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O FSH é capaz de promover a mesma eficiência da eCG em vacas Nelore inseminadas em tempo fixo?

Como já discutido anteriormente no artigo “Como melhorar a eficiência reprodutiva de vacas em anestro. Capítulo III: uso de eCG“, estudos utilizando a eCG têm demonstrado aumento nas taxas de prenhez de vacas lactantes no pós-parto e que apresentam alta incidência de anestro. No entanto, muitos profissionais têm buscado alternativas ao uso da eCG. Uma destas alternativas é o uso do FSH (hormônio folículo estimulante) com o intuito de promover um mesmo efeito e similar resultado ao eCG. Há relatos na literatura demonstrando que essa substituição (eCG por FSH) é possível (Santos et al., 2007), entretanto, há também relatos que mostram o contrário (Sá Filho et al., 2009; Sales et al., 2009). Assim sendo, iremos apresentar neste mês um desses estudos (Sales et al., 2009), no qual foi utilizado um número razoável de animais (n = 444) e observou-se que o FSH não apresentou efeito semelhante à eCG.

O objetivo do estudo foi avaliar o efeito dos tratamentos com FSH e eCG na dinâmica folicular (Experimento 1) e na taxa de concepção (Experimento 2) de vacas de corte paridas (lactantes) submetidas à inseminação artificial tempo fixo (IATF). No estudo da dinâmica folicular (Experimento 1), 389 vacas lactantes (Bos indicus; multíparas) com 30 a 60 dias pós-parto e escore de condição corporal (ECC) médio de 2.81±0.35 (escala de 1 a 5) foram utilizadas. Em dia aleatório do ciclo estral (D0), foi realizado exame ultrassonográfico (US) para verificar a presença ou ausência de corpo lúteo (CL). As vacas que apresentavam CL no D0 (n = 77) foram removidas do experimento. Neste mesmo dia, todos os animais sem CL receberam benzoato de estradiol e um dispositivo de progesterona intravaginal. No dia da remoção do dispositivo de progesterona (D8), as vacas foram examinadas novamente por US, para que fosse feita a mensuração do diâmetro do maior folículo e a divisão homogenea dos animais de acordo com tamanho folicular em três grupos de tratamento: as vacas do Grupo eCG receberam 300 UI de eCG, as do Grupo FSH receberam 10μg de FSH e os animais do Grupo de Controle não recebem qualquer tratamento adicional. Neste mesmo dia, as vacas receberam uma dose de prostagladina F2α e cipionato de estradiol. No D10 e D12, novos exames de US foram realizados para avaliar o diâmetro folicular e a taxa de ovulação, respectivamente.

No estudo de dinâmica folicular, houve efeito do tratamento (P = 0,001) na taxa de ovulação (Gráfico 1), no crescimento folicular diário (P = 0.006) entre o D8 e D10 (Gráfico 2) e no diâmetro do folículo dominante na IATF (Gráfico 3). Ainda, houve interação entre os tratamentos (eCG e FSH) e o ECC (P = 0,03) na taxa de ovulação, sendo que o tratamento com eCG aumentou a taxa de ovulação das vacas com baixo ECC (Gráfico 1. Taxa de ovulação de vacas de corte lactantes tratadas com eCG, FSH ou sem tratamento adicional (Controle) no momento da retirada do dispositivo intravaginal de progesterona (Adaptado de Salles et al., 2009)

Gráfico 2. Taxa de crescimento do maior folículo entre o D8 e D10 de vacas de corte lactantes tratadas com eCG, FSH ou sem tratamento adicional (Controle) no momento da retirada do dispositivo intravaginal de progesterona (Adaptado de Salles et al., 2009)

Gráfico 3. Diâmetro do folículo dominante no momento da IATF de vacas de corte lactantes tratadas com eCG, FSH ou sem tratamento adicional (Controle) no momento da retirada do dispositivo intravaginal de progesterona (Adaptado de Salles et al., 2009)

Para avaliar a taxa de concepção (Experimento 2), 444 vacas lactantes (30 a 60 dias pós-parto), com ECC médio de 2.77±0.33 foram utilizadas. As vacas foram submetidas ao mesmo tratamento acima descrito e foram inseminadas em tempo fixo 48h após remoção do dispositivo de progesterona. De maneira semelhante, a taxa de concepção foi influenciada pelo tratamento (P = 0,001, Gráfico 4). Ainda, semelhantemente à taxa de ovulação, houve interação entre o ECC e o tratamento (P=0,04), sendo que o tratamento com a eCG aumentou a taxa de concepção em vacas com baixo ECC (Gráfico 4. Taxa de concepção de vacas de corte lactantes tratadas com eCG, FSH ou sem tratamento adicional (Controle) no momento da retirada do dispositivo intravaginal de progesterona (Adaptado de Salles et al., 2009)

