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O que aprendi com o saudoso Humberto Tavares

Aqui é o Miguel Cavalcanti.

Essa manhã soube pelo meu pai, que nosso amigo Humberto Tavares tinha falecido.

Fiquei triste, relembrando quanta coisa boa já tinha passado junto com o Humberto.

Aprendi muito com ele.

Eu já o conhecia pela amizade com meu pai, e pela seleção criteriosa que ele fazia com Nelore.

E no começo do BeefPoint, lá por 2001, 2002, eu comecei a trocar muitos aprendizados com o Humberto.

Ele era leitor assíduo e muito participativo. Era quase um colunista do BeefPoint. Escreveu muitos artigos de opinião no Espaço Aberto.

Ele palestrou no nosso segundo evento, um workshop sobre pecuária de cria, em outubro de 2009. O tema da sua palestra foi produção industrial de bezerros. O que ele fazia há mais de 10 anos, é novidade hoje.

Palestrou também no happy-hour BeefPoint na Feicorte de 2011, um evento diferente e divertido.

Eram palestras de apenas 5 minutos, cada uma com exatamente 20 slides, que auto-avançavam, automaticamente. Ou seja, super direto ao ponto e impossível de atrasar, pois o palestrante não controlava seus slides. E ele topou o convite inusitado.

Foi um dia de aprendizado expresso e muitas risadas.

Ele foi um dos pioneiros nas discussões e trocas de experiências sobre bem-estar animal. Acredito em 2004, participamos juntos de encontros na fazenda Mundo Novo em Uberaba, MG.

Um grupo seleto trocava experiências práticas sobre bem-estar animal. Mateus Paranhos, o saudoso Fernando Penteado Cardoso, seu filho Eduardo Cardoso, meu pai, e alguns poucos criadores e técnicos.

Também foi o fundador do grupo Provados a Pasto, que buscava selecionar Nelore produtivo a pasto, uma clara necessidade, oportunidade e posicionamento para o Brasil e para a pecuária mundial.

Mais recentemente, ajudou a fundar a Confraria da Carcaça Nelore. Uma associação de criadores que, usando a ultrassonografia, resolveu enfrentar o desafio de agregar mais qualidade a carne do Nelore.

Humberto também criava cavalos quarto de milha, e vendia semen não apenas de Nelore, mas de Angus e Pardo Suíço.

Apesar de criar Nelore há décadas, comprou genética Angus e começou a vender semen.

Ele claramente tinha a capacidade de entender o mercado, as oportunidades e a realidade.

Ele não se negava a enxergar o óbvio: o Nelore tinha uma posição chave na pecuária brasileira. Mas o Angus também teria um espaço crescente e muito importante.

Os puristas das duas raças tinham uma enorme dificuldade de ver o que o Humberto via muito bem.

Pontos chaves da evolução da pecuária de corte tiveram a participação e liderança do Humberto.

  • Bem-estar animal
  • Seleção para produção a pasto
  • Qualidade de carcaça
  • Tecnologia, produtividade e eficiência na cria
  • Crescimento da IATF
  • Rastreabilidade

Tudo isso contou com a influência positiva, inteligente e combativa do Humberto.

O trabalho do Humberto era uma expressão de quem ele era.

Pra mim, a maior qualidade do Humberto era o pensamento acurado e o que ele chamava de contrarianismo.

Ele tinha coragem de pensar diferente.

E para isso, estudava, ia a fundo, e formava sua opinião de forma muito embasada.

Tudo isso é muito raro hoje em dia.

Foi ele que me recomendou o livro “The art of contrary thinking”, que era bem o jeitão dele de pensar.

Mais do que pensar diferente, ele tinha a coragem de expressar opiniões diferentes e contrárias. E tinha a competência de fazer isso de forma tão embasada, que até seus maiores críticos tinham que respeitar.

E minha melhor história com o Humberto tem tudo a ver com isso.

Em 2012, eu tinha acabado de fazer uma cisão da empresa que eu era sócio, e o BeefPoint agora era uma empresa independente.

