Categories: Manejo Racional

Nosso capataz, Chico, disse: obrigado, vocês mudaram minha vida, me ensinaram como meu trabalho pode ser digno e tranquilo – Carmen Perez [Faz. Orvalho das Flores]

O bem-estar animal tem sido preocupação crescente entre pesquisadores, produtores e consumidores de todo o mundo que passaram a exigir com maior intensidade uma conduta humanitária no tratamento dos animais, no que diz respeito à produção, transporte e abate.

Assim, para mostrar o que está acontecendo de mais atual no Brasil e no mundo frente a área de bem-estar animal, na cadeia produtiva bovina, o BeefPoint preparou algumas entrevistas com diversos pecuaristas que já adotam medidas de manejo que visam as boas práticas de manejo, compartilhando casos de sucesso na pecuária de corte.

Confira abaixo, o caso de sucesso da Fazenda Orvalho das Flores, propriedade de Carmen Perez, no estado do Mato Grosso:

Carmen Perez vem de uma família sem nenhuma tradição com pecuária e sim tradição com o mercado sucroalcooleiro. A fazenda no Mato Grosso foi apenas uma consequência de investimento em terras.

Aos 22 anos, sem uma formação acadêmica na atividade, mas como uma paixão pelo campo, por cavalos e pela natureza; Carmen migrou de São Paulo com coragem e determinação para o Mato Grosso, assumindo uma fazenda cheia de desafios. Sendo que os desafios e seu aprendizado continuam a toda vapor!

“Iniciamos o trabalho de manejo racional , oficiamente em janeiro de 2007. Foi com a ida do Professor Mateus Paranhos e do Murilo Quintiliano, para um curso de 3 dias,  composto por parte prática e teórica. Organizei esse curso em forma de evento para que a equipe se sentisse comprometida e valorizada” – Carmen Perez.

BeefPoint: Quais técnicas/práticas você desempenha em sua sua fazenda que resultou em bons resultados, quando o tema é bem-estar animal?

Carmen Perez: Foram inúmeras técnicas relativamente simples que resultaram em mudanças positivas no manejo e em toda a rotina na fazenda. Antes não vacinávamos os animais no brete e sim no tronco e foi a partir do curso que iniciamos a vacinação individual dentro do brete.

O tronco na fazenda estava sempre lotado em um cenário de muito barulho e stress. Aquilo consumia todas as minhas energias, não suportava frequentar o curral.

Após a introdução de um novo trabalho, passamos a trabalhar com apenas um animal, por vez, no brete e outro na espera no tronco. Ou seja, antes existia a cultura da indiferença do bem-estar animal em todos os aspectos, aliado a falta total de informação.

Antes, o trabalho era iniciado com lotes grandes que passavam o dia inteiro espremidos em uma remanga de curral. A forma de apartação dos lotes eram violentas na base da “porterada”, machucando muito os animais isso gerava hematomas na carcaça e danos ao bem-estar dos animais e também econômicos.

Hoje na apartação com lotes pequenos utilizamos bandeiras brancas, uma atividade feita em silêncio!

Com essas práticas implantadas em nossa rotina, notamos uma maior transformação no próprio gado, hoje muito tranquilo. Nossos clientes de bezerros, ficam impressionados com a facilidade de manejo com os mesmos!

BeefPoint: Conte pra nós qual a aceitabilidade de sua equipe quanto às técnicas de bem-estar animal? Como é feito o treinamento de seus funcionários?

Carmen Perez: Eu estava obstinada a mudar esse manejo, eu tinha plena convicção que esse era o caminho. A equipe foi muito estimulada e envolvida com o tema manejo racional, pré e pós vinda do Mateus e Murilo.

No final do primeiro curso, nosso capataz, Chico, muito comprometido na lida com os animais disse aos dois: “Obrigado, vocês mudaram minha vida, me ensinaram como meu trabalho pode ser digno e tranquilo”. E ele realmente adotou isso como um princípio na sua rotina de trabalho.

BeefPoint: Quais instalações de sua propriedade são adequadas para as técnicas de bem-estar?

