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Manejo racional na vacinação de bovinos de corte: uma avaliação preliminar da eficiência e qualidade do trabalho

O manejo da vacinação é uma prática necessária, fazendo parte da rotina de todas as fazendas dedicadas à produção de bovinos de corte. Todavia os procedimentos rotineiramente utilizados durante o manejo do gado nesse processo acabam promovendo e/ou potencializando interações aversivas entre nós (seres humanos) e os animais, levando ao empobrecimento do bem-estar de ambos e aumentando os riscos de acidentes de trabalho.

O manejo da vacinação é uma prática necessária, fazendo parte da rotina de todas as fazendas dedicadas à produção de bovinos de corte. Todavia os procedimentos rotineiramente utilizados durante o manejo do gado nesse processo acabam promovendo e/ou potencializando interações aversivas entre nós (seres humanos) e os animais, levando ao empobrecimento do bem-estar de ambos e aumentando os riscos de acidentes de trabalho. Assim, para evitar ou minimizar certas práticas que têm impacto negativo sobre os animais é necessário que o manejo na vacinação seja realizado de forma racional.

Segundo Renato dos Santos, veterinário e consultor da Beckhauser, é comum a vacina ser aplicada sem o manejo adequado (Figura 1), sob estresse, com reflexos negativos nas respostas imunológicas dos animais, o que implica em risco de menor eficiência da vacina. Ressaltou também que a aplicação no tronco coletivo (área do curral também conhecida por brete) agrava o estresse do rebanho, uma vez que muitos animais pulam e acabam pisoteando os outros; com isto há aumento do risco de contusões nos animais, de danos às instalações do curral e de acidentes de trabalho.

Além destes riscos, há perdas econômicas provenientes de descarte de carnes, devido à ocorrência de reações ou abscessos, muitas vezes decorrentes do manejo inadequado na vacinação. Logo, a adoção do manejo racional na vacinação (Figura 2) proporciona benefícios econômicos diretos, com diminuição na perda de vacina, de danos aos equipamentos (seringas quebradas e agulhas tortas) e de riscos de acidentes de trabalho, melhorando a rotina de trabalho da fazenda, como caracterizado no estudo realizado por Chiquitelli e colaboradores (2002).


Fonte: Manual de Boas Práticas de Manejo: Vacinação

Como relatado no manual de Boas Práticas de Manejo: Vacinação (Paranhos da Costa e colaboradores, 2006), um fator primordial no manejo racional é o planejamento do processo de vacinação, que começa com a definição de quem será responsável pela organização dos trabalhos. Essa pessoa deve estruturar um calendário de vacinações, definindo quais as vacinas que serão aplicadas, a data em que serão aplicadas, quais os animais que serão vacinados, o local onde a vacinação será realizada, as pessoas que estarão envolvidas no trabalho e como o manejo será feito, atendendo aos padrões de boas práticas de manejo.

Os responsáveis pela vacinação devem se atentar na preparação das instalações, evitando, primeiramente, o manejo com o piso do curral sujo e encharcado, para diminuir riscos de escorregões e quedas. Recomenda-se que percorram o caminho por onde os animais serão conduzidos, checando se há problemas (pregos salientes, pedras soltas no chão, buracos, tábuas soltas, quinas, degraus, sombras e objetos estranhos) que podem prejudicar o andamento do manejo e causar danos aos animais.

O trabalho deve ser realizado em tronco de contenção com características que permitam acesso ao pescoço dos animais e que seja seguro para os animais e trabalhadores. Detalhes importantes nunca devem ser esquecidos como a troca de agulhas, cuja recomendação é trocar a cada recarga da seringa, deixando a agulha suja em água fervente por no mínimo quinze minutos para obter uma boa esterilização, evitando assim o surgimento de abscessos decorrentes da má esterilização.

Evite o acúmulo de atividades no período de vacinação, para que o trabalho possa ser executado com calma e eficiência. No caso de fazendas com grande número de animais é necessário definir quantos animais serão vacinados por período de trabalho. Isto é importante para definir quantos animais devem ser levados ao curral, evitando assim que eles permaneçam ali por muito tempo, além de possibilitar o planejamento de outras atividades importantes.

