O sucesso de qualquer projeto é tentar entender a demanda do consumidor e atendê-la de forma viável – por Roberto Barcellos

O BeefPoint já publicou diversos artigos apresentando casos de sucesso e experiências com cruzamentos de bovinos de corte, mas hoje, optamos por reunir uma série de opiniões de profissionais ligados ao setor do melhoramento genético, professores e produtores para discutirem a seguinte questão: Cruzamento entre bovinos europeus x continentais será que essa é uma tendência que veio pra ficar?

Por Roberto Barcellos, engenheiro agrônomo e responsável pela marca Beef&Veal.

Sou contra a generalização dos chamados grupos genéticos britânicos e/ou continentais, pois as raças e/ou linhagens dentro dos grupos genéticos são totalmente distintas. Ou seja, todas as raças britânicas são iguais? Todas as raças continentais são iguais? Segundo um professor: banana se compara com banana e maçã com maçã e nunca se compara banana com maçã.

Sou contra generalizar raça, pois todo animal de determinada raça é igual? Todo vinho malbec é igual?

Também não sou a favor de animais 100% europeus para a produção de carne nas condições brasileiras, inclusive Rio Grande do Sul, afinal um “sanguinho” zebu traz um ganho absurdo a todo sistema, ganho com heterose, rusticidade, conforto térmico, etc.

Touros continentais “modernos” também produzem bezerros pequenos e sem problemas de parto.

Tenho exemplos concretos de raças britânicas com frame alto e acabamento muito ruim, diversos exemplos de alguns elefantes que vemos por aí. Da mesma forma que temos exemplos concretos de raças continentais com frame absurdamente alto e problemas sérios de acabamento. Mas, tenho exemplos concretos de raças continentais com frame baixo e excelente acabamento, o simental sul-africano por exemplo.

Tenho exemplos concretos de cruzamento de Simental x Angus ou Brangus ou Simental X Hereford ou Braford com produtos de excelente rendimento de carcaça e alta qualidade de carne. E também de Nelore com nível de marmoreio do mesmo nível ou até superior aos melhores indivíduos britânicos em marmoreio. Como é a  linhagem Golias – Nelore do Golias em Araçatuba – SP.

Grandes varejistas estão apostando em raças continentais, pois estão cansados de jogar excesso de gordura no lixo. O Pão de açúcar perdeu 100 toneladas de gordura no ano de 2013, devido a exigência do consumidor em comprar cortes extra limpos.

A carne com gordura é preferência de cortes para churrasco que representam 15% dos cortes, os outro 85% são cortes para o dia a dia em que não se aceita excesso de gordura.

Esse padrões podem ser obtidos tanto com “raças britânicas” , “raças continentais”, “raças zebuínas” ou cruzas entre elas, desde que ajustados ao sistema de produção.

Em resumo, acredito que não podemos generalizar, ter paixão ou modismos.

Precisamos dar nome aos bois, ou melhor as raças, ou melhor ainda as linhagens e indivíduos.

O mercado pede alto peso de abate (300 kg de carcaça) e bons níveis de acabamento e tem remunerado mais por isso. Pode ainda não remunerar o suficiente, mas já representa uma clara sinalização de necessidade da indústria.

Como chegar nisso? Cada uma vai buscar seu caminho, sua aptidão. Todos os caminhos devem ser considerados quando houver viabilidade econômica.

Trabalho atualmente com raças britânicas, raças continentais, raças zebuínas, raças africanas e raças japonesas.

Nem sempre o mais eficiente é o projeto de maior agregação de valor

Buscamos o equilíbrio! O sucesso de qualquer projeto é tentar entender a demanda do consumidor e produzir isso de forma viável!

Assista ao vídeo que Roberto Barcellos enviou para ilustrar o tema:

Confira as opiniões já publicadas sobre o tema:

“Fui ver um concurso de carcaças em 1977 e fiquei impressionado com os animais e as carcaças!” – Pedro de Felício|Cruzamento entre bovinos europeus britânicos X continentais

“Conheci o trabalho de um criador de Marchigiana, que cruzou a fêmea Marchigiana com o touro Angus e o resultado foi surpreendente” – Eliane Massari|Cruzamento entre bovinos europeus britânicos X continentais

“É um cruzamento para ser utilizado na produção de carne ‘premium’ de alta qualidade” – Antonio Carlos Sciamarelli|Cruzamento entre bovinos europeus britânicos X continentais

“Certamente terá seu espaço para atender nichos específicos de mercado” – Edgar Nagle|Cruzamento entre bovinos europeus britânicos X continentais

“Trata-se de um cruzamento em que se vê compreendidas as grandes demandas da pecuária de corte atual” – Gabriel Junqueira

“Em escala comercial não temos no país realidade para esta prática” – Valdomiro Poliselli|Cruzamento entre bovinos europeus britânicos X continentais

Cruzamento entre bovinos europeus britânicos X continentais – será que é uma tendência que veio para ficar?

