Inseminação artificial em bovinos

Entende-se por inseminação artificial a deposição mecânica do sêmen no aparelho genital da fêmea. O sucesso desta depende de vários fatores, de ordem técnica e operacional, na qual se visa a união do espermatozóide com o ovócito, sendo que esta última etapa ocorre naturalmente sem a interferência do homem.

O primeiro relato de inseminação artificial (IA) vem do século XIV, onde um chefe de uma tribo árabe conseguiu realizar uma inseminação artificial com sucesso em eqüinos. Desde então notáveis progressos foram alcançados, principalmente no tocante ao conhecimento da fisiologia reprodutiva de macho e fêmea e tecnologia do sêmen. Atualmente, é possível trabalhar com inseminação em todas as espécies domésticas, sendo que em algumas, como os bovinos, as técnicas estão mais desenvolvidas, principalmente devido ao maior interesse econômico, que estimulou mais pesquisas relativas a esta espécie. Associado às questões econômicas, as características do sêmen desta espécie (alta concentração) auxiliaram no desenvolvimento das técnicas de congelamento. É atualmente a espécie em que a técnica de conservação de sêmen e IA estão mais desenvolvidas.

Aplicações ou vantagens e limitações da inseminação artificial

São três as principais classes de vantagens oferecidas pelo processe de IA em bovinos, ou seja, de ordem zootécnica, econômica e científica.

– Acelera o melhoramento genético: Possibilita o uso de animais de alto padrão zootécnico em propriedade que não possuem condições financeiras para manter tais animais.

– Possibilita o uso de touros provados: É possível o uso de touros comprovadamente superiores (através de teste de progênie) para características de produção ou tipo.

– Ajuda a evitar consangüinidade: Pose-se adquirir sêmen de animais diferentes, evitando-se assim o cruzamento entre parentes.

– Facilita o cruzamento entre raças: Pode-se adquirir sêmen de animais de raças diferentes, e desta forma inseminar cada fêmea com a raça de melhor conveniência.

– Facilita a estação de monta: Característica mais empregada em gado de corte onde, no caso de monta natural, seriam necessários vários reprodutores para cobrir um grande número de fêmeas em um curto período de tempo.

– Permite a estocagem e transporte de material genético: Com o congelamento do sêmen é possível transportar o material genético de um macho ou estoca-lo por tempo indeterminado.

– Facilita o teste de progênie: avaliação das características zootécnicas de um macho de acordo com o desempenho de suas filhas comparado com as mães.

– Auxilia no controle de doenças sexualmente transmissíveis: A IA quebra o ciclo de transmissão de várias doenças que posem ser transmitidas via cópula.

Porém, a técnica possui algumas limitações que na verdade deveriam ser colocadas como condições mínimas para um bom resultado. De um modo geral são as seguintes:

Mão de obra treinada: dela depende em mais de 50% o sucesso da técnica, pois está envolvida em todas etapas do processo.

Acompanhamento técnico: imprescindível, principalmente na implantação, e também na manutenção e avaliação dos índices obtidos.

Controle sanitário: Não se deve tentar implantar IA em locais onde a mortalidade de crias é elevada, onde existam doenças infecto-contagiosas que possam provocar abortos ou redução de fertilidade das fêmeas. Inicialmente controlar estas situações e depois implantar a inseminação.

Boa nutrição: É um dos aspectos mais importantes, invariavelmente a IA (reprodução) apresenta melhores resultados onde a nutrição é boa.

Bom Manejo: Associado á nutrição, pode interferir muito nos resultados. Como exemplo podemos citar os problemas de instalações inadequadas etc.

Escrituração zootécnica: Importante para animais de produção como bovinos. Devem ser anotados pelo menos, partos, coberturas, inseminações, cios e um controle leiteiro mensal no caso de gado de leite, para que se possa acompanhar os resultados da técnica e mensurar a melhoria da eficiência da atividade.

Detecção de vacas em estro (cio)

Embora as técnicas de IA em bovinos estejam totalmente dominadas, no Brasil, estima-se que menos de 12% das vacas são inseminadas. Estes números poderiam ser superiores, porém vários produtores abandonaram seu uso, e um dos principais motivos foi e é ainda exatamente a dificuldade de identificar o estro (cio) das vacas.