Carmen Perez: Quando o Mateus e Murilo estiveram na fazenda pela primeira vez, fizemos alguns ajustes simples no curral, tais como: fechamento das laterais da seringa e embarcador, o que facilitou o manejo. Também construímos piquetes de apoio, com água, os quais ajudam no conforto dos lotes antes e após o manejo no curral.

Entretanto, estou segura que neste trabalho, o comportamento humano é muito mais valioso do que as instalações.

BeefPoint: Por que decidiu adotar medidas de bem-estar animal em sua propriedade? Teve o apoio de alguma empresa e/ou profissional da área?

Carmen Perez: Sempre tive amor e respeito por animais, o manejo adotado na pecuária tradicional, sempre me agrediu. Tive o apoio do professor Mateus e do Murilo, eles que nos ensinaram e orientaram para um novo caminho. O senhor Helvécio foi e ainda é minha maior inspiração quando o assunto é sustentabilidade e manejo correto na pecuária.

BeefPoint: O que a sua propriedade difere das demais? As que utilizam boas práticas de manejo e as que não utilizam?

Carmen Perez: Nossa equipe que faz toda diferença, mantenho essa turma sempre informada, envolvida e inspirada. Esse sempre foi e sempre será meu maior desafio, liderar e estimular toda equipe.

BeefPoint: Em relação ao manejo de bovinos, quais os erros mais comuns cometidos em sua propriedade?

Carmen Perez: São práticas que aparentemente são mais trabalhosas e tomam mais tempo, mas que na prática facilitam o manejo, como por exemplo:

  • Um lote de animais, antes de qualquer trabalho no curral, deve ser passado uma vez livremente pelo tronco para ter confiança e assim minimizar a resistência.

Além do mais, a minha meta é médio prazo é conquistar um manejo de maternidade sem laço.

BeefPoint: Que mensagem você deixaria para os pecuaristas que pretendem praticar técnicas relacionadas ao bem-estar animal?

Carmen Perez: Em primeiro lugar o líder precisa acreditar e ter a intenção de mudar o modelo de manejo, para posteriormente introduzir as técnicas e as facilidades que um bom manejo possa resultar.

BeefPoint: Quais os exemplos de pecuaristas dessa área que você mais admira?

Carmen Perez: Há 7 anos tive a oportunidade de conhecer o Sr. Helvécio. Estive hospedada em sua fazenda, Nelore Sandin, por duas vezes. Este senhor é um exemplo de sensibilidade e pioneirismo na relação animal e homem. O manejo na maternidade me surpreendeu! As vacas recém paridas eram tranquilas e permitiam que os vaqueiros curassem os bezerros sem laço, sem grito e sem pancadas. Fiquei emocionada com esse cenário, a relação de paz e confiança entre homens e animais é nítida.

This post was last modified on 14 de Maio de 2014 16:55

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View Comments

  • Excelente matéria! Nós (vizinhos) sabemos de todo o empenho da Carmem em seu sistema de produção de bezerros. Parabéns.

  • Luiz Alberto Ferreira : Muito bom Carmen ! com capacitação de funcionários e instalações adequadas o resultado será sempre esse independente de qual tecnologia for implantada na sua propriedade . Parabéns !

  • Parabens Carmen! por mais de 30 anos lidei com pessoas na area financeira, e a cada dia admiro mais os animais, tenho a convicção que temos muito a aprender com eles, todo animal nasce docil, e a forma brutal de trato o torna potencialmente perigoso e reflete em prejuizos ao produtor, lamento apenas a existencia de pouca pesquisa nessa area. Boa sorte

  • Parabéns ! Carmen, pelo que li nas matérias você já conseguiu colocar o manejo da fazenda rodar, redondinho; muito bom! Fico assim admirado,porque vivo os mesmos problemas; sou responsável por uma fazenda de cria na região de Canarana; e tenho muita dificuldade com mão de obra; chega a ser um desafio,realizar todo o seguimento de manejo que envolve a atividade de cria, com a falta de pessoas capacitadas que temos na região.

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