Categories: Pecuária de Cria

Produção Industrial de Bezerros (vídeo e artigo)

Em sua palestra no Workshop Pecuária de Cria, Humberto Tavares apresentou um estudo de caso da produção de bezerros da Fazenda Sucuri e discutiu alguns temas ligados a busca por maior eficiência na pecuária de cria. É necessário aumentar a produção? O ambiente afeta o tipo do animal ótimo? Utilizar o mesmo touro para produzir machos e fêmeas é a melhor opção? Como podemos aplicar as novas tecnologias de reprodução para melhorar o sistema de produção? Segundo o palestrante essas são algumas perguntas que precisam ser respondidas para alcançar essa eficiência.

A disponibilidade de alimento e os efeitos do meio ambiente (calor, frio, chuva, etc) influenciam a produção. Estudos mostram que de acordo com cada região e tipo de estresse que é imposto aos animais deve-se preconizar um tipo de animal e assim conseguir o máximo de produtividade possível.

Como exemplo pode-se fazer uma comparação entre a vacas utilizadas em Goiás e as ideais para a produção no Pará.

Assumindo que no cerrado goiano temos uma situação de baixa disponibilidade de forragem, é preciso trabalhar com fêmeas que tenham produção de leite de baixa a média para evitar problemas de fertilidade. O tamanho maduro dos animais expostos a este tipo de ambiente tem que ser de baixo a médio e a habilidade de deposição de energia tem que ser alta. Esses animais ainda têm que apresentar alta resistência ao estresse.

Já quando o sistema estiver instalado no Pará, norte do Tocantins ou região amazônica, onde a disponibilidade de alimento é alta, é possível ter um rebanho com vacas de média a alta produção de leite, que tenham maior tamanho adulto, não é preciso ter animais com grande reserva de energia e não são exigidas tantas características de resistência ao estresse como nos animais criados em condições mais desafiadoras e com menor disponibilidade de forragem.

Para tirar o maior proveito do sistema de cria é preciso atentar que as características desejáveis para cada categoria não são as mesmas. Isso quer dizer que a seleção de vacas, touros e novilhos (animais de corte) deve assumir metas diferentes. Alguns exemplos são:

• Tamanho corporal – o ideal é trabalhar com vacas pqquenas que normalmente também apresentam exigências menores; já os novilhos devem ter carcaças maiores possibilitando maior deposição de carne e maior peso ao abate.
&bull: Precocidade – quanto mais precoce uma matriz melhor, pois ela entrará mais cedo na estação de monta; nos novilhos essa relação já não é verdadeira, pois animais muito precoces irão parar seu desenvolvimento mais cedo e começar a depositar gordura antes do esperado, sem contar que normalmente animais muitos precoces apresentam menor tamanho adulto.
&bull: Alto ganho de peso – essa característica não é desejável para vacas em produção, pois deve-se buscar animais que destinem sua energia para a reprodução e não para a produção de carne, já que a finalidade delas não é o abate; no caso de animais de engorda deve-se buscar o contrário para se conseguir o máximo de produção possível.

Dessa forma fica claro que o macho ótimo não é irmão da vaca ótima e assim não se deve utilizar o mesmo touro para produzir animais de engorda e matrizes. Isso acontece porque existe divergência sexual dos requisitos funcionais com exposto acima e evidenciando que devemos planejar a reprodução para conseguir maior eficiência na produção de bezerros.

Algumas alternativas para driblar esses problemas são:

&bull: trabalhar nem lá nem cá, ou seja, não utilizar touros muito especializados e assim conseguir animais médios, mas também com potencial reduzido e também com resultados médios;
&bull: alterar a curva de crescimento, que pode ser feito através do melhoramento genético, buscando animais que tem crescimento acelerado durante os primeiros anos de vida e depois param de crescer reduzindo as exigências de mantença quando utilizados na reprodução, mas é uma técnica muito difícil de ser aplicada; ou
&bull: trabalhar com linhagens diferentes para a produção de machos e fêmeas, alternativa que pode ser racionalizada com o uso de tecnologias como a IATF (Inseminação Artificial em Tempo Fixo) e sêmen sexado.

Um ponto importante para garantir a eficiência do sistema de produção é buscar trabalhar com o máximo de vacas por hectare. Para manter um rebanho de vacas em boas condições é necessário que elas consumam aproximadamente 6,8 vezes mais energia do que os bezerros. Como em um sistema de cria são os bezerros que vão gerar renda, fica claro que esses animais devem estar no foco da produção e quanto mais bezerros se conseguir ter na propriedade, consequentemente, maior será a renda no final do ciclo de produção.

Em uma conta rápida para exemplificar esse conceito e a necessidade da seleção de animais menores, pode-se concluir que no lugar de 1.000 vacas de 500 kg, cabem 1.140 vacas de 420 kg, que evidentemente irão produzir um número maior de bezerros.

