Raças são feitas de genes, pessoas e ações – Por Fernando Furtado Velloso

Por Fernando Furtado Velloso, Assessoria Agropecuária FFVelloso & Dimas Rocha

Participo, hoje (25/04), de um evento do Charolês na unidade da Embrapa em Bagé/RS, a 2ª Prova de Avaliação a Campo (PAC) e Consumo Alimentar Residual (CAR). A raça charolesa, até pouco tempo, vinha muito desconsiderada e esquecida entre os pecuaristas, sendo tratada como algo do passado ou até obsoleta por alguns. Este cenário parece estar mudando e a raça volta a figurar como uma boa opção para cruzamento e uso em sistemas intensivos de terminação. Pois bem, o tema que tentarei abordar nesta coluna são as raças bovinas e seus momentos. Assim como os clubes de futebol, passam por altos e baixos e a mão do homem participa muito do sucesso ou derrocada.

As raças bovinas são grupos de animais com características similares visualmente e em produção. O homem busca e determina alguns padrões para que participem deste grupo (pelagem, presença de chifres ou não, porte, conformação…) e passa a controlá-los, registrá-los e selecioná-los. Quem não tem tal característica visual passa a não ser considerado de tal raça e quem tem e também tenha pais da mesma raça entende-se como “puro”. É uma simplificação bastante grosseira de como são conduzidas as raças, mas creio não ser uma forma muito errada de se pensar.

A caracterização racial dos animais é uma forma de identificá-los como de tal raça e também de tentar preservar características produtivas de interesse. Exemplo: espero que animais pretos e mochos tenham mais marmoreio e tento não sair muito de um “padrão racial/visual” para preservar esta característica da carne. Ou espero que animais pretos e mochos nasçam leves e preservo este visual para não perder esta qualidade (peso ao nascer).

“Caracterização racial”, “selo racial” ou visual, buscados em animais puros, é um tema bem amplo e que merece não um capítulo à parte, mas um artigo ou livro, pois é recheado de repetições de conceitos (muitas vezes desconhecendo os motivos ou origens), de reprodução do modelo ou afirmação de alguns gurus e de interesses até comerciais que fazem parte do negócio de reprodutores.

Logo, o tal standard buscado nas raças, o true type e seus limites, são questões muito interessantes de serem discutidas, especialmente entre pessoas dispostas em abrir um pouco o escopo do pensamento e também de se libertar do simplismo do certo e do errado. É ótima temática para os apreciadores do assunto raças e reprodutores e, talvez, areia movediça para aqueles da turma do nós contra eles.

O assunto raças vem agrupando não só os animais, mas também pessoas, em função de suas escolhas e paixões. Neste campo de preferência ou defesa da raça “a” ou “b”, temos todo o espectro de opções, desde os fanáticos, apaixonados pela sua raça ideal, passando pelos puristas (que consideram que somente o seu tipo de animal selecionado corresponde à verdadeira maionese), até os que são menos apegados a estes conceitos e estão mais voltados aos dados de produção, aos programas de melhoramento e a “meritocracia genética” dos animais ocupando o espaço que muitos dão às famílias, linhagens e premiações em exposições. Para os animais, estabelecemos raças e para nós mesmos acabamos nos identificando como os nossos pares em nossas tribos de afinidade de pensamento, postura, convicções. Ainda segue atual o provérbio: “diga-me com quem andas e te direi quem tu és”.

Reconheço os valores e a importância das raças e também as muitas diferenças entre elas, mas resisto em aceitar que esta condição seja permanente, tanto do ponto de vista de desempenho dos animais quanto das necessidades do mercado e da ingerência (para o bem ou para o mal) da mão humana, em função da sua maior presença ou ausência no processo seletivo dos animais.

Observe alguns exemplos de situações que nos mostram que os times que defendemos, digo raças, ganham ou perdem espaço na dinâmica da pecuária.

