Substituição parcial do milho grão por glicerina e adição de óleos funcionais na dieta de bovinos confinados – Parte 1

Por Fernando Zawadzki e Ivanor Nunes do Prado*

Glicerina e óleos funcionais na dieta de bovinos

Coprodutos da agroindústria e aditivos são amplamente utilizados na alimentação de bovinos com objetivo de melhorar a eficiência alimentar e reduzir os custos operacionais. A terminação de bovinos em confinamento é um sistema eficiente para garantir um bom desempenho animal e melhorar a qualidade da carne, no entanto gera custos elevados para o produtor. A compra de ingredientes (milho grão, farelo de soja, sal mineral, aditivos) para formulação da dieta corresponde 70 a 80% da receita bruta, não considerando o valor dos animais. Assim sendo, o elevado custo com a alimentação impõe a adoção de novas tecnologias no sistema para ser competitivo no mercado.

O milho grão possui características nutricionais de excelente qualidade, considerado um produto nobre, o mesmo é utilizado em grande escala na formulação de dietas para alimentação animal. Sua utilização na alimentação de bovinos varia de acordo com a proporção volumoso vs. concentrado e de acordo com balanço nutricional de proteína e energia em função das exigências nutricionais da categoria animal. Entretanto nos últimos anos grande parte da produção de milho, em especial nos EUA é direcionada para produção de “etanol”. Neste contexto, a oferta e demanda pode oscilar, principalmente pela ocorrência de problemas climáticos. Ao deparar com preços elevados, o sistema exige soluções adequadas para reduzir as perdas, buscando fontes alternativas para substituição parcial dos ingredientes nobres, como a utilização de coprodutos da agroindústria.

Pesquisas recentes demonstram a glicerina, como fonte alternativa para substituir parcialmente o milho grão. O glicerol é uma fonte energética, o qual participa no processo de gluconeogênese, no metabolismo celular, na constituição dos fosfolipídios, triglicerídeos e pode ser utilizado pelos microrganismos ruminais na produção de ácidos graxos voláteis. Na glicerina, a concentração da molécula de glicerol varia conforme a qualidade do processo de esterificação durante a fabricação do biodiesel.

Foto: Glicerina de média pureza

A rápida expansão da indústria de biodiesel no Brasil e no mundo gera um excedente de glicerina no mercado. Segundo Dasari et al. (2005) para cada litro de biodiesel produzido, gera aproximadamente 10% de glicerina. Em 2011 a indústria de biodiesel no mundo produziu 20,8 bilhões de litros, a qual gera uma produção de 2,08 bilhões de litros de glicerina. Enquanto no Brasil a indústria produziu em 2011 2,6 bilhões de litros de biodiesel e um excedente de 263 milhões de litros de glicerina. De acordo com a ANP (2012) em 2005 o Brasil produzia 736 mil litros de biodiesel e em 2011 passou a produzir 2,6 bilhões de litros (Gráfico 1), um crescimento expressivo da indústria de biodiesel.

Gráfico 1. Produção de biodiesel no Brasil (2005 – 2011) bilhões (L).

Fonte: (ANP, 2012) – Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis.

De acordo com a Resolução/386 (1999) a glicerina está classificada como umectante na classe de aditivos admitidos para nutrição humana e animal. A utilização de glicerina na alimentação animal deve apresentar um controle de qualidade. Segundo Paule (2010) o Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento preconiza o padrão mínimo exigido, ou seja, para cada kg de glicerina deve proporcionar no mínimo 800g de glicerol, valores máximos 130g de umidade e 150mg de metanol. A glicerina fora destes padrões não é recomendada na alimentação animal.

Nos sistemas intensivos, a utilização de aditivos proporciona ganhos efetivos, melhora a eficiência alimentar e reduz o custo de produção. Como mencionado anteriormente, o custo da alimentação é elevado e exige aplicar tecnologias no sistema, ou seja, “os bovinos devem aproveitar o máximo da dieta fornecida” para converter em quilos carne. No entanto, a utilização de coprodutos e aditivos é cada vez mais questionada pelos consumidores, órgãos de saúde e entidades protetoras dos animais. Preocupados com o bem estar dos animais e com a saúde pública, o mercado de modo geral está mais exigente e rigoroso para saber quais as implicações geradas com o tipo de alimentação utilizada.

Baseando-se no “princípio da precaução” a União Européia (EU) impôs restrições à utilização de antibióticos utilizados como promotores de crescimento na alimentação animal. Desta forma, nos últimos, houve um aumento nas pesquisas direcionadas a elaboração de aditivos alternativos a partir de produtos de origem vegetal, tais como os óleos essenciais e extratos de própolis. De acordo com Benchaar et al. (2008), os óleos funcionais são constituídos de metabólitos secundários os quais que exercem diferentes funções, como ação antimicrobiana, antioxidante e antiparasitária de acordo com a estrutura de seus compostos.

Dentre os óleos com características funcionais, o óleo da semente mamona (Ricinus communis L.) possui alta concentração do ácido ricinoléico (85 a 90%; Figura 1), seguido de outros ácidos graxos em menor proporção como o ácido linoléico (4,2%), ácido oleico (3,0%), esteárico (1,0%), palmítico (1,0%), ácido hidroxi esteárico (0,7%), ácido linolênico (0,3%) e ácido eicosanóico (0,3%).

Figura 1. Estrutura química do principal composto do óleo de Ricinus communis L.