As tecnologias de reprodução mais difundidas na pecuária brasileira até o momento são : estação de monta, seleção de fêmeas e uso de touros melhoradores. Mas a aplicação de IATF e o uso de sêmen sexado, já são viáveis em escalas comerciais e podem ajudar o produtor no planejamento dos nascimentos e no aumento da eficiência da propriedade.

O uso do sêmen sexado permite a realização do melhoramento genético de forma mais eficaz. Isso pode ser feito utilizando touros com altas DEPs de ganho de peso apenas para a produção de machos, enquanto as fêmeas de reposição serão produzidas com sêmen de touros que transmitem características desejadas para a reprodução, como precocidade e habilidade materna.

Na Fazenda Sucuri, esse sistema já foi adotado e começa a mostrar os primeiros resultados. Neste caso, o conceito utilizado é buscar a manutenção de um rebanho de vacas pequenas que irão produzir bezerros com alto potencial de ganho de peso, através da heterose (cruzamento industrial) e do uso de touros Nelore melhoradores com altas DEPs para ganho de peso.

Também está sendo usado sêmen sexado para potencializar a produção de matrizes, ou seja, as vacas que apresentam mais características interessantes para a reprodução, como citado acima, são inseminadas com sêmen sexado de fêmea de touros que transmitem características como baixo tamanho corporal e alta habilidade materna para produzir apenas fêmeas de alta qualidade que serão utilizadas na reposição do rebanho.

Na propriedade a seleção e o planejamento da reprodução está sendo operacionalizado de acordo com a seguinte estratégia.

Primeiro é feita uma apartação dos animais para selecionar as melhores novilhas, que serão colocadas em reprodução. Neste momento busca-se separar a novilhas com bom tipo maternal, aquelas que se tornarão a melhores vacas para cria.

Após a seleção ainda é apartado um florão, que são animais com características de altíssimo ganho de peso e consequentemente maior necessidade de mantença, que é retirado do lote de futuras matrizes e juntamente com os animais mais “fracos” é enviado para a engorda.

Lote Florão

Lote Fundo

Nesse lote de novilhas apartado para a reprodução será feita IATF com sêmen sexado de fêmea de touros com tipo maternal, baixo ganho de peso, alta profundidade corporal, pernas pequenas e comprimento pequeno, para a produção de bezerras altamente precoces. Depois da inseminação, essas novilhas serão repassadas também por touros com tipo maternal, escolhidos no plantel da fazenda.

Touros de repasse com tipo maternal

A inseminação das vacas é feita com touros com características de terminação, no caso da Fazenda Sucuri é utilizado sêmen de touro Pardo Suiço. As que não emprenharem na inseminação são repassadas com touros Nelore com tipo terminal, ou seja, são utilizados animais com maior tamanho corporal, mais compridos e mais altos, e assim produzir machos e fêmeas com alto potencial de ganho e que serão destinados ao abate.

Touros de repasse com tipo terminal

Ao final da estação de monta, as fêmeas vazias são descartadas e é feita a marcação das crias com o mês de nascimento para que posteriormente seja possível fazer a seleção de novilhas com tipo maternal novamente.

Os resultados esperados na estação deste ano são:

No lote de 850 vacas – caso se tenha 50% de sucesso na IATF e 85% de fertilidade – teremos 213 macho F1 (Nelore x Pardo Suiço) e 212 fêmeas F1, além de 145 machos e 145 fêmeas filhas de touro Nelore de repasse.

No lote de novilhas é esperado 40% de sucesso na IATF, com o nascimento de 54 fêmeas Nelore com características maternais e 6 machos Nelore precoces. Das que não emprenharam na inseminação irão nascer 37 fêmeas ± precoces e 38 machos ± precoces.

Para a reposição serão utilizadas as filhas do lote de novilhas e 59 fêmeas retiradas do lote de bezerras filhas de vacas com touros mais tardios.

Assim a expectativa é que ao final dos nascimentos tenha-se os resultados apresentados no quadro abaixo.

Com essa estratégia e o maior uso de tecnologia será possível racionalizar o uso dos touros, tentando planejar melhor os nascimentos. Além disso, são esperados maior fertilidade, aumento da taxa de lotação, descartes que irão mais cedo para o abate e um rebanho com vacas e novilhas mais precoces e de maior eficiência no aproveitamento da forragem disponível.

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This post was published on 12 de novembro de 2009

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  • Fui Secretário de Estado da Agricultura do Estado de Goiás, por duas vezes e sempre acompanho o crescimento da melhoria da genética da bovinocultura e de assuntos do mercado agrícola do país.

    Crio gado nelore em regime de pasto. no Estado do Tocantins, em parceria.

    Encontrei no BeefPoint, informações atualizadas de excelente qualidade, com muita objetividade, por exemplo a palestra de Humberto de Freitas Tavares, sobre a produção industrial de bezerros.

    Obrigado pela oportunidade

    Robledo Resende

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