEUMANN, M.; ALVES FILHO, D.C. et al. Terminação em  confinamento de vacas e novilhas sob dietas com ou sem monensina sódica. Revista Brasileira de Zootecnia, v.30, n.6, p. 1801-1812, 2001.

TOWNSEND, M.R., RESTLE, J., SANCHEZ, L.M.B. Desempenho de animais com diferentes idades em regime de confinamento. In: REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 25, 1988, Viçosa, MG. Anais… Viçosa: SBZ, 1988, p.283.

TURGEON, O. A. ; SZASZ, J. I. ; KOERS, W. C. ; DAVIS, M. S. ; VANDER POL, K. J. Manipulating grain processing method and roughage level to improve feed efficiency in feedlot cattle. Journal of Animal Science 2010, 88:284-295.

This post was published on 5 de junho de 2012

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  • Muito interessante confinar sem volumoso, entretanto o custo é bastante elevado, já cotei varias vezes com empresas que oferecem o concentrado, este é realmente muito caro, muitas vezes chegando a 2 reais o kg do produto.

  • Bom dia pessoal, gostaria de saber se os autores tem algumas informações a respeito da diferença entre o milho grão produzido no Brasil e o milho utilizado na pesquisa do TURGEON et al. Abraço, obrigado.

  • Que tipo de concentrado, tenho 174 femeas com 11 arrobas, e um lote de 79, com 9,5 arrobas, não tenho infra estrutura para confinamento preciso dar acabamento nas primeiras citada acima antes do capim secar o que poderia indicar. Abraço

  • Bom dia pessoal,

    Já fiz estágio em uma empresa que vendia o concentrado para bovinos, e também desenvolvi uma pesquisa na minha faculdade (UNIMAR), com milho grão inteiro para ovinos, os dados ainda não foram publicados, mas os resultados já posso afirmar que foram bons....

    E concordo, que este tipo de confinamento é uma estratégia, que por sinal muito boa, porém, deve-se tomar cuidado com a adaptação, que se for feita corretamente não terá problemas, mas se errar o prejuízo pode ser grande.

    Gostei do artigo. Abraços.

  • Boa tarde
    Parabéns pelo artigo. Gostaria se possível uma fórmula para preparar o concentrado pois conseguimos peletizá-lo. Gostaria de saber se um animal pode voltar a refeição com capim após usar o milho inteiro, isto é, se é possível alimentar vacas de leite na estação seca e posteriormente voltá-las ao capim.
    Obrigado
    Osmar

  • Caro Sr. Willians Ferreira Barbosa,

    Para que possamos realizar uma melhor indicação precisamos saber qual região o Sr. se encontra e os preços do milho, @vaca magra e @vaca gorda. Aguardo seus dados (fernando@minerthal.com.br). Lembrando que a dieta deve ser utilizada com ausência total de volumoso.

  • Caro Sr Osmar Soares Barros

    Muito obrigado pelo elogio. Essa dieta deve ser utilizado somente para animais em terminação por se tratar de uma dieta que altera completamente a microbiota ruminal e seleciona apenas as bactérias que fermentam amido em detrimento das que fermentam celulose, logo, caso o animal volte a ingerir capim, ele não terá mais as bactérias necessárias para sua digestão durante um longo período, podendo prejudicar o desempenho após o tratamento. Acreditamos também que os custos somente para manutenção possam inviabilizar a utilização da estratégia.
    No caso de vacas de leite para alimentar durante o período seco, o ideal seria utilizar um suplemento mineral proteico ou um mineral proteico energético. Estes não dispensam uma boa quantidade de pastagem, mesmo que seca.

  • Caro Sr. Renan Aires de Alencar,

    Os custos de produção do concentrado tem se elevado com a cotação dos farelos proteicos e muitas empresas estão produzindo excelentes produtos. A logística acabará influenciando nesse preço.

    Vamos fazer uma conta rápida, lembrando que citamos ao longo do texto a questão da estratégia: se o preço do milho for R$22,50 a saca de 60kg, ou seja, R$0,38/kg e o concentrado custar R$1,75/kg, o custo total da sua ração sairá cerca de R$0,58/kg.

    Considerando a @ de venda a R$93,00 do boi gordo (R$1488,00/cabeça com 16@) e a de compra de R$87,00 do boi magro (R$1144,00/cabeça com 13@), nesse caso colocando 3@ (entra com 13@ e sai com 16@), com eficiência biológica para boi inteiro de 148kg você tem: (1488-1144) – [(16-13)x(148x0,58)]= R$86,48 de lucro/cabeça.

    Outra conta legal: 148kg da dieta X R$ 0,58 = R$ 85,84 por @ engordada, ou seja, são investidos R$ 85,84 para o ganho de uma @.

    É claro que para isso, tem que considerar o preço do milho na região, da @ do boi gordo e do boi magro para tomar a decisão de confinar ou não. O ganho médio estimado seria de 1,13kg/dia sendo necessários 48 dias para engorda 3@. Utilize as Figuras 02 e 03 para isso.

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Equipe BeefPoint

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