Silagem de girassol na alimentação de bovinos

Por Welton Batista Cabral, Luiz Carlos Vieira Júnior e Marco Aurélio Factori.

As silagens de girassol apresentam, em regra, teores mais elevados de proteína, minerais e extrato etéreo (óleo) do que as silagens de milho, sorgo, ou capim elefante (Tabela 1). Quando usadas em dietas balanceadas, o mais alto conteúdo proteico e mineral pode representar uma vantagem econômica para as silagens de girassol em relação às demais. Por outro lado, embora as silagens de girassol geralmente apresentem menor conteúdo de fibra em detergente neutro (FDN) que as silagens tradicionais, a silagem de girassol contêm alta proporção de fibra em detergente ácido (FDA) e de lignina, o que é capaz de restringir a digestibilidade de sua fração fibrosa e, consequentemente, o aproveitamento da energia disponível nessa fração.

Estima-se que os coeficientes de digestibilidade da matéria seca relativamente baixos observados para silagens de girassol possam ser atribuídos à menor digestibilidade da sua fração fibrosa. Essa afirmação foi ratificada pelo estudo de Carneiro et al. (2002), que obtiveram menor digestibilidade efetiva da fibra em detergente neutro da silagem de girassol em relação às silagens de milho e de sorgo e também pelo experimento de Bueno et al. (2001), que em estudo de digestibilidade aparente, observaram menor digestibilidade da fibra em detergente neutro da silagem de girassol comparada à silagem de milho. Apesar disso, desde que a dieta seja adequadamente balanceada, o menor aproveitamento da energia disponível na fração fibrosa pode, de certa forma, ser compensado pelo mais alto conteúdo de óleo observado nas silagens de girassol, que é um componente altamente energético.

Tanto os girassóis selecionados para a produção de óleo, que geralmente apresentam entre 35% a 45% de óleo no grão, quanto às variedades chamadas de confeiteiras (25%-30% de óleo no grão), têm sido utilizadas para a produção de silagem. As silagens produzidas com as variedades confeiteiras apresentam cerca de 3% de extrato etéreo (Schingoethe et al., 980), enquanto as silagens produzidas com girassóis de semente oleosa geralmente apresentam mais de 10% de extrato etéreo (Valdez et al., 1988; Tomich et al., 2004).

A maior parte das sementes disponíveis no mercado nacional é de girassóis destinados à produção de óleo e, na maioria das situações, as análises das silagens de girassol produzidas no país têm revelado alta proporção de extrato etéreo. Esse alto teor de óleo na silagem de girassol pode representar um fator limitante para o seu uso como volumoso único na dieta de ruminantes. Logo, pode indicar a possível necessidade de associação com outros alimentos volumosos, uma vez que dietas contendo mais de 7% de extrato etéreo são relacionadas às reduções da fermentação ruminal, da digestibilidade da fibra e da taxa de passagem no trato digestivo. Portanto, recomenda-se que as dietas contendo silagem de girassol sejam adequadamente balanceadas, para se evitar perdas no aproveitamento dos alimentos e no desempenho dos animais.

Independente do tipo de girassol, os genótipos mais apropriados para a ensilagem são aqueles que apresentam alta produtividade de forragem, fermentação conveniente para a conservação do material estocado e, principalmente, bom valor nutritivo da forragem produzida.

Outro fator capaz de influenciar significativamente alguns componentes bromatológicos e a digestibilidade das silagens de girassol é o estádio de desenvolvimento da planta. Rezende et al. (2002) e Pereira (2003) observaram poucas alterações nos teores de proteína bruta das silagens com o avanço do estádio de desenvolvimento das plantas, mas notaram aumento do conteúdo de fibra e redução da digestibilidade da matéria seca nas silagens de girassol produzidas com plantas em estádio avançado de desenvolvimento (Fig. 1).

Fonte: Adaptado de Pereira (2003)

A definição do ponto ideal de colheita do girassol para a ensilagem é fundamental para a produção de volumoso com melhor valor nutritivo. Por esse motivo, tem-se recomendado que a colheita do girassol não seja efetuada tardiamente.

