Polpa cítrica + pastagem: um casamento perfeito e lucrativo!

O bezerro sumiu! O boi magro está caro (R$ 1.099,00 em São Paulo ou R$ 1.500,00 no Mato Grosso do Sul), a arroba baixando no mercado futuro (na casa dos R$ 78,00) e a crise que ronda e assombra as fazendas. Mesmo os mais otimistas, quando colocam na ponta do lápis os gastos finais da produção intensiva, seja com alimentação (cerca de R$ 4,50/boi/dia), dificuldade da aquisição de insumos e animais, comparados com a receita final do confinamento, deparam com uma situação bem complicada: os números finais aparecem vermelhos.

Logo pensam, “como tirar leite de pedra”? Qual seria a alternativa economicamente viável para quem sobrevive da pecuária? Qual dieta a se utilizar? A quem recorrer?

Uma alternativa que não requer grandes investimentos, com aquisição de novas instalações, maquinário e mudanças no manejo, é o semiconfinamento. Este tipo de sistema consiste no fornecimento de pequenas quantias de ração no cocho para os animais manejados em pastejo e tem como objetivo elevar ao máximo o ganho de peso a um baixo custo operacional por meio da suplementação a exigência nutricional do animal, uma vez que as forragens oscilam em qualidade e disponibilidade nutricional durante o ano resultando nas flutuações de produtividade (GDP) no decorrer do ano.

Diversos são os alimentos utilizados, com destaque para o milho e trigo, porém, quando os preços de ambos estão altos, um subproduto que vem chamando a atenção nos últimos anos, devido a sua disponibilidade no Estado de São Paulo, é a polpa cítrica.

Este alimento apresenta uma ótima quantidade de energia, o que o torna como concentrado energético (NDT=82), entretanto, quando se trata de proteína bruta, seus valores são muito baixo (6,5).

Apesar da quantia de seu NDT, a polpa cítrica poderá substituir em até 75% a energia total da dieta, sendo necessária a inclusão em menores proporções de outros alimentos, e conseqüentemente, diminui o custo final da alimentação.

Realizamos um estudo com garrotes mestiços, de aproximadamente 18 meses na Fazenda Carafá – Mairinque/SP, na qual são criados exclusivamente em pastagens de braquiarão onde os suplementamos, na proporção de 0,6% do PV/animal/dia, com uma dieta a base de polpa cítrica, farelo de trigo e uréia por um período de 38 dias, durante o período das águas.

Os animais ganharam em média 804g/boi/dia, alguns animais tiveram o GDP em 1,2 kg/dia, e se consumissem apenas esta forragem seu GDP seria em torno de 500g/boi/dia, ou seja, houve uma diferença de 300g por animal. Se ao invés desse tipo de capim fosse utilizada alguma outra forragem, porém de melhor qualidade como, por exemplo o mombaça ou tobiatã, estes ganhos poderiam se elevar ainda mais, o que resultaria em uma boa rentabilidade ao pecuarista, já que a polpa é bem atrativa no Estado de São Paulo.

O semiconfinamento associado a esta dieta provou ser neste caso, além do baixo custo operacional e de infra-estrutura, uma ótima solução para maximizar o GDP em bovinos criados em pastejo, com aumento da produtividade, porém mantendo os “pés no chão”!

This post was published on 23 de março de 2009

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  • Interessante e de bom proveito porém, deveria indicar o custo dos insumos e o exato período do experimento porque a polpa cítrica tem sua procura aumentada na época da seca e um custo maior.

  • Eu desejaria obter a informação sobre a composição da dieta oferecida aos animais.

    Obrigado

  • Prezados leitores Antonio Guerra, Antonio Moura e Nelson Martin

    Muito obrigado pelos e-mails. Aqui vão as respostas às suas indagações.

    A dieta do seguinte estudo tinha a presente composição: 80 % de polpa cítrica, 17 % de farelo de trigo e 3 % de uréia. Adicionamos na ração ainda monensina sódica ( ionóforo) por meio do suplemento comercial denominado Rumefort ( Vallée), de acordo com dose recomendada pelo fabricante. O custo por quilograma de ração completa foi de R$ 0,56.