Ácido ricinoléico

Fonte: (Ogunniyi, 2006).

Do mesmo modo o liquido da castanha de caju (LCC) obtido do processo para obtenção da amêndoa de caju (Anacardium occidentale L.) possui elevada concentração do ácido ancárdico (71,70 a 82,00%), ácido cardol (13,80 a 20,10%) e ácido cardonol (1,60 a 9,20%), Figura 2.

Figura 2. Estrutura química dos principais compostos presentes no óleo de Anacardium occidentale.

Fonte: (Mazzetto et al., 2009).

Os ácidos ricinoléico e anacárdico possuem função antimicrobiana. Desta forma o sinergismo destes compostos apresentam características desejáveis na manipulação da fermentação ruminal podendo potencializar sua ação e atuar com ação semelhante aos ionóforos convencionais. Assim sendo, o presente estudo tem como objetivo avaliar a substituição parcial do milho pela glicerina e a adição de óleos funcionais como aditivo alternativo na terminação de bovinos da raça Purunã em confinamento.

Substituição parcial do milho grão por glicerina e adição de óleos funcionais na dieta de bovinos confinados – Parte 2

Substituição parcial do milho grão por glicerina e adição de óleos funcionais na dieta de bovinos confinados – Parte 3

Agredecimentos

As Instituições e Empresas que colaboraram para a execução deste projeto:

Universidade Estadual de Maringá – Paraná.

Instituto Agronômico do Paraná – IAPAR.

Oligo Basics Agroindustrial Ltda., Cascavel – Paraná.

Biopar – Bioenergia do Paraná Ltda., Rolândia – Paraná.

Autores:

Fernando Zawadzki é Médico Veterinário, MSc. em Zootecnia – Universidade Estadual de Maringá – Paraná e Doutorando – Programa de Pós-graduação em Zootencia – PPZ, Universidade Estadual de Maringá – Paraná.

Ivanor Nunes do Prado é Professor Titular do Departamento de Zootecnia – Universidade Estadual de Maringá e Pesquisador do CNPq.

 

Referências bibliográficas

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2 thoughts on “Substituição parcial do milho grão por glicerina e adição de óleos funcionais na dieta de bovinos confinados – Parte 1”

  • CIRO MANOEL FERNANDES - 18/01/2013

    Prezado Sr ou Sra,

    Gostaria,de obter maiores informacoes da glicerina e oleos funcionais na engorda de
    bovinos em confinamento, tendo em vista os altos custos da raçao ou seja milho,soja
    ou caroço de algodao para engorda de bovinos de corte.
    Onde encontrar o produto na Bahia e as recomendaçoes tecnicas.

    Ciro Fernandes

  • Fernando Zawadzki - 22/01/2013

    Prezado Sr.
    Segundo a Agência Nacional do Petróleo Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) publicado em 10/09/2012, as empresas autorizadas no Estado da Bahia são: V-Biodiesel Ltda (Iraquara – BA); PETROBRAS Biocombustíveis S.A. (Candeias – BA); Comanche Biocombustíveis da Bahia Ltda. (Simões Filho – BA).
    No entanto não tenho informações a respeito do grau de pureza da glicerina produzida nas indústrias citadas, pois não são todas empresas que refinam a glicerina pelo custo adicional.
    Ou seja, a glicerina é classificada em baixa, média e alta pureza. Normalmente a de média pureza contém aproximadamente 80% de glicerol, qual estaria mais adequada. Desta forma deve solicitar uma análise da composição química da glicerina.
    A glicerina de alta pureza (99,9%) poderia ser utilizada na alimentação animal, no entanto o custo é alto, sendo direcionada para as indústrias de cosméticos ou outros setores.
    De fato oque nos interessa é a molécula de glicerol (também conhecido como propano-1,2,3-triol (IUPAC, 1993) é um composto orgânico pertencente à função álcool) contida na glicerina, o qual participa na síntese de triglicerídeos, glicose e utilizada pelos microrganismos na formação de ácidos graxos voláteis durante a fermentação ruminal. Ou seja, uma fonte “energética” para substituir parcialmente o “milho”.
    Demais empresas autorizadas para produção de biodiesel no Brasil podem ser encontradas no site da Agência Nacional do Petróleo Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
    http://www.anp.gov.br/?pg=29048&m=&t1=&t2=&t3=&t4=&ar=&ps=&cachebust=1358818528823

    A utilização dos óleos funcionais tem como objetivo reduzir os processos ineficientes durante a fermentação ruminal através da seleção de bactérias. Ou seja, ter ação semelhante aos ionóforos (antibiótico) comercializados atualmente no mercado. Por outro lado, os óleos funcionais são produtos extraídos de sementes, os quais possuem características antimicrobianas naturalmente. Desta forma a utilização deste produto pode ser um diferencial no mercado.
    Os óleos funcionais avaliados neste experimento foram adquiridos e formulados na empresa Oligo Basics – Indústria e Comércio de Rações Ltda, Cascavel – Paraná. Para mais informações entre no site http://www.oligobasics.com.br ou entre em contato pelo telefone (45) 3228-5167.
    É importante ressaltar este projeto foi realizado em centro de pesquisa. Para utilização de qualquer destes produtos deve consultar o responsável técnico de sua confiança (Médico Veterinário ou Zootecnista credenciados no CRMV) para analisar as possibilidades de utilização destes produtos.
    Fernando Zawadzki

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