Sanidade no confinamento de bovinos: impacto produtivo e econômico

Estimativas apontam que os bovinos confinados no Brasil atingiram patamares da ordem de 2,55 milhões de cabeças no ano de 2007 (gráfico 1) (COAN et al., 2009). Neste âmbito de forte expansão, muitos técnicos buscam dietas cada vez melhores com objetivos de reduzir a conversão alimentar, elevar o ganho de peso diário associado a um baixo custo produtivo.

Gráfico 1. bovinos confinados no Brasil

Um ponto menosprezado por muitos, devido à baixa importância no sistema intensivo de engorda é a questão sanitária. Estudos norte-americanos descrevem que maior freqüência de enfermidades ocorra nos primeiros 45 dias após entrada no confinamento, mas não existem estimativas reais quanto à freqüência e o impacto direto e indireto ocasionado por enfermidades presentes em nosso sistema de engorda.

No entanto, antes de levantar as perdas produtivas e econômicas, devemos conhecer o que se passa dentro do confinamento, especificamente na área de saúde animal.

As afecções são manifestadas com grande morbidade e mortalidade nas primeiras 3 semanas, reduzindo com o passar dos dias de estadia, como mostra a tabela 1.

Tabela 1: Índices de doenças nos confinamentos

Estudos norte-americanos mostram que cerca de 8% dos bovinos adoecem no confinamento, entretanto, devido ao nosso sistema de engorda não ser tão agressivo como nos demais países, estes valores são inferiores. As enfermidades de maior importância no confinamento estão relacionadas aos quadros respiratórios (67-82%), digestivos (acidose ruminal, intoxicação por uréia) (3-7%), infeccioso (clostridioses), parasitário (verminoses e cisticercoses), morte súbita por diversas causas e outras causas (14-28%), como por exemplo, a sodomia e traumatismos ocasionados por brigas (SMITH, 1998).

Afecções respiratórias são ocasionadas na maioria das vezes pelo estresse que o animal sofre desde o embarque na fazenda, transporte até a chegada no confinamento. Esse estresse também pode ser em decorrência de agentes virais ou por poeira, sendo o último freqüente na maioria dos confinamentos, devido a engorda ser realizada na época seca do ano.

A somatória destes fatores predisponentes leva o animal a apresentar imunossupressão, ou seja, quando suas defesas corporais estão reduzidas predispondo a invasão bacteriana o que resultará em broncopneumonias (Foto 1). Vechiato (2009) observou em estudo inédito em nosso meio, uma freqüência de broncopneumonias em bovinos abatidos na ordem de 8,3% provenientes de confinamentos.

Foto 1. Bovino confinado com sinal de broncopneumonia

Em relação aos problemas digestivos, estes podem ser por acidose ruminal (excesso de concentrado na dieta sem prévia adaptação ou ocasionado quando a mesma se faz de maneira rápida e abrupta) (Foto 2), o que acarreta em ruminite e abscessos hepáticos diretamente, e indiretamente predispõe ainda as broncopneumonias (KRAUSER; OETZEL, 2006; RADOSTITS et al., 2007; THOMPSON et al., 2008). As ruminites representam incidência de 11,88% (VECHIATO, 2009).

Outro problema digestivo é a intoxicação por uréia; este quadro é extremamente agudo, ocorrendo de 30 minutos à 2 horas pós ingestão excessiva de uréia no cocho e, muitas vezes não há tempo de contactar o Médico Veterinário, ocorrendo assim a perda da maioria do lote acometido.

Foto 2. Bovino com acidose ruminal

As clostridioses podem aparecer nos confinamentos desde o encontro de animais mortos subitamente, até a presença de quadros clássicos de botulismo, carbúnculo sintomático e gangrena gasosa, nas quais geram grandes prejuízos aos pecuaristas.

Quando os animais entram nos piquetes de engorda, há uma disputa natural por estabelecer hierarquia e dominância, sendo este realizado por brigas contínuas quando se confina machos inteiros o que poderá predispor a traumatismos nos animais. Outro agravante em se terminar intensivamente bovinos inteiros é o problema de sodomia entre os mesmos, isto faz com que o ganho de peso seja reduzido para o animal que monta e no que é montado.

