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Preparo de solo com antecedência é fundamental

O manejo do solo é definido como o conjunto de operações necessárias para a exploração agrícola do solo e tem como objetivo propiciar condições favoráveis à semeadura, à emergência uniforme das plântulas e ao desenvolvimento radicular e da parte aérea de todas as espécies que compõem o sistema de produção. Os sistemas de manejo do solo e das culturas afetam a suscetibilidade do solo à erosão e, deste modo, as perdas de solo e nutrientes, principalmente a matéria orgânica do solo, devido aos seus efeitos sobre a distribuição dos resíduos vegetais no perfil do solo, a dinâmica da água e a variação térmica do solo.

A matéria orgânica (MOS) é considerada a variável determinante da produtividade em solos tropicais, devido as suas implicações em características químicas (capacidade de troca de cátions), físicas (estabilidade estrutural e porosidade) e biológicas (biomassa microbiana e diversidade biológica). A permanência dos resíduos vegetais na superfície do solo no sistema de manejo denominado de semeadura direta diminui em 20% a taxa de decomposição dos resíduos vegetais. Essa maior quantidade de resíduos na superfície determina condições de menor variação térmica e maior disponibilidade de água, que favorecem o desenvolvimento e produtividade das culturas.

Desta forma, para a sustentabilidade da produção, do ponto de vista econômico, ambiental e social, atenção especial deve ser dispensada ao solo, pois o seu uso inadequado pode inviabilizar a atividade agrícola. Para evitar a degradação ambiental e atingir o desenvolvimento sustentável, é fundamental a adoção de diversas práticas, dando-se prioridade ao uso dos sistemas de semeadura direta e rotação de culturas, visto que envolvem, simultaneamente, boas práticas conservacionistas. Contudo, em situações especificamente justificadas, poderão ser utilizadas práticas racionais de preparo do solo.

Preparo do solo

O preparo do solo é uma operação planejada de acordo com as características de cada solo devendo a mesma ser realizada com antecedência para que ocorra a reação do calcário no solo e maior eficiência dos fertilizantes aplicados durante o desenvolvimento da cultura, objetivando fornecer as condições ideais para a germinação rápida e uniforme das sementes, permitindo às plântulas o melhor aproveitamento de água e nutrientes, reduzindo a competição com as plantas daninhas, além da maior resistência e tolerância aos períodos de seca.

O sistema de preparo da área depende das necessidades de correção de quaisquer impedimentos ao desenvolvimento das raízes ou manutenção de condições adequadas do solo, podendo ser empregado tanto o sistema convencional como o direto.

Sistema Convencional

Apesar da semeadura direta ser a prática mais correta de manejo do solo, do ponto de vista conservacionista, é possível o cultivo pelo sistema de preparo convencional, desde que utilizado racionalmente, devido aos sérios riscos de degradação ambiental pelo processo erosivo possibilitado pela grande movimentação de solo. O preparo primário do solo envolve a aração e/ou a escarificação, com o objetivo principal de romper a camada compactada, aumentar a aeração e a retenção de água do solo, além de promover o controle das plantas daninhas e incorporação de restos culturais.

Devido aos maiores riscos de compactação, pelo tráfego de máquinas mais intenso, deve-se adotar a rotação de implementos de preparo, o que possibilita diferentes condições e profundidade de trabalho no solo e movimentação de solo. A escarificação, como alternativa de preparo, possibilita a permanência do máximo possível de resíduos culturais na superfície e substitui, com vantagens, a aração e a gradagem aradora, desde que se reduza o número de gradagens niveladoras.

As operações de preparo de solo requerem condições de umidade adequadas para minimizar a formação de camadas de compactação. Quando for utilizado o arado ou a grade, o solo deverá apresentar consistência friável e, portanto, umidade na faixa de 60% a 70% da capacidade de campo, para solos argilosos, e de 60% a 80%, para solos arenosos. Quando for usado o escarificador, a faixa ideal de umidade será de 30% a 40% da capacidade de campo, para solos argilosos.

