Parâmetros reprodutivos: uma ferramenta gerencial da empresa rural

A eficiência produtiva em fazendas de cria está vinculada a produção de bezerros que, por sua vez, está estreitamente ligada à performance reprodutiva do rebanho. Já em fazendas de recria e engorda a eficiência está quase que exclusivamente voltada à nutrição e sanidade dos animais e à venda dos produtos finais. Assim, é possível notar todas as fases do sistema produtivo de uma fazenda gira entorno de performance e resultados, os quais refletem em lucro ou prejuízo. A única forma de saber quanto se está ganhando ou deixando de ganhar, é mantendo-se um banco de dados muito bem organizado da fazenda e fazendo-se um bom gerenciamento desses dados, ligando o escritório ao campo.

Em uma empresa que visa alcançar lucros, é extremamente necessário que haja o controle total de todos os setores e que sejam determinadas metas a serem alcançadas. Uma fazenda é uma empresa, onde há investimento de capital e espera-se lucro. Por isso é fundamental o controle de todas as atividades e setores dentro da propriedade rural, ou seja, o gerenciamento.

Infelizmente, ainda observa-se que muitas propriedades são administradas de forma muito desleixada, sem controle rígido de suas atividades e sem planejamento. Esse descaso é muitas vezes um reflexo da demora que uma fazenda tem para “quebrar”, já que os prejuízos de um setor vão sendo cobertos pelo capital de outro, dando a imagem ao produtor de um falso equilíbrio e resultam em uma conseqüente comodidade com a situação. Nesses casos, quando o produtor realmente enxerga o tamanho do problema, já há grandes dívidas e muitas vezes a situação é irreversível. Entretanto, se for instituído um controle mais criterioso da propriedade, os problemas poderão ser rapidamente reconhecidos e corrigidos para que a fazenda não deixe de ser realmente produtiva.

Com base neste ponto, iremos apresentar alguns parâmetros reprodutivos, os quais poderão ajudar no estabelecimento de metas e objetivos. Naturalmente, ao pensar em reprodução, a primeira taxa que vem a cabeça é a “taxa de prenhez”. Assim, em uma propriedade de cria, sempre se tem o foco em “quantos por cento de vacas ficaram prenhes no final da estação de monta”. Porém, não podemos esquecer que esta é apenas uma das taxas que devemos olhar, pois este parâmetro é apenas o resultado parcial da reprodução e sozinho não é capaz de mostrar onde estão as falhas e em que pontos podemos atuar para melhorar essa taxa.

Por exemplo, uma alta taxa de prenhez no final da estação de monta pode ser devido à alta taxa de concepção do touro de repasse utilizado e não necessariamente da inseminação artificial utilizada na propriedade. Nesse caso, se outros critérios fossem utilizados mostrando que houve problemas na inseminação, uma investigação mais detalhada poderia ser feita para verificar se as falhas foram relativas a problemas no sêmen, inseminador, protocolo hormonal ou outro. Enfim, seria muito mais fácil se corrigir o problema para aumentar a taxa de prenhez subseqüente.

Seguem abaixo algumas taxas que consideramos importantes para o gerenciamento e controle da performance reprodutiva de um rebanho.

Em sistemas tradicionais de inseminação artificial com observação de cio, a taxa de serviço é um parâmetro que dará a noção de como está a ciclicidade dos animais e quão eficiente está a observação de cio. Sabemos que esta taxa pode variar de 0 a 100% e que, em sistemas em que se usa a detecção de cio, possuí influência de uma série de variáveis como a ciclicidade, a freqüência de observação de cio e a eficiência de observação de cio. As duas últimas, por sua vez, dependem muito do treinamento e dedicação dos funcionários que também são influenciados por uma série de fatores (financeiro, emocional, cultural etc).

Além disso, já está bem estabelecido na literatura cientifica que animais mantidos à pasto nas condições brasileiras (pouca oferta de alimento e pastagens de baixa qualidade) apresentam grande prevalência de anestro (aciclicidade), o qual irá refletir em baixa taxa de serviço. Assim, uma interessante maneira de aumentar a taxa de serviço seria melhorar a ciclicidade dos animais e não depender da detecção de cio. Hoje, o uso de biotécnicas relacionadas à reprodução como a inseminação artificial em tempo fixo (IATF) induzem a volta a ciclicidade e permitem que 100% dos animais sejam inseminados sem a necessidade da observação de cio, eliminando todos os possíveis problemas relacionados a ela.

Muitas pessoas acreditam que taxa de concepção e prenhez refletem a mesma coisa, porém isso não é sempre verdade. A taxa de concepção leva em conta apenas os animais que foram inseminados ou cobertos, já a taxa de prenhez considera todos os animais aptos a reprodução.

Assim, em um rebanho em que se usa a detecção de cio, a taxa de concepção consideraria os animais que entraram em cio e foram inseminados e a taxa de prenhez levaria em conta o total do rebanho em reprodução independente de terem dado cio ou terem sido inseminados. Consequentemente, pode-se concluir que, nesse caso, a taxa de concepção é sempre superior à taxa de prenhez da fazenda.

É importante ter isso bem claro para que não haja desentendimentos em conversas e leituras, tomando-se uma taxa pela outra e tendo a impressão de falsos resultados. Por exemplo, se dois produtores A e B estão conversando sobre as taxas de suas fazendas e o produtor A fala das taxas de prenhez e o B das taxa de concepção achando que estão falando da mesma coisa, certamente eles terão a impressão que a reprodução da fazenda B é muito mais eficiente, o que não é necessariamente verdade. Também é importante esclarecer que quando se utiliza programas de IATF essas duas taxas se igualam, pois tem-se 100 % de taxa de serviço e, portanto, todos os animais aptos a reprodução serão inseminados.

