JBS faz ofensiva em NY para atrair investidor

Os principais executivos da JBS deixaram desde quinta-feira a sede envidraçada do grupo na Marginal Tietê, na capital paulista, com a missão de conquistar corações e mentes – e bolsos – no epicentro financeiro do capitalismo mundial. Na manhã de hoje, quando receberem investidores na bolsa de Nova York, os diretores da gigante de carnes terão uma narrativa promissora para vender, sobretudo quando se considera a alta de quase 150% das ações da companhia neste ano.

A intenção da JBS é que esse salto tenha sido apenas um ponto de partida para o que está por vir. Para que tudo corra bem hoje, na segunda-feira, já em Nova York, os executivos ficaram durante sete horas preparando uma detalhada apresentação, e ontem houve até um ensaio para afinar os últimos detalhes. Se a estratégia for exitosa, o que levará algum tempo para se confirmar, a empresa poderá ganhar mais de US$ 18 bilhões em valor, de acordo com estimativas de mercado.

Significa dizer que o valor de mercado da JBS na bolsa tem potencial para quase dobrar, dos atuais US$ 19,5 bilhões (R$ 80,8 bilhões na B3) para US$ 38,2 bilhões. Por essa trajetória, inevitavelmente passará a listagem da companhia em uma bolsa de valores nos Estados Unidos, objetivo que foi enfatizado no mês passado, em teleconferência com analistas sobre os resultados do segundo trimestre.

A abertura de capital de parte das operações nos EUA, região que representa mais de 50% do faturamento da JBS – o mercado brasileiro contribui com “apenas” 12% -, é parte da estratégia para que o grupo seja percebido como um “player global”. Na indústria frigorífica, a empresa da família Batista é a mais diversificada geograficamente – bem mais que a rival americana Tyson Foods -, mas sob muitos aspectos é encarada como um grupo brasileiro, o que restringe a base de investidores potenciais e atrela o custo financeiro ao crédito soberano do Brasil, o que encarece juros.

Nesse sentido, uma das tarefas dos executivos será convencer os investidores que a JBS merece ser avaliada nas mesmas condições de concorrentes listados nas bolsas mundo afora. Maior produtora e exportadora de carnes do mundo, a companhia não está aquém do desempenho operacional da concorrência – em muitos casos, como no negócio de bovinos, é referência -, mas a avaliação da empresa na B3 indica uma empresa desvalorizada.

Grupo mais parecido com a JBS devido à diversificação de proteínas (bovinos, suínos e frango) – e também o mais próximo em faturamento -, a Tyson Foods vale bem mais do que a companhia brasileira. Atualmente, as ações da Tyson são negociadas a um múltiplo (relação entre valor de empresa e Ebitda projetado para 2020) de 9,2 vezes na bolsa de Nova York, o que confere à companhia uma valor de mercado de US$ 33,9 bilhões. Pela mesma métrica, as ações da JBS são negociadas a um múltiplo de 6,5 vezes na B3.

A distância não é grande apenas em relação à Tyson. Considerando a média de outros de seus principais concorrentes de capital aberto – a própria Tyson, os também americanos Hormel (produz carne suína e outros alimentos industrializados) e Sanderson Farms (carne de frango), a brasileira BRF e a canadense Maple Leaf Foods -, as ações são negociados a múltiplo de 10,5 vezes. Se a JBS fosse negociada nesse patamar, suas ações valeriam US$ 38 bilhoes.

Em busca da equiparação com os concorrentes, a JBS também quer se valer de seu histórico de aproveitar oportunidades em momentos críticos. Na década passada, a empresa fez diversas aquisições de empresas em dificuldades financeiras, promovendo reestruturações bem-sucedidas – foi o que aconteceu nos casos das americanas Pilgrim’s Pride e Swift e da brasileira Seara.

Agora, a grande oportunidade parece estar no surto de peste suína africana que atingiu a China e tende a provocar mudanças importantes no fluxo de comércio internacional de carnes. Nesse cenário, empresas que não possuem cadeia integrada (com produção de animais) podem sofrer com o aumento dos custos para a aquisição da matéria-prima e se tornar alvos da JBS, como já admitiu o CEO da companhia, Gilberto Tomazoni.

Com as finanças em ordem, a JBS está ávida por aquisições. No mês passado, comprou a britânica Tulip, por US$ 354 milhões, e ingressou no mercado de carne suína da Europa. No Brasil, também ampliou a produção de carne suína, com a aquisição de um abatedouro em Seberi, no Rio Grande do Sul.

Em 2020, a tendência é que novas oportunidades apareçam, sobretudo nos EUA e na Europa. Para tanto, a empresa dos Batista também espera contar com a listagem de ações no mercado americano, uma ferramenta relevante para financiar aquisições mais agressivas. Daí porque todos os cuidados estão sendo tomados.

Os executivos da JBS não quiseram dar entrevistas antes do evento, e o encontro de hoje com os investidores será fechado, até para evitar algo parecido com o que acaba de acontecer com a Petrobras, que teve uma oferta de R$ 3 bilhões em debêntures suspensa pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por até 30 dias por causa de declarações de Andrea Almeida, diretor de relações com investidores da estatal em entrevista promovida pela XP Investimentos, uma das coordenadoras da oferta.

Fonte: Valor Econômico.

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