    Como os garrotes em questão tinham algo como 335 kg de peso vivo oferecemos diariamente 2 kg de ração, dividido em duas porções iguais ( uma às 7:30 h da manhã e outra às 13:30 horas). A dieta da tarde era antecipada para evitar a chuva quase diária que caia lá pelas 5 horas da tarde.

    O consumo da ração pelos animais era realizada dentro de 1 a 2 horas após o oferecimento. O Sal mineral comercial (55 % sal comum e 45 % de fosbovi 40) foi oferecido à vontade em cocho separado e não entrou no custo na ração citada acima.

    Realmente, a produção de polpa cítrica é sazonal, entre os meses de julho a fevereiro, e no período de entressafra o preço aumenta. Mesmo assim, alguns intermediários compram grandes estoques e vendem no decorrer desse período. Paguei a polpa cítrica no período de safra R$ 240,00 a tonelada, sem o carreto que me custou no caso cerca de R$ 75,00 por tonelada. Com comprei poucas toneladas de polpa o custo saiu maior.

    Um forte amplexo e muito sucesso em suas empreitadas de criação!

    Prof. Enrico Lippi Ortolani FMVZ-USP
    Med. Vet. Thales dos Anjos de Faria Vecchiato

  • Gostaria de saber quais os meses se refere o trabalho, visto que dependendo do período, no caso inicio do período chuvoso, Novembro, Dezembro temos conseguido ganhos de peso à pasto no sistema rotacionado em torno de 700-800 g/cab/dia sem suplementação. Portanto acho que o interessante seria ter um outro lote testemunho somente a pasto ao invés de afirmar ganhos à pasto de 500 g/cab/dia, não concordam?

  • Prezado Júlio Cesar Alencastro Veiga

    O trabalho foi feito nos meses de janeiro e parte de fevereiro. Realmente, o ganho de peso em bovinos mantidos pastagens muito bem rotacionadas e fertilizadas, durante o supracitado período, pode ser superior a 800 g/cabeça/dia.

    Contudo, em condições de pastoreio não muito adequadas em que exista excesso de lotação os ganhos de peso não costumam ultrapassar os 500 g por dia.

    Embora tenhamos trabalhado com pastagens razoavelmente bem manejadas, embora não fertilizadas, os bovinos em questão tiveram um ganho de peso médio de 800 g, porém não comentamos dois fatos extras.

    O primeiro deles é que a lotação animal por área foi cerca de 20% superior a utilizada anteriormente. Em outras palavras, o uso de semiconfinamento permite ao pecuarista manter um maior número de animais, sem provocar superpastoreio e ao mesmo tempo promover um ganho de peso adequado.

    Outro fato que devemos enfatizar é que não escamoteamos nenhum dado de ganho de peso, ou seja, consideramos no cálculo da média o baixo ganho de peso, ou até perda de peso de alguns garrotes que tiveram problemas de saúde ou de manejo (um caso de pneumonia, outro de problema articular e outros dois com míiases e abscessos cutâneos decorrentes de mordida de morcego). Esses animais baixaram sensivelmente a média geral.

    Na verdade desconsiderando-os e refazendo a média obtivemos o expressivo ganho de 1000 g/dia e um desvio padrão de 100 g.

    Na verdade "o pulo do gato" do semiconfinamento está em você aumentar a taxa de lotação e certamente também o ganho de peso individual e por área.

    Um forte amplexo!