Os autores concluíram que o FSH não foi capaz de aumentar o crescimento folicular, o diâmetro do folículo dominante, a taxa de ovulação e a taxa de concepção. No entanto, estes efeitos foram observados quando a eCG foi utilizada em vacas lactantes em “anestro” inseminadas em tempo fixo.

Em conclusão, o uso da eCG no momento da retirada do dispositivo de progesterona melhora a dinâmica folicular, fato que pode ser comprovado pela aumento da taxa de crescimento final do folículo, pelo maior diâmetro do folículo dominante e pela maior taxa de ovulação. Estes fatos somados devem ser os responsáveis pela maior eficiência do protocolo de sincronização da ovulação, o que está refletindo no aumento na taxa de concepção das vacas tratadas com eCG. Além disso, a interação observada no artigo, mostra que o uso da eCG deve ser direcionado para animais com baixa condição corporal (Bibliografia

Sá Filho OG, Meneghetti M, Peres RF, Lamb GC, Vasconcelos JL. Fixed-time artificial insemination with estradiol and progesterone for Bos indicus cows II: strategies and factors affecting fertility. Theriogenology. 2009; 72(2):210-8.

Sales JNS; Crepaldi GA; Girotto RW; Baruselli PS. Effect of FSH and eCG on follicular dynamic and pregnancy rate in fixed-time AI protocol in anestrous beef cows. In: VIII Simposio Internacional de Reproducción Animal, 2009, Córdoba. Anais do VIII Simposio Internacional de Reproduccion Animal – IRAC2009, 2009.

Santos ICC, Martins CM, Valentim R, Baruselli PS. Pregnancy rate in FTAI anestrous Bos indicus cows treated with a single dose of FSHp (Folltropin1). Acta Sci Vet 2007;35(Suppl 3):1151 [abstract].

This post was published on 27 de novembro de 2009

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  • Prezado Ayres, tenho uma grande dúvida sobre a aplicação do eCG no momento da retirada do implante. Realizei um trabalho com aplicação de cálcio e glicose para avaliar a influência na taxa de prenhez e desvio do sexo da cria no protocolo de IATF convencional foi aplicado eCG na retirada dos implantes em todos animais (136 vacas) com bom ECC, apesar do Baruselli não recomendar para este tipo de animais. Os resultados foram satisfatoriamente bons, porém o pecuarista teve alta incidência de partos gemelares nas vacas. Presumimos ser a aplicação do eCG mesmo sabendo da fase da dinâmica folicular. Qual sua opinião o eCG realmente pode ter levado a partos gemelares?

    Atenciosamente,
    Ronaldo.

  • Primeiramente gostaria de parabeiza-lo pelo artigo, o qual é bastante oportuno.
    Recentemente tive a oportunidade de pariticipar de um curso sobre IATF ministrado pelo Dr. Manoel de Sá e o mesmo já tinha esclarecido quanto ao efeito desses dois farmacos.
    Ressalto a importância desse trabalho pois tenho colegas que tinham a intenção de usar o FSH para estimular o crescimento folicular em vacas em anestro e tiveram que mudar o protocolo em virtude desses esclarecimentos.
    Desde já agradeço a contribuição dos seus trabalhos que são bastante esclarecedores.

    FELICIDADES E PARABÉNS COLEGA HENDERSON AYRES

  • Prezado Ronaldo mendoça dos santos

    A ocorrencia de partos gemelares apos o uso da eCG pode ocorrer. Entretanto o uso da eCG no momento da retirada da fonte de P4 (D8) tem apresentado taxa ao redor de 3-5% em media. Logo, deve se avaliar quanto foi a taxa de parto gemelares e tambem saber a dose utilizada no seu experimento.