Atenção especial deve ser dada ao preparo profundo do solo, principalmente no caso de solos distróficos e álicos. A movimentação profunda do solo poderá trazer para a superfície camadas não corrigidas, contendo alumínio em níveis tóxicos e com baixa disponibilidade de fósforo, podendo prejudicar o desenvolvimento das plantas. Nesse caso, é necessário conhecer a distribuição dos nutrientes e o pH no perfil do solo, para determinar a necessidade de manejo químico com corretivos de acidez e da gessagem. O gesso atua com melhorador do ambiente radicular, aumentando a área explorada pelas raízes e resistência aos veranicos.

O preparo secundário do solo com grade niveladora objetiva a uniformização do terreno e a incorporação de resíduos, possibilitando uma operação de semeadura mais eficiente. Devido aos riscos de compactação, esta operação deve ser limitada ao mínimo de passagens do implemento e realizada próximo da época de semeadura/plantio.

Semeadura direta

No passado, o sistema de produção tinha como principal forma de preparo do solo o sistema convencional, com o uso de aração e gradagem, com os objetivos de reduzir as camadas de impedimento e uniformizar o terreno, facilitando a operação de semeadura e possibilitando o melhor desenvolvimento das raízes. Em contrapartida, ocorria a degradação da estrutura do solo, com a formação freqüente de camadas subsuperficiais compactadas, além do encrostamento superficial e perdas de solo por erosão. Além disso, o número excessivo de operações promovia o atraso na semeadura, prejudicando a cultura, principalmente nas condições de safrinha, em função do regime hídrico coincidindo com o final das chuvas.

Atualmente, novo enfoque é dado ao sistema de cultivo. A semeadura direta apresenta-se como o sistema ideal de exploração agropecuária por vários aspectos: o número de operações é reduzido, tornando a sucessão de cultivos mais rápida; a mobilização de solo ocorre apenas na linha de semeadura, resultando na manutenção da estrutura do solo e da cobertura com resíduos vegetais, reduzindo as perdas de solo por erosão; aumenta o teor de matéria orgânica do solo, melhorando o potencial produtivo do solo; melhora a conservação da água no solo, aumentando a água disponível às culturas. Assim, é um sistema de produção conservacionista, que se contrapõe ao sistema tradicional de manejo, envolvendo o uso de técnicas específicas, preservando a qualidade ambiental. Contudo, apresenta alguns requisitos relativos aos recursos humanos, técnicos, e de infra-estrutura.

A semeadura direta ou plantio direto fundamenta-se, basicamente, na ausência de preparo do solo e na cobertura permanente do terreno através da rotação de culturas. É importante ressaltar que a semeadura direta não deve ser encarada como uma prática possível de ser aplicada em todos os tipos de solos. Solos degradados, compactados, ácidos e infestados de plantas daninhas, devem ser submetidos a práticas corretivas antes da adoção do sistema.

Além da compactação do solo, seja ela natural, pela ausência de revolvimento, ou induzida, pelo uso excessivo de implementos em condições inadequadas de umidade do solo, a acidez subsuperficial com presença de alumínio em níveis tóxicos e a possibilidade de infecção por fungos fitopatogênicos existentes na palhada do cultivo anterior, são as principais limitações observadas no sistema de semeadura direta.

Assim sendo, a adoção do sistema de semeadura direta requer um planejamento, iniciado por um diagnóstico das áreas de cultivo, e um programa de correção das limitações físicas e químicas existentes. Para tanto, é necessário coletar e organizar informações referentes ao tipo de solo, à presença de camadas de compactação, à fertilidade e acidez em subsuperfície, à distribuição e número de espécies de plantas infestantes, à topografia, à ocorrência de erosão, às práticas conservacionistas existentes, à drenagem, aos córregos, aos açudes, entre outras.

No caso de solos compactados, o rompimento dessa camada pode ser efetuado, com eficiência, através do preparo convencional, com aração a maior profundidade, subsolagem, escarificação ou outro manejo mais adequado ao tipo de solo e a disponibilidade de implemento, devendo ser realizado até a profundidade imediatamente abaixo da camada de impedimento, no cultivo que antecede a semeadura. Nesse momento, também deve ser feito, caso necessário, a correção da acidez. A partir desse momento, a semeadura direta deve ser o manejo padrão do solo.

