Leptospirose bovina: epidemiologia, diagnóstico e controle

A leptospirose é uma doença infecciosa de distribuição cosmopolita, causada por bactérias do gênero Leptospira, que acomete entre os animais domésticos: bovinos, suínos eqüinos e cães, podendo ocorrer também em animais selvagens. Sua relevância se deve a seu potencial zoonótico, podendo levar a doença humana. No rebanho bovino, assume grande importância devido à marcada perda de produtividade e prejuízos causados pela presença da doença na propriedade.

As bactérias do gênero Leptospira apresentam morfologia espiralada e por este motivo são denominadas espiroquetas. Atualmente neste gênero, são reconhecidas duas espécies: Leptospira biflexa, que engloba as amostras não patogênicas do gênero; e Leptospira interrogans composta de mais de 200 sorovariedades diferentes e patogênicas, agrupadas em sorogrupos segundo o grau de similaridade entre as mesmas.

A manifestação clínica da leptospirose pode ocorrer de três formas: uma forma aguda, onde os animais apresentam apenas febre, anorexia, hemoglobinúria, podendo raramente ocorrer aborto, porém na maioria dos casos é considerada inaparente; uma forma subclínica que ocorre principalmente em vacas não gestantes e não lactentes, mas não são observadas alterações nos animais; e uma forma crônica quando a leptospirose é mais claramente observada no rebanho, pois se manifesta clinicamente através de abortos, geralmente ocorridos no terço final de gestação, distúrbios reprodutivos como retenção de placenta, natimortalidade, alterações congênitas, nascimento de bezerros fracos, redução na produção de leite, aumento do intervalo entre partos e subfertilidade, sinais que refletem diretamente na eficiência reprodutiva do animal. Deve-se ressaltar também a maior gravidade das manifestações clínicas observadas em bezerros, que podem variar de acordo com a sorovariedade infectante. Os animais podem apresentar anemia hemolítica, congestão pulmonar, ocasionalmente meningite, leve icterícia, rins aumentados de volume, diminuição da ruminação, hemoglobinúria e possíveis óbitos.

Epidemiologia

Do ponto de vista epidemiológico, é importante destacar o papel dos ratos como reservatórios naturais e importantes vetores da Leptospira em meios urbanos. Embora no meio rural, o rato também tenha sua importância como fonte de infecção para o rebanho e o homem, os principais reservatórios da doença dentro de uma propriedade bovina são os próprios animais infectados que disseminam a bactéria através de seus produtos de secreção (Vasconcellos et al., 1997). Nestes animais as leptospiras podem permanecer por longo período nos rins, sendo eliminadas por semanas ou meses através da urina. A transmissão da leptospira pode ocorrer pelo contato direto com a pele, mucosa oral e conjuntival com a urina e/ou órgãos de animais portadores. Dessa forma, a via venérea, transplacentária e mamária ou até o hábito de limpeza da genitália, escroto e tetas entre os animais podem constituir-se em rotas importantes de transmissão (Guimarães et al., 1982).

No Brasil, a leptospirose bovina é endêmica, sendo bastante freqüente nos rebanhos de corte e leite. Embora a taxa de mortalidade nesta espécie seja baixa, em torno de 5%, a morbidade geralmente é elevada. Estudos de prevalência da doença demonstram considerável variação entre rebanhos de diferentes regiões do país, sendo os maiores índices registrados nas regiões, com grandes precipitações pluviométricas, podendo ocorrer em solos neutros ou alcalinos.

Embora ainda não sejam conhecidos ou estimados os prejuízos econômicos proporcionados por esta doença no Brasil, alguns estudos constataram perdas de até 500 libras e 3% de abortos e natimortos para cada 100 cabeças de gado no Reino Unido, devido à leptospirose (Ellis, 1994), dado preocupante quando se remete este resultado ao volume de animais que constituem o rebanho brasileiro.

Um aspecto epidemiológico importante a ser avaliado em rebanhos bovinos que apresentam a doença é identificar ou caracterizar a sorovariedade presente na propriedade. Baseado nesta necessidade, muitos levantamentos epidemiológicos da sorovariedade circulantes no país tem sido realizados deste a década de 60. Os trabalhos realizados neste período até a década de 80 são concordantes ao classificar a Leptospira interrogans sorovariedade wolffi como a mais prevalente, no entanto, em muitos destes trabalhos a sorovariedade hardjo não foi incluída.