  • Caro Dr. Ayres, no experimento citado por você (Santos et all, 2007). O seu colega Dr. Claudiney Mello, pós-graduando do mesmo departamento que você, sob orientação do Prof. Baruselli, concluiu, em experimento realizado nos mesmos moldes que o apresentado, (314 vacas Nelore em anestro, com ECC 2,5 a 3, paridas, com grupos FSH, eCG e Controle), cuja dinâmica folicular mostrou que o FSH e eCG (30 vacas por grupo) tiveram a mesma taxa de crescimento folicular ao dia, que tiveram a mesma taxa de ovulação e prenhez, ambas maiores que o controle, e este experimento concluiu que os dois podiam ser utilizados para aumentar a taxa de prenhez em vacas em anestro. A única diferença observada entre os dois experimentos se refere aos protocolos utilizados, que no experimento de 2007 utilizou Benzoato de Estradiol no D9 e não Cipionato no D8, como neste ultimo. Você não acha que é um assunto que merece um pouco mais de estudos antes de formar opiniões categóricas como você o fez? Mesmo porque os resultados de campo utilizando FSH tem sido extremamente satisfatórios (pelo menos nos protocolos usando BE e não CE). Me lembro perfeitamente que vários experimentos, (muito bem realizados por sinal), também concluiram no passado que o uso da eCG era totalmente ineficaz e não aumentava a taxa de prenhez, coisa que hoje em dia não é mais questionada pela repetibilidade de bons resultados. Acredito eu que, afirmar que o FSH não é eficaz, em vista desses 2 experimentos existentes que se contradizem, não pode ser uma precipitação?

  • Prezado "Leandro Francisco Gofert"

    Neste artigo apresentado acima também cita outro experimento (Sá Filho et al., 2009), onde foram utilizadas 713 vacas Nelore (com 30 a 90 dias pós-parto e ECC no Dia 0 entre 2.25 e 2.75) e como o artigo de Sales et al. (2009), não apresentou melhora na taxa de concepção. Alé disso, no artigo de Sá Filho et al. (2009) foram utilizados os dois produtos comercias de FSH (Folltropin e Pluset) e nenhum dos dois produtos apresentou eficácia igual ao eCG.
    Assim, vejo que existem 2 experimentos, que somados totalizam 1100 animais inseminados, onde o FSH não apresentou melhora na taxa de concepção. Entretanto o trabalho de Santos et al. (2007) demonstrou que o FSH é tão eficaz quanto o eCG.
    Ainda, gostaria de salientar que a minha conclusão no artigo foi "SALES E COLABORADORES (2009) SUGERE QUE ESTE FÁRMACO NÃO DEVE SER UTILIZADO NESTA DOSE E NESSE MOMENTO COMO SUBSTITUTO DA eCG EM VACAS DE CORTE LACTANTES EM "ANESTRO" SUBMETIDAS A PROGRAMAS DE IATF".
    Concordo com o Senhor que mais experimentos devem ser realizados. O meu intuito neste artigo foi exatamente apresentar que este é um ponto o qual necessita de esclarecimentos. Ainda, a literatura tem apresentado que a substituição da eCG por FSH pode apresentar variação de resultados (desde melhora até mesmo piora). Logo cabe a cada um tomar a sua decisão qual fármaco utilizar.

  • Muito obrigado pelo seu esclarecimento. Na minha opinião, em sites como esse deveriam ser publicadas informações sobre tecnologias que estão consagradas e estabelecidas, visto que, ele se torna fonte de consulta aos profissionais de campo. Quando se fala que NÃO se deve usar, a maioria dos profissionais que aqui leem esses artigos podem tomar como verdade, algo que ainda é objeto de pesquisa e que pode ser ou não verdade. Um abraço.

  • Henderson, parabéns pelo artigo.

    Os resultados desse experimento de vocês são bastante semelhantes ao que realizamos (SÁ FILHO et al., 2009).

    Gostaria de saber se vocês fizeram alguma dosagem de P4 nesse experimento após a IATF para averiguar o efeito dos tratamentos na P4 (FSH x eCG)?

    Além disso, quero comentar que uma possibilidade para diminuir o número de partos gemelares (como mencionado anteriormente pelo Ronaldo) é deixar o dispositivo mais 1 dia, aumentando a probabilidade da dominância folicular estar melhor estabelecida no momento da aplicação do eCG, minimizando duplas ovulações.

    Abraços,

    Rogério Fonseca Guimarães Peres

  • Prezado Rogério,

    neste experimento, como no de vocês, o qual apresentou resultado semelhante na taxa prenhez, não foi dosado a progesterona no ciclo estral subsequente.

    Muito obrigado pelo comentario, abraços.

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