O FSH é capaz de promover melhora da taxa de prenhez em vacas Nelore inseminadas em tempo fixo?

A busca pela melhora da taxa de prenhez de vacas de corte é uma preocupação constante tanto para produtores, quanto para os técnicos envolvidos na cadeia de produção de bovinos. Assim, qualquer técnica, seja ela de manejo ou farmacológica, que possibilite a melhora do desempenho reprodutivo dos animais é altamente desejável. Entretanto, para que tais técnicas sejam aplicáveis é importante que apresentem praticidade e baixo custo.

Dentre as técnicas farmacológicas de manipulação do ciclo estral para a realização da inseminação artificial em tempo fixo (IATF), existem aquelas que visam um incremento no crescimento folicular/luteal para melhorar as taxas de prenhez. O fármaco mais utilizado e estudado para essa finalidade é a gonadotrofina coriônica eqüina (eCG). Diversos estudos utilizando a eCG têm demonstrado aumento nas taxas de prenhez em animais lactantes no pós-parto precoce (30 – 45 dias), baixa condição corporal e que apresentam alta incidência de anestro. Porém, atualmente, apenas uma empresa no Brasil detém a venda deste produto no mercado. Além disso, a pressão de alguns países em proibir a utilização deste tipo de produto nos animais de produção vem aumentando ultimamente. Assim, a busca de alternativas ao uso da eCG é algo que merece atenção.

Uma das alternativas ao uso da eCG é o a substituição deste fármaco pelo FSH (hormônio folículo estimulante). A idéia é que com esse fármaco se consiga promover um mesmo efeito e similar resultado àquele obtido com a eCG. Esta ferramenta já foi discutida em um artigo anterior: “O FSH é capaz de promover a mesma eficiência da eCG em vacas Nelore inseminadas em tempo fixo?”, no entanto, devido ao grande debate sobre este tema na seção de “cartas do leitor” e a obtenção de novos dados após a edição do último artigo, iremos apresentar a compilação de alguns resultados obtidos em estudos conduzidos por Universidades brasileiras e já publicados em congressos.

O protocolo base utilizado em todos os estudos foi o uso de um dispositivo de progesterona associado ao benzoato de estradiol no início do protocolo. No momento da retirada do dispositivo, todos os animais foram divididos homogeneamente para receber ou não a aplicação de eCG ou FSH nos diferentes grupos experimentais.

Segue abaixo uma tabela com os dados de taxa de prenhez destes estudos.

Tabela 1. Taxa de prenhez de vacas de corte submetidas a diferentes protocolos para inseminação artificial em tempo fixo com ou sem a administração de eCG ou FSH

Ao analisarmos estes dados, podemos verificar que nos três primeiros estudos mostrados na tabela acima, as taxas de prenhez com o uso da eCG foram superiores àquelas obtidas com o tratamento com o FSH. Porém, dois dos estudos demonstraram que o FSH é tão eficiente quanto a eCG. De forma geral, os dados compilados (última linha da tabela 1) evidenciaram que a taxa geral de prenhez foi semelhante entre os grupos.

Estes dados estão completamente de acordo com os relatos de campo, já que os resultados têm apresentado as mesmas variações acima descritas. Devemos lembrar que, de forma bastante semelhante, no início dos estudos utilizando a eCG houve uma grande variação de resultados. O aprofundamento desses estudos evidenciou, posteriormente, que a eCG apresenta resultado positivo, principalmente em animais lactantes no pós-parto precoce, com baixa condição corporal e que apresentam alta incidência de anestro. Quanto ao uso do FSH, os diversos grupos de pesquisa têm demonstrado que uma possível explicação para a variação de resposta ao tratamento com esse hormônio seja o grau de profundidade de anestro em que os animais se encontram durante o estudo.

Dos cinco trabalhos citados acima, dois mensuraram o diâmetro do maior folículo no momento da aplicação ou não de eCG/FSH e no momento da IATF, além de registrar a taxa de ovulação destes folículos (Gráfico 1). No estudo de Sales et al. (2009), foi notado que apenas a eCG aumentou o a taxa de crescimento folicular entre o dia da sua aplicação e a IATF, o diâmetro do maior folículo na IATF, a taxa de ovulação e, conseqüentemente, a taxa de prenhez. Já no estudo de Martins et al. (2010), não foi notado aumento dos diâmetros foliculares, mas a taxa de ovulação foi superior nos grupos tratados com eCG ou FSH. Com base na observação dos diâmetros foliculares encontrados pelos pesquisadores, acredita-se que um maior número de animais do estudo de Sales et al. (2009) apresentavam-se em anestro mais profundo que os animais de Martins et al. (2010).

Gráfico 1. Taxa de ovulação de vacas de corte lactantes tratadas com eCG, FSH ou sem tratamento adicional (Controle) no momento da retirada do dispositivo intravaginal de progesterona (Adaptado de Salles et al., 2009 e Martins et al., 2010)

Assim, podemos concluir que tanto a eCG quanto o FSH podem melhorar a taxa de prenhez de vacas submetidas a IATF, porém, ao se utilizar o FSH os critérios de seleção dos animais a serem tratados devem levar em consideração se os animais estão ou não em anestro profundo (diâmetros foliculares que não ultrapassam 8 – 9 mm de diâmetro). Entretanto, o uso da eCG dispensa essa classificação.

Bibliografia

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Sá Filho OG, Meneghetti M, Peres RF, Lamb GC, Vasconcelos JL. Fixed-time artificial insemination with estradiol and progesterone for Bos indicus cows II: strategies and factors affecting fertility. Theriogenology. 2009; 72(2):210-8.

Sales JNS; Crepaldi GA; Girotto RW; Baruselli PS. Effect of FSH and eCG on follicular dynamic and pregnancy rate in fixed-time AI protocol in anestrous beef cows. In: VIII Simposio Internacional de Reproducción Animal, 2009, Córdoba. Anais do VIII Simposio Internacional de Reproduccion Animal – IRAC2009, 2009[abstract].

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Martins CM, Valentim R, Bombonatto, DS, Santos ICC, Baruselli PS. Efeito do FSH e do eCG na dinâmica folicular e taxa de prenhez de protocolos de IATF em vacas zebuínas em anestro. Acta Sci Vet 2010;38(Suppl 2):731 [abstract].


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