O crescimento da IATF e seu impacto na cadeia produtiva da carne

Não há duvidas que a eficiência reprodutiva seja um fator determinante no retorno econômico da pecuária de corte. Em outras palavras, a eficiência em tornar vacas gestantes em momentos específicos do ano (estação de monta) dirige o nascimento de bezerros, seu potencial de desenvolvimento e, consequentemente, a produção de matrizes para reposição e de animais para a engorda e abate.

Paralelamente, é inegável a importância do melhoramento genético nos rebanhos de corte e seu impacto na produtividade. A busca por touros ditos “melhoradores” já é uma prática comum em diversas propriedades, sendo a inseminação artificial (IA) uma importante aliada da difusão de genética. De forma geral, o uso da IA possibilita que o produtor escolha touros selecionados de qualquer região do mundo de acordo com seus interesses comerciais, acelerando a absorção das características desejadas no seu rebanho. No entanto, a eficiente utilização da IA requer boas taxas de detecção de cio ou a implantação de programas de IA em tempo fixo (IATF).

Conforme discutido em artigos anteriores, além de dispensar a observação de cio e auxiliar o melhoramento genético do rebanho, a IATF traz como grandes vantagens o aumento da taxa de serviço (100% dos animais tratados são inseminados), a antecipação da prenhez na estação de monta (mais vacas prenhes no início da estação), a redução do intervalo entre partos e a formação de lotes homogêneos de bezerros. Outro ponto positivo é a concentração e otimização da mão de obra para a execução de tarefas específicas em momentos específicos do ciclo de produção como o manejo reprodutivo, o nascimento de bezerros, a desmama e a formação dos lotes de recria e engorda. Por esses motivos a IATF está ganhando espaço e credibilidade nas propriedades brasileiras a cada ano que passa.

Nesse artigo, serão apresentados alguns dados relacionados à evolução da pecuária de corte ao longo dos anos, com foco em 2010. Gostaria que os senhores leitores olhassem esses dados tendo em mente a importância da eficiência reprodutiva para alcançá-los. Ainda, desafio os senhores a projetarem o impacto que o aumento do uso da IA, especialmente da IATF pode causar nesses índices (já que essas tecnologias são ainda muito pouco empregadas no Brasil).

O rebanho brasileiro cresceu de 193,20 milhões de cabeças em 2007 para 210 milhões em 2010. O aumento da produção de carne foi acompanhado pela evolução do melhoramento genético e das técnicas de manejo, levando a melhora da produtividade, ou seja, da produção de carne (Kg) por hectare. Assim, pode-se dizer que as áreas de pastagem já existentes foram melhor aproveitadas, fator importante para a sustentabilidade do agronegócio brasileiro (Figura 1).

Figura 1. Evolução da produção de carne por hectare no Brasil. Fonte: Em discussão! Revista de audiências públicas do Senado Federal

O aumento da produtividade proporciona tanto a melhora do abastecimento interno de carne quanto o aumento das exportações, trazendo retornos econômicos importantes para o país. Atualmente, a maior parte da carne produzida no Brasil é consumida por nós. Mesmo assim, o Brasil é hoje o segundo maior produtor de carne bovina do mundo e ainda tem potencial para crescer muito mais. Segue abaixo uma ilustração sobre escoamento da carne bovina produzida no Brasil (Figura 2).

Figura 2. Escoamento da carne produzida no Brasil. Fonte: Em discussão! Revista de audiências públicas do Senado Federal

A título de curiosidade, apresentaremos abaixo uma previsão do crescimento da participação do Brasil no mercado mundial de carne bovina de 2008 a 2012 e de 2013 a 2017, que foi realizada com base nas exportações líquidas de anos anteriores (Figura 3). Observem o potencial que nosso país possui se simplesmente acompanhar as tendências de anos prévios.

Figura 3. Previsão da participação do Brasil no mercado mundial da carne bovina nos próximos anos. Fonte: Em discussão! Revista de audiências públicas do Senado Federal

Hoje, a média de intervalo entre partos no Brasil está próxima de 24 meses, ou seja, a cada ano pouco mais de 50% das vacas geram um bezerro para o produtor. Sabe-se que grandes motivos para esses índices tão baixos são (1) a ocorrência de anestro pós-parto (bastante evidente nas vacas Nelore criadas em sistema extensivo, especialmente primíparas) e (2) a ineficiência de detecção de cio. Vale lembrar que a IATF, quando bem empregada, ajuda a transpor eficientemente esses dois problemas. Assim, fica claro o nosso potencial para aumentar as tendências de crescimento mostradas na figura acima se intensificarmos a produção de bezerros por vaca/ano, utilizando tecnologias reprodutivas como a IATF por exemplo.