Um ponto muito importante no manejo racional esta na condução e manejo dos animais no curral, procurando conduzi-los de forma calma, sem correria e gritos. Dentro do curral, deve-se evitar manejar grandes lotes de animais, vinte animais é um bom número. Para a condução ao tronco de contenção, a utilização de bandeiras facilitará o serviço, evitando choques e paus.

A má aplicação da vacina implica em prejuízos para o produtor, dada a ocorrência de abscessos e reações vacinais. No Brasil a maioria das vacinas é de aplicação subcutânea ou intramuscular. Ambas devem ser realizadas na tábua do pescoço, no caso de vacina subcutânea deve-se puxar o couro do pescoço e, mantendo o conjunto seringa em posição paralela ao corpo do animal, efetuar a aplicação; no caso da vacinação intramuscular a seringa deve ficar em posição perpendicular ao corpo do animal. Para cada caso há agulhas específicas, que também deve levar em conta a categoria do animal a ser vacinado.

Segundo pesquisa realizada pelo Grupo ETCO, com o objetivo de avaliar uma nova proposta de manejo de vacinação, definida com base em observações do comportamento de bovinos (Paranhos da Costa et al. 2000) e na eficiência do trabalho, verificou-se houve redução de comportamentos indesejáveis, como pular sobre o outro animal (PO), deitar no brete (BD) e saltar na tentativa de fugir (TF) com a adoção do manejo racional, quando comparado ao manejo convencional (Figura 3).


Figura 3: Porcentagem de ocorrência de comportamentos aversivos em bovinos durante o manejo da vacinação.

Constatou-se também queda no número de doses de vacinas perdidas e na ocorrência de sangramento no local da vacinação com o uso do manejo racional. O tempo de serviço medido não foi significativamente diferente, ou seja, segundo o estudo levou-se o mesmo tempo para realizar a vacinação nos dois tipos de manejo.

O resultado não mostrou redução na freqüência de abscessos e quantidade de carne perdida entre os dois tipos de manejo, estudos complementares para buscar minimizar este problema estão em andamento. Sabe-se que as perdas são grandes e que variam de uma fazenda para outra (Figura 4), o que é sugestivo de efeito de manejo.


Figura 4: Perdas de carne (kg) devido a abscessos vacinais em diferentes fazendas

A ineficiência do manejo na vacinação pode promover altas perdas, não podendo ser ignoradas, o que torna evidente a necessidade de investimentos em treinamento de mão-de-obra adequada e na racionalização do manejo, cujo embasamento está na biologia do animal. Práticas estas que reduzem a freqüência de respostas aversivas dos animais a ação humana, trazendo muitos benefícios a ambos. Maiores detalhes podem ser obtidos no site www.grupoetco.org.br, onde está disponível o manual de boas práticas na vacinação (Paranhos da Costa, M.J.R.; Toledo, L.M. e Schmidek, A. Boas práticas de manejo: vacinação. Editora Funep: Jaboticabal. 29p. 2006).

Agradecemos em especial à Anita Schmidek, Luciandra Macedo de Toledo, autoras do manual de Boas práticas de manejo: vacinação cujo texto foi baseado.

Bibliografia consultada

Chiquitelli Neto, M.; Paranhos da Costa, M. J. R.; Páscoa, A. G. e Wolf, W. (2002). Manejo racional na vacinação de bovinos Nelore: Uma avaliação preliminar da eficiência e qualidade do trabalho. In: L.A. Josahkian (ed.) Anais do 5º Congresso das Raças Zebuínas. ABCZ: Uberaba-MG p. 361-362

PARANHOS DA COSTA, M.J.R. Comportamento de bovinos durante o manejo: interpretando os conceitos de temperamento e reatividade. Disponível em < https://www.beefpoint.com.br/?actA=7&areaID=60&secaoID=230&noticiaID=5188 > acesso em 05/02/2007.

PARANHOS DA COSTA, M. J. R. TOLEDO, L. M. SCHMIDEK, A. Boas práticas de manejo: vacinação. Editora Funep: Jaboticabal. 29p. 2006.

