Substituição parcial do milho grão por glicerina e adição de óleos funcionais na dieta de bovinos confinados – Parte 2

Por Fernando Zawadzki, Ivanor Nunes do Prado*

Desempenho, ingestão e conversão alimentar

Na substituição parcial do milho pela glicerina, é importante ressaltar que a inclusão de glicerina reduz o teor de proteína bruta da dieta, sendo necessário aumentar a fonte de proteína. De acordo com Zawadzki (Tese em andamento) a substituição parcial do milho de 20,8% na dieta total, é necessário acrescentar 4,7% a mais de farelo de soja para balancear uma dieta com 10,7% de proteína bruta, em comparação a uma dieta sem glicerina apresentando mesmo teor de proteína e energia. O teor de proteína bruta na glicerina é mínimo ou ausente variando de 0,01 – 0,07% de PB.

Outro ponto importante a ressaltar, é a ausência de fibra na glicerina de média pureza. A substituição de 20,8% da dieta total pela glicerina reduz o teor de fibra em 12,69, 2,08 e 2,15%, respectivamente fibra em detergente neutro (FDN), fibra em detergente ácido (FDA) e fibra bruta (FB). Em análise laboratorial, a glicerina de média pureza no atual experimento, contém 812 mg/kg de glicerol, 232 mg/kg de água, 47,6 mg/kg de cinzas e 3,3 mg/kg de metanol. Entretanto, mesmo a glicerina apresentando ausência de proteína e fibra, considera-se uma fonte energética promissora para substituição parcial do milho em dietas de bovinos de corte. De acordo com as análises laboratoriais, a energia bruta contida na glicerina (3,6 Mcal/kg energia bruta) é equivalente a do milho (3,9 Mcal/kg), entretanto deve-se considerar uma redução de 7,6%.

Foto: (1) Incorporação da glicerina ao concentrado; (2) Concentrado com glicerina; (3) Comparação de dietas sem glicerina vs. com glicerina; (4) Óleos funcionais (produto a base de óleo de mamona e caju). Fonte: (Zawadzki, Tese em andamento).

Zawadzki (Tese em andamento) avaliando a substituição parcial do milho por glicerina e a adição de óleos funcionais (3g animal/dia/animal) na dieta de bovinos da raça Purunã terminados em confinamento. A inclusão de glicerina substitui 20,8% da dieta total, e em comparação ao concentrado 32,8% do milho grão. As dietas experimentais não influenciaram o peso vivo final quando os dados foram submetidos à análise estatística, entretanto houve diferença numérica de 13,5 kg (2,93%), quando comparado ao tratamento controle (Gráfico 1). Da mesma forma para os tratamentos GLI (2,36%) e CFO (1,61%) em comparação ao tratamento sem glicerina ou óleos funcionais.

Gráfico 1. Peso vivo final de bovinos Purunã terminados em confinamento.

 Dietas: CON – controle; CFO – controle + óleos funcionais; GLI – Glicerol; GFO – Glicerol + óelos funcionais. ns – não significativo (P > 0,10) Fonte: (Zawadzki, Tese em andamento).

Os resultados foram positivos com a substituição parcial do milho sem ocasionar perdas no desempenho animal. Em grande escala de produção pode se tornar interessante a substituição parcial do milho por glicerina, principalmente em períodos de oscilação do preço do milho. Para o ganho médio diário, a inclusão de glicerina ou adição dos óleos funcionais não influenciou significativamente (P > 0,10). Da mesma forma que o peso vivo inicial, o ganho médio diário não foi influenciado negativativamente (1,037 kg/dia, valor esperado para categoria animal com 10,7% de proteína bruta).

A ingestão de matéria seca foi influenciada pela inclusão de glicerina (Gráfico 2). Os bovinos do tratamento controle + óleos funcionais (CFO) tiveram maior consumo de matéria seca (2,21% em relação ao peso vivo), enquanto o tratamento controle (2,08%), glicerina (2,07%) e glicerina + óleos funcionais (2,05%) foram semelhantes. A adição de óleos funcionais sem glicerina estimulou o consumo de matéria seca total. O maior consumo de matéria seca no tratamento CFO está relacionado a maior ingestão de nutrientes e fibra (Gráfico 2).

Gráfico 2. Ingestão de proteína bruta, fibra bruta, nutrientes digestíveis totais e fibra em detergente neutro (kg/dia) de bovinos Purunã terminados em confinamento.

 

Dietas: CON – controle; CFO – controle + óleos funcionais; GLI – Glicerol; GFO – Glicerol + óelos funcionais. Médias seguidas de letras diferentes nas colunas são diferentes (P < 0,10). Fonte: (Zawadzki, Tese em andamento).

A inclusão de óleos funcionais sem glicerina (CFO) estimulou a ingestão de proteína bruta (PB), fibra bruta (FB), nutrientes digestíveis totais (NDT) e fibra em detergente neutro (FDN). Entretanto o maior consumo não resultou em melhor peso vivo final ou ganho médio diário. A maior ingestão de fibra é um indicativo positivo para melhorar a motilidade ruminal, consequentemente maior produção de saliva e manutenção adequada do pH ruminal. Segundo Coneglian (2009) a inclusão de óleos funcionais auxiliam no processo de fermentação, mantendo valores adequados do pH ruminal para fermentação da fibra.