Após realizar um diagnóstico de gestação, muitas pessoas não mais se preocupam com o número de animais que continua gestante. Isso ocorre pois normalmente há uma baixa taxa de perda gestacional (ao redor de 3 a 5% entre 30 e 60 dias de gestação) em gado de corte. No entanto, se compararmos essa taxa com a encontrada em gado de leite (onde a perda gestacional em bem maior; ao redor de 20% no mesmo período), notaremos a importância da identificação destes animais para tentar corrigir com rapidez esta “falha”. Nesta classe de animais em que a perda gestacional é elevada, é comum a realização de exames com 30, 60, 100 dias de gestação e no momento da secagem, para que se possa proceder a reinseminação o mais rápido possível (lembrando que em gado de leite estabulado normalmente não há estação de monta e, portanto, esse processo deve ser contínuo).

Além disso, tanto para gado de leite quanto de corte, esta taxa pode mostrar um possível problema que esteja ocorrendo na propriedade referente a alguma doença infecciosa ou mesmo a técnicas de manejo. Sabe-se que doenças como brucelose e leptospirose, dentre outras, podem trazer um grande prejuízo e que medidas que levem a identificação dos animais infectados e a sua respectiva eliminação terão um impacto muito grande e de rápido efeito na propriedade. Além disso, ficaria fácil estabelecer uma estratégia mais rígida ou mesmo adotar um sistema de vacinação e diagnóstico de doença infecciosa.

Esta taxa trará uma visão de quanto está sendo eficiente a inseminação. Se o número de serviços por concepção for alto, significa que os animais foram inseminados muitas vezes para tornarem-se gestantes. Isso pode ser resultado principalmente de falha na detecção de cio (animal que efetivamente não está no cio), momento de inseminação errado ou inseminação ineficiente, entre outros.

Estes parâmetros estão inter-relacionados e terão reflexo direto na quantidade de bezerros nascidos na propriedade por ano. O período de serviço e o intervalo entre partos são diretamente influenciados pela taxa de ciclicidade do rebanho, assim como pelo momento em que ocorre o retorno a ciclidade no rebanho. Assim técnicas que possibilitem o adiantamento do retorno da ciclidade levarão a uma consequente melhora nestes dois parâmetros.

A taxa de reposição é um parâmetro que reflete a renovação de animais do rebanho. Ainda, pode refletir o quanto a propriedade está eficiente em ter animais gestantes, quando todos os animais “vazios” são eliminados. Exemplo, se a fazenda tiver uma taxa de 33% de reposição, isso significa que a cada 3 anos aproximadamente todo o seu rebanho será renovado.

Segue abaixo uma tabela com os parâmetros zootécnicos classificados em satisfatório, aceitável e comprometimento. Esta tabela pode ser usada como um guia rápido para consulta para ajudar a classificar a propriedade e a estabelecer metas de melhora ou adequação.

Tabela 1. Classificação dos parâmetros zootécnicos reprodutivos

Todos estes parâmetros irão ajudar a fazer um diagnóstico da propriedade rural, entretanto, para a fazenda ser realmente eficiente estes parâmetros devem ser corretamente levantados, armazenados e trabalhados. Para isso, existem hoje em dia diversos softwares de gerenciamento que podem ajudar. Entretanto, se o administrador da propriedade rural tiver grande organização isso também pode ser feito em simples planilhas do “Excel”. O mais importante, é trocar as famosas “cadernetas de anotação” por outro sistema no qual a informação possa ser acessada mais facilmente e rapidamente, com grande precisão. Além disso, sistemas computadorizados permitem a realização de diversos tipos de análises, cruzamento de dados e originam relatórios mais completos e confiáveis.

Isso não significa que o peão agora irá montar no lombo do cavalo levando nas costas um laptop. Significa que toda informação levantada no campo, no curral e no tronco de manejo que estava antes apenas em papel será transposta em planilhas de computador e gerará números para avaliação da propriedade, ajudando a estabelecer parâmetros e metas a serem alcançados.

Assim, pode-se ver que pequenas mudanças poderão ajudar na melhora do gerenciamento da propriedade e a transformação dela em uma empresa, a qual deverá trazer lucros e alcançar as metas estabelecidas. O mais interessante é que estas pequenas mudanças são feitas com ferramentas simples, baratas e facilitadoras de diagnóstico, que trazem grande retorno à propriedade.

Artigo alterado em 01/03/2010

4 thoughts on “Parâmetros reprodutivos: uma ferramenta gerencial da empresa rural”

  • Irezê Moraes Ferreira - 26/02/2010

    Primeiro parabenizo pelo artigo,pois devemos balizar as ações no campo dentro dos limites zootécnicos para sabermos como está sendo manejado a propriedade.
    gostaria de tirar uma dúvida em relação a taxa de serviço por concepção, ou seja, se é necessário multiplicar por 100 o resultado da divisão do número de inseminações pelo número de animais com prenhes positiva, uma vez que os indices para avaliação giram em torno de menor que 1,5 a maior que 2,o inseminações por prenhez.

  • Henderson Ayres - 01/03/2010

    Prezado Irezê Ferreira
    Muito obrigado pelos comentarios.
    Realmente ouve um erro, nesta taxa. Não se deve realizar a multiplicação por 100.
    Irei contactar o editor do site e corrigir este erro. Muito obrigado

  • leonardo ribeiro martins - 11/03/2010

    gostei muito do artigo..
    Gostaria que vc me mandaçe um meterial sobre reprodução, para min aprofunda mais nos estudos na “faculdade”…….Pq, quero fazer especialização na áreia

  • Ronaldo Mendonça dos Santos - 29/03/2010

    Parabéns pelo artigo!

    Atenciosamente,
    Ronaldo M. dos Santos.

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