17 Comments

  1. Rodrigo Bisco Ward disse:

    Um grande problema encontrado em relação à vacinação, é que na maioria das propriedades que possuem muitas cabeças de gado ocorre que os funcionários e até os pecuaristas acabam levando em conta o tempo, pois acham que quanto mais rápida for a vacinação mais eficiente é o seu manejo, sendo que os prejuízos aparecem somente após a trabalho terminado são animais quebrados, mancos e até mortos, sem levar em consideração os hematomas e abcessos que ocorrem decorrentes deste tipo de manejo.

    Já foi provado que o tempo que se gasta fazendo da maneira citada pelo manual de boas práticas é quase o mesmo que se gasta enchendo o brete. Se temos condições e informação de como é o correto por que não fazê-lo? A melhoria na qualidade do nosso produto (carne), é um processo gradativo onde cabe a nós a aceitação e o aprimoramento de práticas que tornem nosso manejo mais prático e menos estressante.

  2. Leandro Silveira de Lima disse:

    O artigo mostra as duas realidades do manejo de vacinação de bovinos em nosso país. Grande parte dos produtores ainda maneja seus animais de forma muito rústica sem levar em conta o bem-estar animal. O manejo racional é importante para uma boa imunização dos animais e para evitar prejuízos com abcessos e reações da vacina.

  3. José Brígido Pereira Pedras Júnio0r disse:

    Deparei-me com este artigo ao acaso. Vacino meu gado duas vezes ao ano (aftosa, raiva, etc). Pelo conteúdo do artigo, vi que tenho muitos vícios. De agora em diante, adotarei os procedimentos recomentados no artigo.

    Fiquei tão entusiasmado com a orientação que hoje mesmo vou ler e imprimir o artigo indicado em http://www.grupoetco.org.br

    Obrigado por este excente serviço prestado ao pecuarista.

  4. Paulo Dalmaso disse:

    No dia 14 de dezembro de 2005 retiramos da mangueira rosetas, pontões, cachorros e os cavalos ficaram de fora do manejo interno. Passamos a lidar a pé , fechamos as laterais da mangeira com o que tínhamos disponível.
    O resultado foi para quem lida, exepcional, os animais se acalmaram estamos hoje embarcando com zero eventos, e durante as lidas normais, eventualmente, algum animal se erge no brete. A nossa qualidade de vida melhorou e a dos animais também, tanto que não oferecem a mesma resistencia para entrar nas mangueiras.

  5. Jocely da Silva Portella disse:

    Excelente. Estou me aposentando e vou estruturar um centro de doma e adestamento de cavalo crioulo e tb prestar serviços, em épocas de vacinações, castrações e/ou estabelecer a rastreabilidade de rebanho e propriedade. Para isso até os cavalos e peões serão da prestadora de serviço, um novo enfoque na terceirização de serviços especializados com menos riscos e mais qualidade. Hoje temos propriedades que com apenas um campeiro cuida-se até 1000 bois,quanto mais busca-se apoio na terceirização para serviços já referidos, reduz-se o custo operacional, especialmente mão de obra que é escassa e sem qualificação

    O artigo foi brilante neste sentido o que veio de encontro ao que tenho enfatizado na gestão do agronegócio, pois é o homen que faz a diferença!

  6. DONIZETE CROSARA disse:

    Não tenho dúvidas sobre a pesquisa realizada sobre o manejo racional e o convencional. Já testei os dois e vi que o manejo racional é bem mais racional mesmo. Os animais ficam menos estressados, a equipe também. Com isso, os serviços rendem muito mais. Manejamos muito gado nas vacinações e não tenho problema com perda de vacina, problemas com animais, etc.
    Recomendo para o sucesso de uma boa vacinação é o uso de brete. É importantíssimo.

  7. Juliana Cristina Sesana disse:

    Realmente o manejo racional funciona, em tudo, desde as vacinações até os manejos com os bezerros recém-nascidos. Podemos observar estes resultados não só no gado, mas também, na dimuição dos acidentes de trabalhos com os campeiros e na satisfação dos mesmos ao final de cada trabalho.

