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Pressões externas sobre a pauta de exportações tendem a se fortalecer

Na euforia de uma retomada pós-pandemia, projetada por analistas como resultado da vacinação em massa no planeta, os primeiros lugares da fila deverão ser ocupados por países de economia comprometida com a agenda de sustentabilidade. Precificação de carbono e outros mecanismos que punem impactos ambientais desafiam a competitividade no comércio exterior, acelerando uma tendência já em alta antes da atual crise. “O Brasil está atrasado nesse processo e, devido a uma leitura ideologizada, caminhamos para o precipício”, diz Sérgio Leitão, diretor executivo do Instituto Escolhas. 

A covid-19 enxugou o dinheiro do mundo, com necessidade de regulações e critérios de mercado para direcionar capital à mitigação da mudança climática, como tem observado o ex-ministro Joaquim Levy, hoje diretor de estratégia econômica e relações com mercados no Banco Safra. 

“A soberba de setores retrógrados dá álibi a medidas protecionistas para travar exportações brasileiras”, analisa Leitão, para quem, na contramão do que se vê, o “novo eixo da política externa precisa ser o meio ambiente”. 

Mercadorias exportadas carregam pegada de carbono e de água para países consumidores, o que eleva pressões. Estudo do Instituto Escolhas a ser divulgado em fevereiro, com a análise de uma usina termelétrica a óleo combustível no Sul do país, demonstra que negócios se tornam inviáveis quando as contas incorporam custos ambientais hoje pagos pela sociedade como um todo – no caso, referentes a emissões de gases de efeito estufa pela energia suja.

“A gestão ambiental deixou de ser o cachorro que dorme no lado de fora da casa”, ilustra Leitão, apontando reflexos no agronegócio exportador. “Já não é uma verdade absoluta que nossa produção é limpa e barata, e que o mundo necessariamente terá que comprar de nós para alimentar a população, sejamos sustentáveis ou não.” 

Os sinais vêm de várias partes e, segundo analistas, serão mais intensos até a COP 26, a conferência do clima de Glasgow, em novembro. É crescente a exigência de certificações ambientais pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e a eleição de Joe Biden nos EUA tende a reforçar a temática na retomada do multilateralismo. Na Europa, o presidente francês, Emmanuel Macron, tem afirmado que depender da soja brasileira é endossar o desmatamento – assunto em pauta nos trâmites do acordo Mercosul-União Europeia, com riscos para o agronegócio nacional. 

A China, principal parceiro comercial do Brasil, tem plano de aliar protocolos de sustentabilidade, qualidade e segurança alimentar. Nos primeiros seis meses de 2020, o país asiático representou 40% das exportações brasileiras (US$ 41,2 bilhões), com a soja no topo da lista, segundo o Ministério da Economia. 

“O Brasil terá que fazer a lição de casa, porque a China não ficará atrás no movimento ESG”, afirma Fabíola Zerbini, diretora do Tropical Forest Alliance (TFA) na América Latina, plataforma ligada ao Fórum Econômico Mundial para apoio à redução de desmatamento em cadeias globais. O organismo promove rodadas de diálogo entre os dois países para o alcance de soluções sustentáveis na soja e carne, na perspectiva da meta chinesa de descarbonização da economia até 2060. 

Marcello Brito, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio e membro da Coalizão Brasil, Florestas e Agricultura, enfatiza: “Pelo segundo ano consecutivo somos os maiores desmatadores do planeta, e se o país não mudar de postura sofreremos severas consequências – não de imediato, porque o mundo prioriza a covid-19”. Ele diz que os sinais são claros e é preciso escolher entre “ser protagonista do clima ou ficar a reboque dos outros”. 

“Com soja, carne e petróleo na ponta das exportações, temos que saber vendê-los de forma convincente e acender o alerta contra sanções pelo desmatamento”, analisa Antônio Francisco Silva Júnior, professor de finanças na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Os riscos, segundo ele, podem levar à desvalorização da moeda, com aumento do custo de captação, bem como de financiamento da dívida no exterior. 

Na visão de Viviane Torinelli, cofundadora da Brazilian Research Alliance for Sustainable Finance and Investment (Brasfi), a saída de capital do país em 2020 e a diminuição das exportações de produtos manufaturados em 23,3%, na comparação com 2019, têm a pandemia como explicação mais óbvia. Mas outros fatores, diz a pesquisadora, não devem ser esquecidos: “Parafraseando Shakespeare, em Hamlet: há mais ESG entre o mundo desenvolvido e o Brasil do que supõe a nossa vã filosofia”. 

Fonte: Valor Econômico.

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