O levantamento e o mapeamento da ocorrência de plantas infestantes é muito útil para definir o manejo adequado, principalmente pela sensibilidade das plantas a alguns herbicidas aplicados na cultura anterior ou a falta de registro de produtos. Para o planejamento adequado, faz-se necessária a divisão da propriedade em talhões com características homogêneas, segundo a declividade, o tipo de solo, fertilidade, histórico de manejo químico e os cultivos anteriores. As atividades na propriedade são estabelecidas a partir de um cronograma organizado para cada talhão, desde as ações para a correção da acidez e fertilidade, descompactação, manejo de coberturas vegetais e controle fitossanitário.

Cabe ressaltar que para utilização de fertilizantes e corretivos, a coleta de solo tem que ser bem feita e a análise de solo deve ser realizada em laboratórios credenciados são etapas fundamentais, é com o resultado da análise e com auxilio de um técnico especializado, que pode-se indicar as doses adequadas dos adubos para cada cultura, haja vista, que mesmo com o preparo do solo bem feito, a cultura alcançará seu máximo potencial de produção se estiver adequadamente bem nutrida. O produtor também deve ficar atento ao programa de análise de solo para posterior interpretação: ROLAS para o RS e SC; CELA para o PR; IAC em SP; PROFERT para MG e alguns estados vizinhos e Embrapa-CNPS, que cobre o restante do país. Esses programas apresentam, em muitos casos, metodologias de análise e de interpretação distintas que podem ocasionar em erros de interpretação.

Esta matéria foi publicada também na revista Campo & Negócios.

This post was published on 15 de abril de 2009

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  • hoje o que vemos, são máquinas de aluguel trabalhando de "morro abaixo" e criando cada vez mais erosão.

  • Dr Adônis,

    Considero seu artigo de grande importância, considerando a enorme área de pastagem submetida a reforma em nosso país.

    Se me permite, gostaria de colaborar com seu trabalho, ralatando minha experiência na área de produção de sementes, reforma de pastagens e manejo.

    Quanto as sementes de forrageiras está ocorrendo uma melhoria soignificativa na qualidade das mesmas, pois já nesse ano de 2009 a pureza mínma terá de ser de 60%, sem duvida um avanço, mas teria de ser acima de 90% em minha opinião. Problemas muito comuns na formação de pastagens, que já verifiquei no campo, são: falta de cobertura da semente após a semeadura, não utilização de técnicas adequadas de conservação de solo durante o preparo e com muito frequência, problemas de fermentação de restos vegetais enterrrados durante o preparo de solo, afetando a germinação das sementes, reduzindo o "stand" (esse problema está associado a o mal preparo de solo, evidentemente).

    Finalmente, afirmo que o mau manejo das pastagens reduzem drásticamente a vida útil de um pasto, sem contar a exposição do solo a processos erosivos, que é o mais grave.

    Atenciosamente,

  • Caro Ulisses
    Concordo contigo em gênero, número e grau.
    Sobre produção de semente forrageiras (mais ou menos 12 mil hectares ou mais), existe uma vastidão de coisas à serem feitas, como por exemplo, quais as doses de N, P, e K?. Em relação aos micronutrientes - os produtores utilizam fritas, mas sabemos que o B é extremamente importante na viabilidade da fecundação, será que não e necessário um reforço?.
    Este é agora o nosso desafio
    Att
    Adônis

  • Caro Dr Adonis
    Só para lembrar, nós que estamos produzindo sementes de pastagens, devemos muito a o Dr Francisco aí da Embrapa Pecuária Sudeste. Seus trabalhos e palestras são fantásticos. Na verdade, ele é nossa melhor fonte de informação sobre produção de sementes. Sua dedicação vai muito além de cumprir sua obrigação de pesquisador.
    Ulisses

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