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JBS faz provisão para descontos a clientes chineses

A JBS provisionou em torno de R$ 200 milhões para possíveis descontos a importadores de carne bovina da China, apurou o Valor. A provisão prejudicou o resultado da operação brasileira, que teve desempenho inferior ao das concorrentes Marfrig e Minerva Foods no quarto trimestre. Procurada, a JBS não comentou.

Em janeiro, o Valor informou que pedidos massivos de descontos dos importadores chineses estavam tirando o sono de frigoríficos brasileiros – sobretudo os de médio e pequeno portes. Depois de uma euforia com preços muito altos da carne vendida à China no fim do ano passado, os frigoríficos viram os chineses pedirem descontos de até 30% sobre o valor dos produtos – em alguns casos, até para carregamentos que já estavam nos navios, a caminho

A medida fazia parte de um esforço do governo chinês, que secou o crédito dos importadores para que a especulação com os preços da carne bovina fosse contida. Vale lembrar que os pedidos de desconto aconteceram ainda antes de o país asiático parar para combater o coronavírus.

No caso dos grandes frigoríficos, como a JBS, a avaliação é que o impacto deveria ser menor, dado o relacionamento de longo prazo existente com os consumidores chineses. A própria JBS destacou que, apesar das renegociações com os chineses, as exportações de carne bovina para a China a partir do Brasil aumentaram 61% em receita e 23% em volume.

Como a JBS é a maior fornecedora de carne bovina brasileira para a China, a avaliação é que as provisões feitas foram uma medida de precaução. Se os descontos dados forem menos expressivos que os previstos, a empresa poderia até mesmo reverter parte do montante provisionado.

Além disso, a companhia fechou em janeiro um acordo com o gigante chinês WH Group para exportar carnes ao país asiático, o que pode representar um duro golpe a alguns dos importadores que pediram descontos agressivos, sobretudo neste momento de retomada da demanda chinesa.

Como isso só vai aparecer nos balanços futuros, o que se tem, por ora, é um resultado pior. Anteontem, a JBS reportou o desempenho do quarto trimestre e as operações de carne bovina e subprodutos no Brasil tiveram a pior margem de lucro entre todas frentes de negócios da empresa. Na JBS Brasil (que reúne os frigoríficos de bovinos no país, as operações globais de couro e novos negócios como biodiesel), o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) chegou a R$ 487 milhões, com uma margem de 5,1%.

Globalmente, é preciso ponderar, a JBS Brasil não foi capaz anular o bom desempenho da empresa, que lucrou R$ 2,5 bilhões no período. As operações nos Estados Unidos, onde a JBS concentra mais de 50% das vendas, impulsionaram o lucro. A JBS Brasil respondeu por 17% da receita líquida do grupo.

Mesmo assim, analistas questionaram a piora do desempenho da JBS Brasil, sobretudo em relação ao terceiro trimestre, em teleconferência realizada na manhã de ontem. Gilberto Tomazoni, CEO global da companhia, citou as provisões e as renegociações de contratos com os importadores chinesas, mas não revelou o impacto sobre o resultado.

Em relatório, o BTG Pactual destacou a falta de detalhamento no resultados. Os analistas do banco destacaram que a margem Ebitda da JBS Brasil ficou abaixo da registrada pelos concorrentes – na operação da América do Sul, a Marfrig reportou 10% no quarto trimestre e a Minerva, 12,4%.

Na avaliação do BTG, o negócio de couro também pode ter derrubado o resultado da operação da JBS Brasil, mas a companhia não esclareceu. No ano passado, os preços internacionais do couro atingiram um dos piores níveis da história, prejudicando a companhia, que é a maior produtora global de couro bovino. No entanto, em entrevista ao Valor anteontem, o CEO global da JBS disse que os negócios de couro já passaram do pior momento.

Na comparação da JBS Brasil com suas concorrentes brasileiras, é preciso destacar a diferença entre as operações. Enquanto a JBS só possui abatedouros de bovinos no Brasil, a Marfrig atua também na Argentina e no Uruguai.

Além desses dois países, a Minerva é forte no Paraguai e tem um abatedouro na Colômbia. Além disso, Marfrig e Minerva não produzem couro e nem um gama de “outros negócios” tão abrangentes como são os da JBS, que vão desde biodiesel e colágeno às lojas da Swift. Outro fator é a maior concentração das vendas do negócio da operação de carne bovina local da JBS no mercado brasileiro. Marfrig e Minerva exportam mais de 60% da produção no Brasil, proporcionalmente mais que a JBS. Assim, as dificuldades no Brasil, como a resistência dos consumidores aos preços elevados da carne bovina, também podem afetar relativamente mais. Na bolsa, as ações da JBS caíram 0,82% ontem. O Ibovespa subiu 3,67%.

Fonte: Valor Econômico.

This post was published on 27 de março de 2020

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Equipe BeefPoint
Tags: chinajbs

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