E naquele ano, com apenas 3 pessoas na equipe, eu decidi fazer 10 eventos de 2 dias cada um, com 20 palestras cada. E eram eventos presenciais.

Aquele projeto “maluco” do Miguel se tornou a base do nosso trabalho atual. Reunimos literalmente centenas de palestrantes de ponta ao longo do ano.

Foi o começo do “reunir quem faz hoje a pecuária do futuro” no BeefPoint.

Um dos eventos daquele ano tinha o tema certificação e rastreabilidade bovina.

O tema Sisbov e rastreabilidade era uma “novela” na pecuária desde o início do ano 2000.

O BeefPoint foi uma base para esses debates e discussões, em alto nível. Quando não existiam comentários em artigos, nós criamos um espaço amplo para debate, de visões opostas, sempre com respeito e aprofundamento. O Humberto vinha participando ativamente disso.

Nosso evento tinha palestrantes e patrocinadores que vendiam rastreabilidade, mas eu resolvi fazer algo diferente. Arriscado diriam alguns…

Resolvi que o evento do BeefPoint sobre rastreabilidade precisava trazer pontos de vista diferentes. Precisava trazer o “contrarianismo” e a divergência.

Convidei o Humberto para palestrar, num evento “cheio” de especialistas, consultores e vendedores de soluções sobre rastreabilidade. E sugeri o tema: “Porque eu não aderi ao Sisbov”.

Dias depois do convite por email, recebi a resposta abaixo:

Caríssimo Miguel,

Sendo no BeefPoint, eu posso ter certeza de um debate de alto nível, sem puxada de tapete pouco sutil. Assim sendo, por que não? Aceito o desafio.

Título: Por que não aderi ao Sisbov: Balanço e reflexões.

O aceite dele me deu um baita orgulho de que estávamos fazendo o correto. E me emociono de novo agora, depois de ir buscar o email dele do dia 24/07/2012.

Minha resposta:

Olá Humberto, boa noite. Muito obrigado por aceitar participar conosco. Você vai ajudar a elevar o nível de tudo que vamos abordar.

E foi a coisa mais incrível que eu poderia ter feito, por vários motivos.

Ter o Humberto na programação, deu o tom do evento.

Não era um evento onde todo mundo iria fazer elogios bonitos (e talvez simplistas) sobre rastreabilidade.

Todos os outros 20 palestrantes precisavam agora “subir o nível” das suas palestras. Todos também precisavam subir o nível das discussões e debates.

A palestra do Humberto foi memorável. Ele fez o dever de casa e levou uma palestra com muito embasamento.

Começou dizendo que não poderia ser contra rastreabilidade, pois sua formação era de engenheiro naval, e foi na navegação que a certificação começou no mundo.

E fez uma lista incrível de pontos do porque o sistema brasileiro tinha falhas evidentes, interesses diversos e falta de foco no que era o mais importante.

Foi uma apresentação 100% Humberto Tavares.

Simples.
Direto ao ponto.
Corajosa.
Embasada.
Verdadeira.

Com o propósito de contribuir.

Sou muito grato a tudo que vivi e aprendi com o Humberto.

Ele tinha realmente uma capacidade incrível de pensar, estudar e expressar sua opinião. Sem barulheira, com elegância, e com muita força.

Me deu tristeza perceber que a última vez que tive o privilégio de estar com ele, foi num dia de mastermind que organizamos em março de 2018, sobre visão de longo prazo na pecuária de corte.

Já fazem quase 4 anos.

Tempo demais sem conviver com quem eu admiro e respeito.

Mais um lembrete de que a vida é curta, e precisamos colocar mais intenção para fazer o que é mais importante. E esse lembrete vai ser vivido, também em honra a memória do amigo Humberto Tavares.

Obrigado Humberto pelo seu trabalho, seu exemplo, e inspiração.

Vamos seguir em frente, levando o que aprendemos com você.

Fique com Deus. Meus sentimentos a toda família.

Um abraço, Miguel Cavalcanti

1 Comment

  1. José Adalberto Silva disse:

    no ambito profissional um sábio, no pessoal gentlemen perdemos todos o rítmo por instantes , a vida segue ,… diferente.

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