Dependendo do tipo de manejo na entrada, os animais podem apresentar quadros de verminose, especialmente cisticercose, sendo a causa de contaminação a falta de educação sanitária dos trabalhadores locais, na maioria dos casos.

Atualmente qualquer centavo perdido no confinamento faz diferença, uma vez que os preços de reposição animal associados às dietas e diárias apresentam altos custos, o que resultará em uma margem estreita de retorno econômico.

Segundo Lopes e Magalhães (2005) e Bürgi (2008) os custos com sanidade representam 0,93% e 0,83%, respectivamente. Por se tratar de custos baixos, a sanidade não é vista com grandes olhos e ao final do período de engorda, o que era quase 1% de gasto se tornou grandes perdas financeiras.

Devido ao baixo custo representado nos gastos finais do confinamento, não são mensurados ou correlacionados redução no ganho de peso com possíveis problemas sanitários. Algumas doenças podem predispor a redução de 60g até 200g/boi/dia, mas verificamos que estas perdas podem ser superiores aos valores encontrados em literatura.

Se extrapolássemos os dados obtidos por Vechiato (2009) quanto à incidência apenas de broncopneumonia (8,3%), ruminites (8,3%) e abscessos hepáticos (3,3%), ou seja, as maiores causas sanitárias que acontecem no confinamento, observamos um grande impacto produtivo e econômico ao final do período (Tabela 2).

Tabela 2: Perdas econômicas x enfermidades respiratórias e metabólicas

Concluímos que o impacto produtivo, ou ainda, as arrobas que não foram ganhas no período (Tabela 2) quando colocadas na ponta do lápis, atingem valores exorbitantes, fazendo a diferença ao final do ciclo do confinamento.

Entretanto, para saber realmente os prejuízos e as doenças que acometem cada confinamento, é extremamente necessário que o diagnóstico técnico da propriedade e dos animais, com vistoria desde a compra, transporte e manejo até a venda dos animais sejam realizados por profissionais da área da saúde, no caso o Médico Veterinário. Só assim o confinador irá elaborar um plano estratégico no combate as possíveis doenças que acometem os animais deste sistema intensivo de engorda, para evitar perdas e melhorar o retorno econômico do confinamento.

Referências bibliográficas

BÜRGI, R. Módulo 1 – Confinamento como negócio. Agripoint. Curso Online Confinamento: manejo para aumento de produtividade. Disponível em: Acesso em 13 jan. 2009.

COAN, R.M.; SIGNORETTI, R.D.; ROSA FILHO, O.F.; NOGUEIRA, M.P. Confinamento x semiconfinameno. Qual a melhor escolha. pg.85-122 in___Confinamento: Gestão técnica e econômica. 4.ed. Jaboticabal: FUNEP, 2009.

EDWARDS, A. J. Respiratoy disease of feedlot cattle in the central USA. Bovine Practice v. 30, p. 5 -7. 1996.

LOPES, M.A.; MAGALHÃES, G.P. Análise da rentabilidade da terminação de bovinos de corte em confinamento: um estudo de caso. Arq. Bras. Med. Vet Zoot. v.57, n.3, p.374-379, 2005.

KRAUSE, K. M.; OETZEL, G. R. Understanding and preventing subacute ruminal acidosis in dairy herds: a review. Animal Feed Science and Technology, n.126, p.215-236, 2006.

RADOSTITS, O. M.; GAY, C. C.; BLOOD, D. C.; HINCHCLIFF, K. W.; CONSTABLE, P. D. Veterinary medicine. 10.ed. USA: Saunders, p. 935-946, 2007.

SMITH, R. A. Impact of disease on feedlot performace: a review. Journal Animal Science, v.76, p. 272-274, 1998.

VECHIATO, T. A. F. Estudo retrospectivo e prospectivo da presença de abscessos hepáticos em bovinos abatidos em um frigorífico paulista. Dissertação de Mestrado da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, 2009.

THOMPSON, P. N.; SCHULTHESIS, W.A.; MORRIS, S.; PREEZ, E.; HENTZEN, A. The effect of rumen mucosal lesions on growth in South-African feedlot cattle. In: XXV World Buiatrics Congress, 2008, Buadpest. Hungarian Veterinary Journal, 2008.


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