O gado Nelore é reativo e não pró-ativo – Eduardo Penteado [Faz. Mundo Novo]

O bem-estar animal tem sido preocupação crescente entre pesquisadores, produtores e consumidores de todo o mundo que passaram a exigir com maior intensidade uma conduta humanitária no tratamento dos animais, no que diz respeito à produção, transporte e abate.

Assim, para mostrar o que está acontecendo de mais atual no Brasil  e no mundo frente a área de bem-estar animal, na cadeia produtiva bovina, o BeefPoint preparou algumas entrevistas com diversos pecuaristas que já adotam medidas de manejo que visam as boas práticas de manejo, compartilhando casos de sucesso na pecuária de corte.

Confira abaixo, o caso de sucesso da Fazenda Mundo Novo, de propriedade de Eduardo Penteado Cardoso, em Uberaba – MG:

Eduardo Penteado Cardoso é engenheiro agrônomo (ESALQ, 1972). Especialização em pastagens tropicais no CSIRO – Queensland/Austrália. Coordenador técnico do Programa Trienal de Melhoramento de Pastagens, BNB-Fortaleza/CE. Sócio de Sementes Semel Ltda-Matão/SP. Diretor da Manah Agropastoril Ltda-Brotas/SP e atualmente sócio-executivo da Fazenda Mundo Novo – Uberaba/MG.

“Nos últimos 20 anos estamos nos dedicando à criação e seleção da raça Nelore, linhagem Lemgruber, num rebanho de 3.500 animais PO, dos quais 1.500 são vacas registradas. Uma das características que estamos selecionando nos animais desde o início da década de 1980 é o temperamento: animais dóceis são muito mais produtivos e fáceis de lidar. Nossa prioridade era o bem-estar do homem, principalmente funcionários diretamente envolvidos com o gado. Junto com o trabalho genético, procuramos adotar práticas de manejo que não causassem estresse nos animais e que beneficiassem indiretamente as pessoas envolvidas no processo” – Eduardo P. Cardoso.

BeefPoint: Quais técnicas/práticas você desempenha em sua fazenda que resultou em bons resultados, quando o tema é bem-estar animal?

Eduardo P. Cardoso: Conhecer um pouco do comportamento dos animais e suas reações diante de determinadas situações, trazendo esses conhecimentos para o nosso benefício. Notamos, por exemplo, que o gado Nelore é reativo e não pró-ativo. Algumas vezes ele pode parecer bravo ou assustado, mas na verdade ele é alerta e é capaz de reagir a algum estímulo externo.

Se esse estímulo for, digamos, ríspido, ele reage de forma também ríspida. Já um estímulo calmo provoca uma reação tranquila, talvez pela sensação de conforto que o animal sente. Obedecer, quando é o caso, o instinto do animal pode ser benéfico para o homem. Por exemplo, o Nelore apresenta um comportamento gregário e está quase sempre agrupado, ou se agrupa no pasto sempre que algum movimento fora da rotina acontece. Dessa forma é recomendável e muito mais fácil levar o grupo todo para o curral e aí fazer a apartação necessária. Essa característica (gregarismo) facilita o manejo e demanda menos mão de obra.

Na desmama nós utilizamos vacas madrinhas, como forma de seguir o instinto dos bezerros de, naturalmente, formarem as “creches”, sempre com algumas vacas adultas por perto. Esse procedimento reduz o trauma da desmama, quando o bezerro é privado de alguns confortos: leite, presença da mãe, outros bezerros já conhecidos, etc.

BeefPoint: Conte pra nós qual a aceitabilidade de sua equipe quanto às técnicas de bem-estar animal? Como é feito o treinamento de seus funcionários?

Eduardo P. Cardoso: Como a pecuária está inserida num ambiente bastante conservador, não se muda tão fácil e rapidamente a cabeça das pessoas. Os vaqueiros querem ver para crer. Todavia, uma vez convencidos de que os princípios são válidos, eles passam a adota-los e a defende-los.

No começo tivemos a colaboração prestimosa da equipe da UNESP/Jaboticabal (Prof. Mateus Paranhos) que promoveu treinamentos para nós e para a equipe. Mais tarde, nós passamos a frequentar os currais e o campo e procuramos estimular os funcionários a adotar essas práticas, que são benéficas para eles próprios. Reconhecemos que deveríamos organizar cursos de reciclagem dos funcionários, para cuidarmos dos “ajustes finos” do manejo racional, mantendo a equipe motivada e atualizada.

BeefPoint: Quais instalações de sua propriedade são adequadas para as técnicas de bem-estar?

Eduardo P. Cardoso: Em 2001, nós construímos um curral de manejo racional comercial. Mais 2 unidades foram construídas na Mundo Novo nos anos subsequentes, sempre com as mesmas características baseadas nos princípios recomendados pela cientista americana Temple Grandin.

Os cochos de sal não são cobertos e são feitos com tambores cortados longitudinalmente, formando um conjunto itinerante que é deslocado semanalmente dentro de cada pasto: isso evita a formação de lama no seu entorno e dá mais conforto aos animais.

Procuramos manter algumas árvores nos pastos, permitindo que os animais tenham sombra para se protegerem nas horas mais quentes do dia.

BeefPoint: O que a sua propriedade difere das demais? As que utilizam boas práticas de manejo e as que não utilizam?

Eduardo P. Cardoso: Temos uma equipe mais enxuta em relação à que tínhamos antes: hoje são 7 vaqueiros, metade do que tínhamos até o ano 2000, para um rebanho de 3500 cabeças, onde a principal atividade é a seleção genética da raça Nelore. Temos poucas ocorrências de acidentes de trabalho causados pela lida com os animais. Temos poucas lesões físicas nos animais, pois ficam menos nervosos e movimentam-se mais calmamente durante o manejo. Os funcionários relacionam-se melhor, num clima de mais camaradagem. Essas vantagens são o resultado conjunto do manejo racional e do uso de animais geneticamente mais dóceis.

BeefPoint: Em relação ao manejo de bovinos, quais os erros mais comuns cometidos em sua propriedade?

Eduardo P. Cardoso: Progredimos bastante, mas precisamos melhorar ainda mais. Os erros derivam das formas tradicionais de se manejar o gado. Ainda existe alguma gritaria. As bandeirolas são utilizadas tanto para mover os animais na direção pretendida, quanto para “cutucá-los” de forma indiscriminada e sem necessidade.

BeefPoint: Que mensagem você deixaria para os pecuaristas que pretendem praticar técnicas relacionadas ao bem-estar animal?

Eduardo P. Cardoso: Poderia dizer que o bem–estar dos próprios pecuaristas pode ser aprimorado pela adoção de procedimentos que levem ao bem-estar dos animais. Podemos fazer com que, na maioria das vezes, os animais executem as tarefas que queremos, sem que sintam medo ou dor.

This post was last modified on 12 de abril de 2014 12:20

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