A partir da década de 90, os estudos soroepidemiológicos realizados em diversos estados do país tem demonstrado maior prevalência da sorovariedade hardjo, com poucas exceções. Araújo et al., (2005), encontraram a maior predominância desta leptospira em estudo realizado em bovinos de Minas Gerais, no período de 1980 a 2002. As freqüências de aglutininas anti hardjo (genótipo hardjoprajitno, amostra Norma), seguidas da hardjo (genótipo hardjoprajitno, amostra OMS), L. hardjobovis e L. wolffi foram significativamente mais elevadas em relação às demais sorovariedades.

As diferenças observadas em alguns levantamentos, quanto a sorovariedade mais prevalente que tem variado entre hardjo e wolffi, podem ser atribuídas a fatores metodológicos como ponto de corte, modalidade de teste e coleção de antígenos empregada, embora não possa ser excluída a hipótese de expansão de uma sorovariedade na dependência de fatores ambientais ligados a manejo e à movimentação de animais (Fávero et al., 2001).

Diagnóstico

O diagnóstico da leptospirose é estritamente de rebanho, ou seja, não são considerados casos isolados, mas um perfil epidemiológico da propriedade baseado em registros de vacinação e um histórico de manifestações clínicas compatíveis com a doença, a ser confirmado laboratorialmente.

O diagnóstico clínico é pouco preciso, devendo ser estabelecido diagnóstico diferencial com outras doenças que cursam com o aborto, distúrbios reprodutivos ou até mesmo de abortos de origem não infecciosa. Como os fetos usualmente morrem 24 a 48 horas antes de ser expelido, estes geralmente estão autolisados, dificultando assim o isolamento das leptospiras no tecido. Uma alternativa diagnóstica que utiliza os tecidos dos animais que vieram a óbito é o exame histopatológico, onde a demonstração do agente requer fixação do tecido com formol o mais breve possível após a morte, para posterior coloração dos mesmos pelo método de impregnação pela prata que facilita a pesquisa histológica das espiroquetas nos órgãos avaliados, preferencialmente fígado e rim.

O cultivo bacteriano para isolamento do agente de amostra de sangue, líquor ou urina, conteúdo estomacal de fetos abortados, conteúdo de rins, fígado e baço podem ser técnicas eficientes e seguras de diagnóstico, no entanto nem sempre o material a ser cultivado chega ao laboratório em condições ideais reduzindo assim a eficiência do teste.

O exame laboratorial mais comumente realizado na rotina diagnóstica é a aglutinação microscópica rápida (AMR). Para realização deste exame podem ser utilizadas duas estratégias: colher amostra com volume aproximado de 5mL de sangue de 10% dos animais escolhidos aleatoriamente ou colher sangue apenas dos animais que apresentarem sintomas da doença mesmo que este grupo de animais seja inferior a 10% do rebanho. Após a colheita, o sangue deve ser dessorado e apenas o soro enviado para o laboratório que realiza o exame. Considerando a variável distância da propriedade avaliada ao laboratório e as elevadas temperaturas observadas em determinadas épocas do ano, o soro deve ser preferencialmente acondicionado dentro de uma caixa de isopor com gelo.

O AMR consiste numa pesquisa de anticorpos na qual os soros suspeitos são diluídos e colocados em contato com as amostras de Leptospira mais prováveis de estarem causando a doença. Os antígenos utilizados, nesta prova, são culturas de cepas-padrão de Leptospira, mantidas por repiques semanais em meio de Stuart, TPB (Triphtose Phosphate Broth) ou similares. Outras cepas também podem ser incluídas no teste, desde que representem situação epidemiológica local. Caso ocorra aglutinação, reação antígeno-aniticorpo, após uma hora de incubação em diluições dos soros iguais ou superiores a 1:100, o rebanho é considerado positivo.

Outros métodos indiretos menos frequentemente empregados no diagnóstico da leptospirose são fixação de complemento, imunofluorescência indireta e ELISA. Embora alguns estudos demonstrem vantagens destes métodos frente ao teste de aglutinação microscópica, em regiões onde a vacinação é comumente realizada, os resultados falso-positivos inviabilizam os testes.

Controle

O controle da doença no rebanho deve partir do diagnóstico laboratorial da sorovariedade circulante na propriedade. Conhecida a amostra circulante podem ser aplicadas duas estratégias de controle. A primeira delas baseia-se no tratamento dos animais doentes no sentido de controlar a eliminação de leptospiras na urina e conseqüente contaminação ambiental. O antibiótico mais frequentemente utilizado no tratamento da leptospirose é a estreptomicina alcançando resultados bastante satisfatórios.