  8. Jorge Antonio Chaves disse:

    Amigos, como tudo que evolui, passamos do tempo do “à campo afora”, ao “sem correr e sem gritar”. Só vi vantagens após a implantação do sistema racional de manejo, que é dinâmico (a cada dia especializa-se mais) e gradativo.

    Vocês vão achar que é conversa de gaúcho. Até os meus cachorros foram treinados (uso-os só para tirar gado do mato) e o resultado foi também excepcional. Dá gosto de trabalhar assim. Tudo funciona em harmonia. Para quem chega, lê na parede da veterinária: “Faça o animal entender a sua intenção”. Todos os participantes tem direito a voto e veto. Só não pode “olhar para trás”.

    Abraços

  9. Nelson André Filho disse:

    Amigos, essa utilização é muito boa para administração do medicamento tendo uma melhor absorção do mesmo. Mas temos que considerar o tempo como o fator mais predominante.

  10. André de Morais Sousa disse:

    Excelente matéria, acho que todo pecuarista deveria agir dessa forma. O que mas se escuta é o tempo gasto, mas como a matéria mesmo diz não há diferença significante no tempo perdido no manejo racional em relação ao convencional.

    Só o fato de não perdermos dinheiro e diminuir bem mais as perdas no manejo racional, vale o tempo gasto um pouco maior. E acho que o tempo não é o fator predominante, e sim as perdas devem ser, pouca perda aumenta mais no lucro.

  11. Fábio Augusto de Almeida Leal disse:

    É isso ai, acredito nesta técnica que é de grande importância no cenário mundial, tive a oportunidade de realizar o curso de bem estar animal promovido pelo grupo ETCO e aproveito para parabenizar os colegas de profissão Murilo e Dr Matheus Paranhos.

    O que vocês estão fazendo está contribuindo muito para o crescimento do ramo frigorífico.

    Abraços

  12. Neisson portugal Lemos disse:

    Gostei muito do manejo racional na vacinação. Estou implantando na fazenda. A maioria dos empregados estão mau acostumados, tive que trocar vários, mas já melhorou muito.

    O Beefpoint está de parabéns, continue nos dando dicas, isto nos ajuda muito.

    Obrigado.

  13. Marcelo Henrique Giordano Nunes disse:

    Realmente, existem grandes problemas nos bretes coletivos, porém se trabalharmos com o brete cheio, e vacinarmos os animais, sempre começando do primeiro até o último, para que possam nos ver antes de aplicarmos a vacina, podemos evitar estes incidentes.

    Um bom manejo antes de emretarmos també diminui o estresse

  14. Marcelo Henrique Giordano Nunes disse:

    Apenas uma objeção a figura 2, a aplicação da vacina antes da paleta e mais recomendavel do que atras da paleta como mostra a foto, isto diminui acidentes tanto para o animal bem como para o funcionario.

    Obrigado

  15. Argemiro Inacio Brandão Neto disse:

    Gostei muito dessa matéria, é um resumo muito bom do manejo racional de vivinos
    e vai me ajudar muito em meu trabalho de conclusão do meu curso.

  16. ermenson vieira soares disse:

    muito bom o artigo devemos esquecer daquele antigo manejo que faziamos antigamente a base de gritos e atropelo,cada dia que passa aprendemos mais e hoje melhor ainda com a divulgação de matérias de site como este,muito obrigado pois falo porque o que aprendi na pratica a muito ja ficou arcaico,devemos buscar novos conhecimentos como tal,fica bom para nós empregado e o dono e especialmente aos animais.

  17. Ademir Ramos Silva disse:

    Caros, bom dia.
    Estou me preparando para iniciar criação de gado de corte. Tenho pesquisado um pouco sobre as melhores regiões, valores de terras, raça de gado, etc…. Ao mesmo tempo estou tendo o cuidado de verificar as orientações tecnicas quanto ao manejo, alimentação, vacinação, estatisticas com simulações, etc…
    Sou uma pessoa que procuro analisar muito bem os investimentos quanto aos resultados mas principalmente pela satisfação que podemos sentir e transferir com aqueles que estamos tratando ou lidando. Vi nessa apresentação razões concretas para levar adiante meu propósito e claro seguir e aperfeiçoar conhecimentos, ou seja aprender sempre. Parabéns pela exposição. .