Atualmente, visando conciliar o valor nutritivo e as características adequadas à fermentação, sugere-se ensilar no período de maturação fisiológica dos aquênios, ou seja, conforme descrito por Castiglioni et al. (1994), na fase reprodutiva 9 – R9, quando as plantas apresentam conteúdo de matéria seca apropriado para ocorrer uma fermentação que possibilite a boa conservação do material estocado. A ensilagem nesse estádio tem produzido silagens com teor de matéria seca entre 26% e 30%, cerca de 10% de proteína bruta e coeficiente de digestibilidade da matéria seca por volta de 50%. Na fase reprodutiva 9, as plantas de girassol apresentam a parte posterior dos capítulos amarelada, as brácteas (folhas modificadas da parte externa do capítulo) estão com coloração amarelo-castanho e a maior parte das folhas presas ao caule já está seca (Fig. 2).

Quando a colheita é efetuada antes da maturação fisiológica dos aquênios, o girassol contém alta quantidade de água, o que prejudica a fermentação. Por sua vez, quando é ensilado tardiamente, tem produzido silagens com altas proporções de componentes da parede celular e baixos coeficientes de digestibilidade, portando, de menor valor nutritivo.

Welton Batista Cabral, Zootecnista, Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Agricuoltura Tropical –UFMT/Cuiabá.

Luiz Carlos Vieira Júnior, Zootecnista, Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Zootecnia/UNESP-Botucatu.

Marco Aurélio Factori, Zootecnista, Pós Doutorando do Departamento de Melhoramento e Nutrição Animal /UNESP-Botucatu.

Referências

BUENO, M.S., FERRARI JÚNIOR, E., LEINZ, F.F. et al. Silagens de milho ou girassol com diferentes proporções de ração concentrada na dieta de ovinos. In: REUNIÃO ANUAL SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 38, 2001, Piracicaba. Anais… Piracicaba: SBZ, 2001. (CD -Rom)

CARNEIRO, J.C., SILVA, J.O., VIANA, A.C. et al. Avaliação da digestibilidade “in situ” da matéria seca e da fibra em detergente neutro de silagens de milho (Zea mays), sorgo (Sorghum bicolor) e girassol (Helianthus annuus). In: REUNIÃO ANUAL SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 39, 2002, Recife. Anais…Recife: SBZ, 2002. (CD-Rom)

CASTIGLIONI, V.B.R., BALLA, A., CASTRO, C. et al. Fases de desenvolvimento da planta do girassol. Londrina: EMBRAPA-CNPSo, 1994. 24p. (Documentos, 58).

PEREIRA, L.G.R. Potencial forrageiro da cultura do girassol (Helianthus annuus) para produção de silagem. Belo Horizonte: Escola de Veterinária da UFMG, 2003. 160p. (Tese, Doutorado em Ciência Animal)

REZENDE, A.V., EVANGELISTA, A.R., SIQUEIRA, G.R. et al. Avaliação do potencial do girassol (Helianthus annuus L.) como planta forrageira para ensilagem na safrinha, em dife

rentes épocas de cortes. Ciência e Agrotecnologia, v.26, Edição Especial, p.1548-1553, 2002.

SCHINGOETHE, D.J., SKYBERG, E.W., ROOK, J.A. Chemical composition of sunflower silage as influenced by additions of urea, dried whey and sodium hydroxide. Journal of Animal Science. v.50, n.4, p.529-625, 1980.

VALDEZ, F.R., HARRISON, J.H., FRASEN, S.C. Effect of feeding sunflower silage on milk prodution, milk composition, and rumen fermentation of lactating dairy cows. Journal of Dairy Science, v.71, n.9, p.2462-2469, 1988.

TOMICH, T. R.; PEREIRA, L. G. R.; GONÇALVES, L. C. Alimentos Volumosos para o Período Seco – I: Silagem de Girassol. – Corumbá: EMBRAPA Pantanal, 2004. 30p. (EMBRAPA Pantanal.

Documentos, 72).

 

Uma opinião sobre “Silagem de girassol na alimentação de bovinos”

  • Luiz Henrique Xavier da Silva - 26/09/2012

    Muito bom o texto, gosto destas revisões que tratam de alimentos alternativos! Mas tenho algumas indagações:
    Mesmo apresentando um elevado teor de EE seria interessante a utilização da silagem de girassol? Será que os resíduos provenientes da indústria que utiliza o girassol como fonte de óleo, não seriam mais interessantes visando que o teor de óleo do mesmo certamente teria uma redução?
    Obrigado!!!

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