No RS, a raça Angus foi muito utilizada nos últimos 20 anos, na busca dos pecuaristas por maior padronização do rebanho gaúcho e também por mais produtividade e rentabilidade. Esse processo ocorreu e as matrizes de muitos rebanhos comerciais ficaram muito “europeias”, “britanizadas”, abrindo, na atualidade, desafios no controle do carrapato e espaço para o uso das raças sintéticas (Brangus e Braford).

O uso massivo da genética Angus em programas de cruzamento (Angus x Nelore) traz faz vários anos a mesma pergunta: que raça usar nas fêmeas F1? E esta pergunta vem se tentando responder com raças sintéticas, africanas ou continentais. Voltamos a falar em tricross e raças que estavam apenas ocupando espaço de figurantes se candidatam a importantes coadjuvantes.

Em Santa Catarina, a raça Devon passa por um momento de valorização, de novos criadores, de superpreços nas feiras de terneiros. De forma muito parecida com o que ocorreu com a raça Hereford no mesmo estado recentemente. Alguns períodos raciais que o RS já viveu parecem estar sendo revividos pelos catarinenses nos últimos anos. São estados que vivem a pecuária com os calendários da preferência racial bem dessincronizados.

A busca por touros adaptados a ambientes desafiadores, especialmente calor e parasitas, fez com que surgisse no país, nos últimos 20 anos, as raças caribenhas e africanas Senepol e Bonsamara, respectivamente. Seriam opções para trabalhar a campo onde o touro europeu ou sintético patinam. O apelo do “pelo zero” e da tolerância ao calor são os trunfos destas raças. Vamos, agora, acompanhando os resultados de campo do uso destas raças para confirmarmos se as entregas estão sendo feitas em produtividade, peso de carcaça, etc.

O Simental Preto era algo desconhecido e visto como opção fora de cogitação por muitos pecuaristas. O trabalho contínuo e persistente de muitas centrais de inseminação em buscar espaços para esta raça no mercado está surtindo efeito. Alguns projetos pecuários de grande porte já o usam e não sabemos mais diferenciar com facilidade nos confinamentos que animais são cruza Angus ou Brangus entre tantos pretos nos lotes.

No exterior ocorrem situações que devem nos fazer abrir o espectro de pensamento sobre as raças. Na europa as raças de dupla musculatura (Belgian Blue e afins) são usadas massivamente em inseminação, superando as “tradicionais” como Angus e Charolês. Na Austrália li recentemente sobre as raças que mais vendem touros e lá estão entre os Top 5 a Droughtmaster e Santa Gertrudis, ambos com números próximos a 2 mil touros vendidos anualmente em leilões. O leitor questionará: “Mas, Velloso, o Santa Gertrudis já acabou, é uma raça infértil…”. Se pensamos só no nosso entorno e não expandimos o campo de visão, corremos riscos de ter conclusões precipitadas.

A raça Angus não tinha protagonismo nos EUA nos anos 60 e 70. Na época, era muito forte o posicionamento das raças continentais e também do Hereford. Os criadores americanos criaram, em 1978 o Certified Angus Beef (CAB) e de lá para cá a raça desbancou todas as concorrentes que tinha, pois gerou conexão da raça com o mercado e dele com o consumidor, da raça com a qualidade de carne, da raça com produtos de alta qualidade, da raça com tecnologia. Hoje, quando pensamos em Estados Unidos, nos vêm à cabeça Angus e as demais raças que se tornaram pretas para não perderem ainda mais espaço. Os genes da raça estavam lá para serem multiplicados e selecionados, mas a mão do homem, as ações, as decisões tomadas a fizeram líder nos EUA e entre os taurinos no Brasil.

Voltando ao meu dia de hoje em Bagé, participarei de um evento da raça Charolesa. O negócio de exportação de terneiros vivos vem pedindo bezerros “europeus brancos” e a raça voltará ao radar. “Tudo pode mudar em 20 minutos”, ouço numa das rádios que mais escuto. Os que estiverem atentos e com a mente aberta participarão e construirão estes processos. Alguns ficarão na janela vendo a banda passar (e criticarão os músicos).

Publicado na coluna Do Pasto ao Prato, Revista AG (Maio, 2019)

Fonte: http://www.assessoriaagropecuaria.com.br.

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