A importância deste fator é tal que, quando a propriedade utiliza monta natural à solta, antes da implantação da IA deve-se passar por um período de adaptação utilizando-se de monta natural controlada, onde os funcionários vão se familiarizando com a observação de estro. A detecção de estro é uma tarefa trabalhosa, mas muito fácil de ser executada, desde que se tenha uma pessoa treinada e de boa vontade para desempenhar esta função. Não se justifica, pela simples desculpa que a observação de cio é tarefa difícil, adotar técnicas como aplicação de hormônios para inseminar as vacas. Problemas de manejo devem ser corrigidos acertando o manejo e não de outra forma.

Fisiologicamente o ciclo estral da vaca dura de 18 a 23 dias. A duração média do estro’ é de 12 a 16 horas, sendo que fatores como nutrição, manejo, presença de um macho e a temperatura ambiente podem alterar o tempo que o animal fica em estro. Assim sendo’ importante conscientizar a pessoa que ficará responsável pela detecção de estro dos animais para tais características, além dos sinais de uma vaca em estro que são os seguintes:

– Reflexo de imobilidade: Deixa ser montada pelas companheiras
– Monta nas outras vacas
– Corrimento de muco pela vulva
– Micção e mugidos freqüentes
– Vulva edemaciada
– Mudança de comportamento

Destes, o mais importante e que deve ser levado em consideração para se definir que realmente a vaca em cio, é o reflexo de imobilidade, ou seja deixar ser montada pelas companheiras. Os outros são considerados secundários ou auxiliares, servindo para triagem ou uma maior observação deste ou daquele animal.

Figura 1: A vaca em cio (estro) permanece imóvel quando montada.


Os métodos de detecção de vacas em estro

Observação Visual: Devido as característica do ciclo estral de bovinos, esta observação deve ser feita pela pessoa responsável, pelo menos duas vezes ao dia, com o maior intervalo possível entre as observações (ideal 12 horas). Cada período de observação deve variar entre 20 a 40 minutos dependendo do tamanho do lote ser vacas a ser observado. o ideal é observar o gado em movimento lento, ou seja, procurar movimentar os animais, se possível, durante a observação

Rufiões: Existem dois tipos de rufiões, os machos tratados cirurgicamente ou as fêmeas androgenizadas. Independente do tipo, a presença deste é extremamente benéfica mesmo em rebanhos pequenos, pois além de auxiliar na identificação das vacas em estro. Está provado que os rufiões estimulam as fêmeas a permanecerem mais tempo em estro e também fazem com que os sinais de cio sejam mais evidentes, facilitando a detecção. Quando se utilizam rufiões é importante lembrar que estes animais não fazem o serviço sozinhos, sendo necessário também a observação visual. Quando uma fêmea ‘ detectada em estro na presença do rufião, esta deve ser retirada do lote para que o mesmo possa procurar outras possíveis vacas em estro, evitando assim o problema de preferência por uma determinada fêmea. Os rufiões podem ser utilizados juntamente com marcadores (chinball), que são dispositivos utilizados para marcar as vacas montadas pelos rufiões, podendo estas ser identificadas mais tarde. São utilizados principalmente em grandes rebanhos, com animais mantidos á pasto.

Figura 2 – Rufião com bucal marcador


Heat-watch: Trata-se de um mecanismo eletrônico de detecção de estro que já esta sendo usado na prática em alguns rebanhos leiteiros principalmente dos USA. Um dispositivo eletrônico é colado na região sacral do animal e quando este é montado por outra fêmea ou rufião, a pressão faz com que seja emitido um sinal em freqüência modulada, que é captado por uma antena conectada a um computador que cadastra eletronicamente o início da aceitação, o número de montas e fornece um relatório com o período mais indicado para inseminação. Apresenta boa acurácia e eficiência, porém tem uma limitação de preço e a dificuldade de utilização em rebanhos criados em grandes extensões.

Figura 3 – Vaca com o dispositivo Heat-watch


Esquema e momento ideal de inseminação

A escolha do momento ideal para IA deve levar em consideração as seguintes características: tempo de sobrevivência dos gametas (ovócito: 20 a 24 horas e espermatozóide: 25 a 30 horas) e momento mais provável de ovulação (24 a 30 horas após o início do estro).

Mais uma vez, a correta observação de cio faz a diferença. Não basta apenas identificar qual animal está em cio. Um bom observador deve identificar o cio desde o início das manifestações para determinar corretamente o horário ideal para inseminar.