Nas dietas com glicerina (GLI e GFO) não houve maior ingestão de nutrientes, entretanto houve maior ingestão de energia digestível e metabolizável em comparação as dietas sem glicerina (CON e CFO), gráfico 3.

Gráfico 3. Ingestão de energia digestível e energia metabolizável (Mcal/kg/dia) de bovinos Purunã terminados em confinamento.

 

Dietas: CON – controle; CFO – controle + óleos funcionais; GLI – Glicerol; GFO – Glicerol + óelos funcionais. Médias seguidas de letras diferentes nas colunas são diferentes (P < 0,10). Fonte: (Zawadzki, Tese em andamento).

A glicerina utilizada no presente trabalho contém aproximadamente 80% de glicerol, sendo este o principal componente na utilização pelos microrganismos ruminais e metabolização no fígado. No rumen o glicerol pode ser utilizado pelos microrganismos na formação de ácidos graxos voláteis (principalmente propiônico e butirato). De acordo com Rémond et al. (1993) a glicerina é 100% metabolizada em 4 horas (in vivo), enquanto (Bergner et al., 1995), relatam que 90% da glicerina é metabolizada em 6 horas. O aumento de propionato é interessante no desempenho animal, pois sua maioria é utilizada no fígado na gliconeogenese (formação da glicose) (Bradford and Allen, 2007, Forbes, 1988). Portanto, a glicerina pode disponibilizar mais energia para o metabolismo celular.

Em análise da conversão alimentar observa-se que a inclusão de óleos funcionais na dieta sem glicerina (CFO) foi maior em comparação a dietas com glicerina (GLI e GFO), no entanto estas dietas foram semelhantes com a dieta controle (CON), gráfico 4. Os bovinos terminados na dieta de óleos funcionais sem glicerina (CFO) obtiveram maior conversão alimentar 9,28% em comparação à dieta GLI (glicerina) e 8,33% em comparação ao tratamento GFO (glicerina + óleos funcionais). A inclusão de glicerina não influenciou negativamente em comparação a dieta controle. Entretanto, nas dietas com glicerina em comparação à dieta CFO, os animais consumiram menos para depositar a mesma quantidade de músculo. A maior conversão alimentar dos bovinos alimentados com a dieta CFO está relacionado com a maior ingestão de nutrientes e fibra (Gráfico 2).

Gráfico 4. Conversão alimentar de bovinos Purunã terminados em confinamento.

 

Dietas: CON – controle; CFO – controle + óleos funcionais; GLI – Glicerol; GFO – Glicerol + óelos funcionais. Médias seguidas de letras diferentes nas colunas são diferentes (P < 0,10). Fonte: (Zawadzki, Tese em andamento).

Substituição parcial do milho grão por glicerina e adição de óleos funcionais na dieta de bovinos confinados – Parte 1

Substituição parcial do milho grão por glicerina e adição de óleos funcionais na dieta de bovinos confinados – Parte 3

Agredecimentos:

As Instituições e Empresas que colaboraram para a execução deste projeto:

Universidade Estadual de Maringá – Paraná.

Instituto Agronômico do Paraná – IAPAR.

Oligo Basics Agroindustrial Ltda., Cascavel – Paraná.

Biopar – Bioenergia do Paraná Ltda., Rolândia – Paraná.

 

*Fernando Zawadzki: Médico Veterinário, MSc. em Zootecnia – Universidade Estadual de Maringá – Paraná, Doutorando – Programa de Pós-graduação em Zootencia – PPZ, Universidade Estadual de Maringá – Paraná.

Ivanor Nunes do Prado: Professor Titular do Departamento de Zootecnia – Universidade Estadual de Maringá, Pesquisador do CNPq 1A.

 

Referências bibliográficas

Bergner, H., Kijora, C., Ceresnakova, Z. & Szakacs, J. 1995. In vitro studies on glycerol transformation by rumen microorganisms. Archiv für Tierernaehrung, 48, 245-256.

Bradford, B. J. & Allen, M. S. 2007. Phlorizin Administration Does Not Attenuate Hypophagia Induced by Intraruminal Propionate Infusion in Lactating Dairy Cattle. The Journal of Nutrition, 137, 326-330.

Coneglian, S. M. 2009. Uso de óleos essenciais de mamona e cajú em dietas de bovinos. Programa de Pós-graduação em Zootecnia. Universidade Estadual de Maringá, Maringá.

Forbes, J. M. 1988. Metabolic aspects of the regulation of voluntary food intake and appetite. Nutr. Res. Rev, 1, 145-168.

Rémond, B., Souday, E. & Jouany, J. P. 1993. In vitro and in vivo fermentation of glycerol by rumen microbes. Animal Feed Science and Technology, 41, 121-132.

Zawadzki, F. Tese em andamento. Produção e qualidade da carne de ruminantes. Programa de Pós-graduação em Zootecnia. Universidade Estadual de Maringpa, Maringa.


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