Nos últimos dez anos foi observada uma grande evolução do número de inseminações realizadas tanto em rebanhos de corte quanto de leite, sendo esse crescimento bastante consistente nos últimos quatro anos (Figura 4). No último ano, foram comercializadas 10.415.070 de doses de sêmen (Relatório da Asbia 2010), ou seja, apenas 8% das 71.988.424 fêmeas em idade reprodutiva (acima de 24 meses) foram inseminadas (considerando-se uma média de duas doses de sêmen por concepção), uma parcela ainda muito pequena se comparada ao potencial brasileiro (Figura 5). Dentre as raças de touro utilizadas para a IA, a Nelore representa quase metade do sêmen comercializado. Sêmen de outras raças é comercializado em menor proporção e utilizado tanto para a IA de rebanhos puros quanto para a realização do cruzamento industrial, uma ótima alternativa para atender as distintas exigências de mercado consumidor.

Figura 4. Evolução geral da IA em gado de corte, leite e total (fonte: Relatório de 2010 da Associação Brasileira de Inseminação Artificial – Asbia)

Figura 5. Porcentagem de animais inseminados e raças utilizadas para esse fim no Brasil (Adaptado do Relatório anual da Asbia)

Em linhas gerais, o aumento do número de IA nos últimos anos foi decorrente do crescimento da IATF, uma vez que houve redução do uso da IA em fêmeas observadas em cio. Em outras palavras, pode-se dizer que o aumento do número de doses de sêmen comercializadas ocorreu em função da difusão dessa biotecnologia (inseminar em tempo fixo, sem observar cio). Essa evolução pode ser claramente observada na Figura 6.

Figura 6. Evolução geral da IA e a participação da IATF no aumento do número de animais inseminados (fonte: Departamento de Reprodução Animal da USP/SP)

Provavelmente, o crescimento da IATF colaborou para o crescimento de todos os índices de produção e produtividade aqui mencionados. Há alguns anos essa tecnologia é foco de diversas pesquisas no Brasil e, atualmente, já dominamos uma série de alternativas viáveis para sua utilização com sucesso. Dessa forma, a difusão da IATF pode ser uma excelente estratégia para multiplicar as perspectivas de crescimento da cadeia de produção da carne, visto que 92% de nossas matrizes ainda são acasaladas em sistema de monta natural.

Cabe aos veterinários a função de levar esclarecimentos sobre essa técnica e de avaliar a realidade de cada propriedade para aplicá-la de maneira rentável e eficiente. Cabe ao produtor se conscientizar sobre os possíveis benefícios que a técnica pode trazer, vencer seus preconceitos e procurar um veterinário especializado que avalie qual a melhor estratégia reprodutiva pra seu rebanho.

14 opiniões sobre “O crescimento da IATF e seu impacto na cadeia produtiva da carne”

  • Rafael Moura Campos - 22/06/2011

    Fico muito feliz em termos essas informações disseminadas em sites e tão claras para o entendimento e em linguagens claras para todos os tipos leitores. E estas informações são bem utilizadas em atualizações nossas como profissionais da área.

  • Diethelm Hammer - 23/06/2011

    Muito interessante, este artigo – meus parabens! No Brasil há muita reserva para produzir e os veterinários jovens dominam e aplicam as tecnologias modernas com facilidade. Existem informacoes sobre o desenvolvimento das taxas de prenhez da IATF até hoje? Existem diferencas entre vacas taurinas e zebuinas e entre leite e corte?

  • Bruno Alves - 25/06/2011

    Excelente matéria, esses dados apresentados comprovam a força do Brasil na Pecuária e deixa claro para o pecuarista que daqui para frente, tecnificar é a saída para sobreviver em mercados cada dia mais competitivos. Quando falamos em tecnificar, a primeira frase que sai do Pecuarista é: “Mais isso custa dinheiro!”, sim, claro que custa, porém os índices aqui apresentados e muitos estudos também comprovam que a tecnologia, seja IATF, Controle Estratégico de Parasitas, Suplementação Estratégica, Adubação de Pastagens ou até mesmo uma simples Calagem, expressam seus resultados deixando evidente que esse dinheiro gasto foi um ótimo investimento ao qual o bolso agradece assim como a população mundial que tem uma maior oferta de carne, com a certeza de que o produtor está buscando a cada dia aumentar a produtividade afim de obter uma cadeia sustentável e que preserva o meio ambiente.

    Vale lembrar que aquele ditado tão antigo, muitas vezes já dito por nossos avós ou antepassados ainda permanece atual onde diz: “Ou melhoramos nossa propriedade ou à vendemos pro vizinho e vamos embora pra cidade.”

    Sucesso a todos.

  • Roberta Machado Ferreira - 28/06/2011

    Prezados Rafael Moura Campos, Bruno Alves e Diethelm Hammer
    O intuito da materia foi realmente de mostrar (de uma forma simples e convincente) que temos muito potencial para melhorar os índices da nossa pecuária. Mais do que isso, já temos o conhecimento e domínio de técnicas que podem nos auxiliar nesse crescimento. Fico muito contente de saber que gostaram da informações disponibilizadas e espero que elas sejam cada vez melhor compreendidas e disseminadas!
    Obrigada por seus comentários e complementações.