A vaca é um dos únicos animais que ovulam após do período de estro (Metaestro), levando em consideração estas características o momento ideal para IA em bovinos é de 18 a 24 horas após o início do estro. Nestes casos as vacas deveriam ser inseminadas

Visando a IA neste período, foi estabelecido por TRIMBERGER em 1948 o seguinte esquema pratico:

TABELA 1: Horário de inseminação de acordo com o momento do início do cio da vaca.


TABELA 2: Efeito do momento da inseminação sobre a taxa de concepção á primeira inseminação em bovinos.


De acordo com a anatomia do genital da vaca, que possui um útero de corpo curto, mecanismos de transporte do espermatozóide e a necessidade da capacitação (modificações á nível de envoltório) durante a passagem pelo genital, o local de deposição ideal para o sêmen é o limite entre a cérvix e útero, pois caso fosse colocado mais a frente, a ovulação poderia ocorrer do outro lado, o que dificultaria a concepção, além de prejudicar a capacitação espermática, pois os espermatozóides poderiam passar muito rapidamente pelo genital da fêmea.

O descongelamento do sêmen deverá ser feito a modo de se promover um descongelamento uniforme em toda a palheta, e um rápido abaixamento da temperatura até 35oC para manutenção da integridade do espermatozóide, evitando lesões no acrossomo, parte da cabeça que é importante para penetração do óvulo.

Portanto a melhor forma de descongelamento é em água morna à aproximadamente 35oC. Para o completo descongelamento são necessários 10 segundos para palheta fina e 30 segundos para palheta média. Porém sendo nesta temperatura a palheta pode ficar por mais tempo na água morna sem que altere a qualidade da dose de sêmen. Independente do tipo de recipiente na qual o sêmen esta envasado, estas devem ser descongeladas em água morna. Recomendações diferentes podem ser fornecidas pela empresa que comercializa o produto. Após este procedimento, as palhetas devem ser secas, montadas no aplicador e utilizadas dentro do mais rápido intervalo.

Figura 4: Método correto de descongelamento do sêmen bovino.


Cuidados com a aquisição do sêmen

Se a propriedade utiliza inseminação artificial, os cuidados com a fertilidade do sêmen devem ser maiores em relação aquelas que usam monta natural. No momento da aquisição do sêmen, o proprietário deve solicitar do vendedor ou representante comercial, o resultado de um exame que ateste a qualidade do material a ser adquirido. Não estamos nos referindo a qualidade genética do reprodutor, mas á qualidade do sêmen, ou seja, se este se encontra em condições de boa fertilidade. Isto é perfeitamente possível, pois as Empresas que comercializam tal material executam estes testes como parte de seu controle de qualidade. Caso haja alguma suspeita sobre o material ou não se consiga este atestado, de comum acordo, o proprietário e o vendedor devem enviar uma amostra (dose) deste sêmen para análise, antes do início de sua utilização. Exames adicionais no sêmen devem e podem ser realizados quando houver a suspeita de qualquer problema, como redução de fertilidade de vacas inseminadas em um determinado período, redução do nível de nitrogênio líquido do botijão e outras. Vale lembrar que a reciclagem periódica do inseminador é uma medida que garante e geralmente melhora a eficiência da técnica.

Os mandamentos de um bom inseminador

1 – Observe o cio por 30 minutos cada lote, de manhã ( 06:00 as 08:00 hs ) e a tarde ( 16:30 as 18:30 hs );

2 – A vaca que foi observada aceitando monta de manhã inseminar a tarde, a vaca que estiver aceitando monta a tarde inseminar de manhã;

3 – Só faça a inseminação se o muco estiver limpo, se estiver sujo não insemine e informe ao Veterinário;

4 – Lave bem a vulva da vaca e enxugue com papel higiênico, antes de introduzir o aplicador, “jamais introduza o aplicador com fezes na vulva”;

5 – Manipule o sêmen com a caneca sempre 5cm a baixo da boca do botijão;

6 – Descongele o sêmen na água morna a 35ºC por 30 segundos (palheta média) e por 10 segundos (palheta fina);

7 – Realize a inseminação com calma depositando o sêmen logo após a cérvix;

8 – Anote a data da inseminação e confirme o touro;

9 – Não insemine a 4a vez, chame um técnico para examinar o animal;

10 – Mantenha o material utilizado na inseminação sempre limpo e as anotações em dia.

Bibliografia consultada

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