    Enrico Lippi Ortolani
    Thales dos Anjos Faria Vechiato

  • Quando você aumenta a lotação você diminui a seletividade, com isto o ganho diário cai, para isto deve se corrigir a energia dos pasto nas águas, sugestão, 90% de milho, 5% de mineral, 5% de uréia até fevereiro ganho de 1kg/dia com um bom manejo, resíduo de 1500 kg de MS/ha, quantidade boi/dia 0,5% do peso vivo. A partir de fevereiro, 0,5% de caroço de algodão mais suplento proteico a vontade consumo 0,5g/kg de peso vivo. Assim os pecuaristas terão bois ganhando 1kg/dia e não precisa de confinamento, com esta estrategia, as boletas do fim do mês diminuem, hoje temos de usar tecnologias que gere poucas ou nenhuma boleta no fim do mês. Vou citar, usar o ganho compensatório, corrigir pastagens, introduzir leguminosas, esta da uma diferença de mais de 25% em relação testemunha, e por vai.

  • Pesquisa não pertinente, uma vez que todos sabem que é no periodo das águas que o pecuarista agrega de fato valor ao seu produto. E esse ganho como dito por um companheiro é obtido facilmente em pastagens bem manejadas à um custo bem menor. A pesquisa deve trabalhar direito, mostrar resultados na época seca (quando o bicho pega) e alternativas que realmente trazem resultado operacional. O produtor brasileiro precisa de reais alternativas.

  • Prezados Vechiato e Ortolani, gostaria de saber se esse trabalho foi publicado e onde posso encontrar, e como sugestão indico a leitura de alguns trabalhos realizados na Esalq, sobre interceptação luminosa e manejo de pastagem, esses trabalhos comprovam que quando bem manejados (altura certa), a qualidade das diversas forrageiras não se alteram, então a única coisa que poderia determinar diferentes ganhos de pesos como foi citado pelos senhores quando se utiliza um panicum, seria a disponibilidade de forragem, pela maior produção do panicum.

  • Prezado Sr. Eduardo Salvador Rocha e diletos leitores do BeefPoint

    Muito obrigado pelas suas considerações. Como escrevi na minha última resposta, em várias circunstâncias garrotes em apenas em pastoreio obtem ganhos de peso superiores aos 800 g durante o verão, mas volto a reafirmar que na maioria dos casos isto não acontece, principalmente quando existe um certo aumento de lotação.

    Um pecuarista vizinho meu teve ganhos de peso em seus garrotes, aparentemente sadios, inferiores aos 300 g/dia agora neste verão, pois não manejou adequadamente suas pastagens e incorreu em superpastoreio. Isto é muito mais comum do que parece.

    Tenho visitado muitas propriedades razoavelmente boas com ganhos de peso nem tão bons assim. Para obtenção de ganhos de peso superiores aos 800 g/dia as pastagens têm que estar muito bem manejadas e frequentemente fertilizadas, o que implica num gasto com fertlizantes.

    Muitos dos casos de alto ganho de peso estão envolvidos ganhos compensatórios temporários. No caso de minha pesquisa isto não ocorreu e muitos pecuaristas que alegam enormes ganhos de peso durante o verão o obtem durante os primeiros meses do verão enquanto existiu ganho de peso compensatório, diminuindo bastante este ganho nos meses subsequentes. Isto infelizmente é pouco comentado ou desconhecido entre os técnicos e pecuaristas.

    Refuto suas considerações que esta minha presente pesquisa não tem pertinência. No caso específico citado existiu um custo: benefíco adequado que garantiu vantagens econômicas do uso de polpa cítrica. O ganho médio de peso de 1000 g é significativo além de ter permitido aumentar a lotação animal por área.

    Também tive experiência com o uso de polpa cítrica durante o período da seca em regime de semiconfinamento. Desde que essa suplementação com polpa seja fornecida em conjunto com outras fontes de nitrogênio (uréia e proteína vegetal) a fim de fornecer uma dieta equivalente a 14% de PB e que as pastagens estejam relativamente adequadas para época, o ganho de peso pode atingir valores superiores aos 800 g/dia, enquanto o grupo controle (recebendo apenas uréia e suplemento mineral) não ultrapassa os 200g/dia.

    Me coloco a sua inteira disposição e aproveito o ensejo para enviar um forte amplexo!

    Enrico Lippi Ortolani

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