  • Roberta Machado Ferreira - 28/06/2011

    Prezado Diethelm Hammer
    Obrigada por seus comentários. Existem sim muitos dados referentes a IATF em gado de corte e leite. Essas taxas variam muito de acordo com o sistema de criação (confinamento ou pasto), a categoria (primípara, multípara ou primípara), o clima, a raça, o tipo de semên utilizado (convencional ou sexado). Me proponho a escrever o próximo artigo direcionado a explicar melhor essas taxas, ok?
    De forma geral, no Brasil a taxa de prenhez a IATF está em torno de 50% para multíparas e 45% para primíparas. A maioria desses dados são para Nelore.

  • Diethelm Hammer - 29/06/2011

    Prezada Renata! Muito obrigado pela informacao e atencao! Interessante de ver que o Brasil ultrapassou a Alemanha e Europa na aplicacao de tecnologias de reproducao – na IATF e na VIF tambem!
    Aguardo a sua proxima materia.. Saudacoes da Alemanha! DH

  • alcimar de oliveira - 01/07/2011

    Oi Roberta, quanta informação muito bom mesmo. Outro dia assisti  uma reportagem que falava da implantação do programa de IATF no pantanal-MS, os resultados eram impresionantes. Que deficiência em cria, a cada 24 meses 1 bezerros? Qual seria o ideal para uma femea?? Pelo tamanho  do nosso rebanho fico a pensar se deixarmos de perder 15% do cio de nossa vacada!!!!!!

    Parabéns.

    Alcimar

  • Roberta Machado Ferreira - 01/07/2011

    Prezado Alcimar de Oliveira

    Os resultados da IATF realmente impressionam, principalmente quando implantada em fazendas que tem índices anteriores ruins. O salto é grande.

    O ideal (eficiência reprodutiva máxima) é que as vacas tenham 1 bezerro por ano, ou seja, um intervalo entre partos de 12 meses. Bem diferente da média brasileira que apresentei no artigo, não é?

    Realmente temos muito a melhorar, mas volto a falar, já temos muitas ferramentas disponíveis para isso.

    Sds

  • Rodrigo de Melo Bruno - 06/07/2011

    Parabens pela materia.

    Sobre uso de lipideos em alimentação pre parto e pos parto, o que tem mostrado os resultado em relação a aumento de prenhez no lote tratado.

    Qual seria a fonte mais usada hoje, para obter resultado.

    Caso saiba alguma coisa sobre isso fico grato sobre as informações sobre esse assunto…

  • Roberta Machado Ferreira - 06/07/2011

    Prezado Rodrigo de Melo Bruno
    Fico feliz que tenha gostado!

  • Henderson Ayres - 09/07/2011

    Roberta e Lais, parabéns pelo artigo, é muito bom ver a divulgação do potencial do Brasil.

    Já está bem apresentado nos artigos aqui do BeefPoint que a IATF é uma ferramenta que não tem mais volta. Porém, após a IA, os touros de campo são introduzidos e utilizados para se alcançar os indices finais de prenhez no rebenho.

    Com base neste topico, qual a importancia da utilização de ferramentas que possam identificar touros com potencial genitico para ser usado no rebanho comercial? Ainda, como vocês acreditam que a seleção genomica para Nelore se encaixa na realidade Brasileira?

    Muito obrigado,

  • Roberta Machado Ferreira - 13/07/2011

    Prezado Henderson Ayres
    Sua observação é bastante pertinente. Muitas vezes não se pensa que após a IATF o programa reprodutivo deve continuar com semelhante atenção voltada ao melhoramento genético. Nesse sentido há algumas opções e pontos a serem avaliados.

    1. Existe a possibilidade de se realizar uma segunda IATF, que pode ser iniciada no momento do diagnóstico de gestação ( nas vacas vazias) ou um pouco antes do diagnóstico (protocolos de ressincronização) e continuado apenas nas vazias. Essas opções estão em estudo e avaliação, mas já estão disponíveis para uso.

    2. Se a opção for a introdução de touros, existem diversas formas de se assegurar que bons touros estão sendo escolhidos, dentre elas:
          (a) a consulta de catálogos de centrais de reprodutores e consultoria com profissional que possa orientar quais as características são indicadas para seu rebanho,
          (b) aquisição de touros de centrais confiáveis, com boa reputação, bons programas de avaliação, teste de progênie etc,
          (c) se for touro de sua própria criação, fazer no mínimo a avaliação andrológica do animal e de sua progênie anterior (se houver),
          (d) se já foram feitos outros programas reprodutivos nos quais esses touros foram usados, avaliar seu desempenho (prenhez) e a qualidade dos produtos
          (e) certamente, a ulilização de marcadores moleculares e ferramentas auxiliares de genônica tendem a ser um aliado cada vez mais importante e presente na pecuária. Acredito sim que essa ferramenta tenha um grande potencial de mercado.

  • Aluisio de Alencastro Filho - 22/07/2011

    legal o texto nao acho que so os veterinarios devem contribuir com a iatf mas nos zootecnistas tambem podemos mexer com a tecnica.

  • Julio Cezar Machado - 18/06/2013

    Boa noite!
    Muito interessante o trabalho, nossa pecuária brasileira esta precisando
    otimizar a produção por área, conta esta que muitas vezes o pecuarista não faz.
    Um dos maiores problemas limitantes para um maior renda são dados palpáveis “quem planta acho colhe quase”.

    Parabéns
    Att.

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