“Se pensarmos em pecuária extensiva a pasto – esquece!” – Daniel de Carvalho|Cruzamento entre bovinos europeus britânicos X continentais

“É bom poder contar com reprodutores ‘taurinos’ potencializados, como os combinados de sangue britânico e continental, para a produção de carne” – Caio Tristão|Cruzamento entre bovinos europeus britânicos X continentais

This post was last modified on 22 de julho de 2014 9:36

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  • Parabéns Roberto Barcellos pelo posicionamento e pela capacidade de síntese desta linha de raciocínio neste belo artigo.
    Concordo em gênero, número e grau com suas colocações. É muito bom encontrar alguém com uma percepção semelhante com a nossa. O interessante de tudo é que tanto as raças (recursos genéticos) como estratégias nutricionais e ambientes de produção, são fatores que favorecem e muito a produção de produtos diferenciados. Essa tem sido a receita de muitos cases de sucesso de variados produtos com certificação de origem pelo mundo.
    Neste artigo, em especial, destaco os trechos abaixo:
    "A carne com gordura é preferência de cortes para churrasco que representam 15% dos cortes, os outro 85% são cortes para o dia a dia em que não se aceita excesso de gordura. Esse padrões podem ser obtidos tanto com “raças britânicas” , “raças continentais”, “raças zebuínas” ou cruzas entre elas, desde que ajustados ao sistema de produção.Em resumo, acredito que não podemos generalizar, ter paixão ou modismos."

  • Rapidamente falando, estou presenciando aqui nos EUA animais cruzados Simental x Angus....Extremamente precoces, o que defini muito bem o que o Roberto Barcellos comentou sobre linhagem...Trabalhar linhagens de Simental voltadas para Precocidade, não generalizar para continentais e britânicos....Impressionante os animais... Mas acredito que estamos no caminho certo. O Mercado está ditando o caminho que devemos seguir, os eficientes continuaram no mercado...

  • Para as condições de clima quente e tropical onde predomina gramíneas C4. O melhor cruzamento para gado de corte apascentado em pasto de média a baixa qualidade para reprodução, recria e engorda é Nelore x Nelore. Sugerindo uma fêmea de média estatura, onde este substrato de média a baixa qualidade, possa atender a demanda de energia para Manutenção + Reprodução+ Gestação+ Leite para os bezerros e com meta de 90% de prenhes, além de, possuir resistência ao calor, endo e ectoparasitas+ encharcamento, etc. Nelore x Nelore é o gado do Brasil Tropical de clima quente e gramínea C4 de média e baixa qualidade.

  • No composto, achamos que mais de 1/8 de continental pode encarecer a terminaçao para programas de qualidade de carne, demora mais pra marmorizar, tendo que aumentar o peso da carcaça.

  • Cruzamos britanicos e continentais, mais taurinos adaptados e zebuinos desde 1994 no programa Montana. Percebemos claramentemente que Britanicos e Continentais sao bem distintos, portanto discordo do Roberto Barcellos quanto a generalizaçao. Continentais foram usados como animais de traçao, puxaram materiais de construçao para fazer todas aquelas cidades de pedra em cima de morros e montanhas da Europa, enquanto britanicos foram selecionados em areas planas e para terminar rapido. Continentais tem mais musculo, maior tamanho de peças, sao mais magros e mais tardios que britanicos.
    Quando queremos aumentar habilidade materna, precocidade e producao por hectare, carregamos nos britanicos, quando falta musculo, tamanho de carcaça e ossatura, aumentamos continentais.
    Fazemos o mesmo com a parcela Zebuina, aumentando ou diminuindo em funçao da rusticidade.
    O composto ja esta ai, é uma realidade, já estudou todas esses cruzamentos com ajuda da USP, e dá pra direciona-lo para o lado que quiser. Alem disso é adaptado no pais todo e pode ser usado de forma simples em grandes criatorios, mantendo SEMPRE heterose, quando outros cruzamentos sempre PERDEM heterose apos o F1.

  • Artigo sucinto, abrangente e sobretudo, equilibrado. Parabéns.

    Não há "magia". Na cadeia produtiva da carne, inclusive.

    Tendo sempre em mente a diversidade de nosso país, suas múltiplas caracterizações e demandas, atender o mercado é tarefa árdua que exige metas e escolhas desapaixonadas e, sobretudo, intensidade na seleção dos indivíduos, seja de qual raça for, perseguindo as necessárias adequações.

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