A segunda estratégia a ser aplicada é a vacinação do rebanho. Atualmente estão disponíveis vacinas comerciais que, de uma forma geral, tem em sua composição as sorovariedades: grippotyphosa, pomona, canícola, hardjo, wolffi e icterohaemorrhagiai. Estas vacinas buscam a característica de amplo espectro de atuação utilizando-se do artifício de possivelmente induzir a produção de anticorpos que determinem reação cruzada com outras sorovariedades do gênero ampliando a eficiência desta estratégia de controle.

É importante destacar que quando a sorovariedade presente no rebanho não faz parte da composição das vacinas comerciais, ou quando o responsável pelo rebanho opta por fazer um controle direcionado as sorovariedade circulantes na região, é possível ser realizada em alguns laboratórios do país, a produção de vacinas com bacterinas específicas para a situação epidemiológica do rebanho.

Preventivamente a vacinação deve-se iniciar em bezerros com 4 a 6 meses, seguidas por revacinações anuais ou semestrais. Também é relevante a realização de testes sorológicos regulares, mantendo-se vigilância constante do rebanho, na possibilidade da entrada de novos sorotipos.

Além da vacinação, medidas de higiene como identificação da fonte de infecção (lamaçais, lugares úmidos, áreas alagadiças, presença de roedores) e diminuição do contato dos animais com essas áreas podem ser de grande eficácia no controle da leptospirose bovina.

Referências bibliográficas

ARAÚJO, V. E. M.; MOREIRA, E. C.; NAVEDA, L. A. B. et al. Freqüência de aglutininas anti-Leptospira interrogans em soros sangüíneos de bovinos, em Minas Gerais, de 1980 a 2002, Arq. Bras. Med. Vet. Zootecnia, v.57, n 4, p.430-435, 2005.

ELLIS, W.A. Leptospirosis as a cause of reproductive failure. Veterinary Clinical. North  America: Food Animal Practice, v.10, p.463-78, 1994.
FAVERO, M; PINHEIRO, S.R.; VASCONCELLOS, S.A.; MORAIS, Z.M; FERREIRA, F.; FERREIRA NETO, J.S. Leptospirose bovina – variantes sorológicas predominantes em colheitas efetuadas no período de 1984-1997 em rebanhos de 21 estados do Brasil. Arq. Inst. Biol., São Paulo. v. 68, n. 2, p. 29-35, 2001.

GUIMARÃES, M.C. Epidemiologia e controle da leptospirose em bovinos: papel de portador e seu controle terapêutico. Revista Faculdade Medicina Veterinária Zootecnia.USP, v.6/7, p. 21-34, 1982.

VASCONCELLOS, S.A.; BARBARINI JR, O.; UMEHARA, O. et al. Leptospirose Bovina. Níveis de ocorrência e sorotipo predominantes em rebanhos dos estados de Minas Gerais, São Paulo, Rio de janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. Período de janeiro a abril de 1996. Arquivos Instituto Biologia, São Paulo, 64, p. 7-15, jul./dez., 1997.

6 thoughts on “Leptospirose bovina: epidemiologia, diagnóstico e controle”

  • Jairo Vieira da Silva Filho - 13/09/2006

    Muito bom, um artigo simples mas que consegue de uma forma sucinta explicar bem os pontos mais relevantes dessa doença, de grande importância para a veterinária.

  • anderson rosa - 07/05/2008

    Gostaria de saber mais sobre os sintomas da lepstospira no macho? Pode ocorrer esterildade em touros contaminados?

  • Edinair Maria Bernardo - 27/10/2008

    Gostaria de saber mais sobre os sintomas da lepstospira em bezerros ou bezerras?

  • Faber Monteiro Carneiro - 18/11/2008

    Quais os sintomas em bezerros e bezerras?

  • Daniel Silva Menezes - 28/06/2010

    Gostei muito do assunto, mas gostaria de saber da doença em machos..

  • Douglas Mariscal - 23/06/2013

    As vacinas existentes hoje no mercado, a antigenicidade delas é curta certo, no trabalho acima fala de vacinar anualmente, assim tenho uma boa resposta imunológica ou teria que vacinar semestralmente. Obrigado.

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