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Indústria da carne tem boas perspectivas no mercado externo e dificuldades no Brasil

Os frigoríficos brasileiros trabalham hoje com dois cenários opostos. Enquanto as indústrias exportadoras têm no dólar um fator de ganhos, as empresas que dependem apenas do mercado brasileiro contam com perspectivas bem menos promissoras.

Em aula inaugural da Academia ABPA, lançada nesta quarta-feira (24) pela Associação Brasileira de Proteína Animal, a economista Zeina Latif falou sobre tendências para o dólar, comércio global e demanda chinesa e do Oriente Médio (dois dos principais compradores de carnes brasileiras), todos com viés positivos para quem exporta.

Por outro lado, as projeções para o consumo dos brasileiros têm muitos entraves a superar, indica Zeina, que já atuou como economista-chefe da XP Investimentos e no Royal Bank of Scotlan, entrou outros. Ainda que o dólar em alta ajude empresas exportadoras, nem todas indústrias processadoras de proteína animal têm acesso aos mercados internacionais, o que gera um descompasso grande no setor.

Como as commodities tendem, de acordo com Zaina, a seguirem nos atuais patamares, e até com alta, ainda que menos intensa do que em 2020, o custo dos insumos para alimentação animal igualmente encarece. E se as indústrias que exportam conseguem manter o equilíbrio financeiro, o mesmo não se pode dizer daquelas focadas no mercado interno.

De acordo com o presidente da ABPA, Ricardo Santini, além de já estarem reduzindo abates, esses frigoríficos ainda se deparam com dificuldades para repassar aos preços os necessários reajustes de altas como do milho e da soa. Com a inflação dos alimentos já na faixa dos 15%, desprego em alta e renda em queda, as empresas se encontram em uma encruzilhada. Zeina lembra, porém, que os alimentos, apesar do custo, são os últimos a serem cortados da lista.

“Para o setor de alimentos há uma perspectiva um pouco mais positiva, apesar da crise por que muitos brasileiros passam. Especialmente na classe média, que antes reservava algum recurso para trocar de carro ou viajar, a tendência é focar no setor de alimentos preservando o consumo básico ao menos”, diz Zeina.

Os entraves, porém, são muitos especialmente para as classes mais baixas, com o auxílio emergencial reduzido e inflação crescente penalizado as famílias. Um cenário que pode gerar protestos e mobilização social nas ruas, com o ocorrido em 2013.

“Foi o que ocorreu na alta das passagens no transporte público. Naquele período, a inflação dos alimentos também estava próximo de 15%, e as famílias também iam ao supermercado e voltam com cada vez com menos produtos nas sacolas. Não vai ser fácil fazer repasses, ainda que as empresas dependam disso para manter as margens do negócio”, avalia a economista.

E dado o lento andamento da vacinação no Brasil, a situação não tende a melhorar neste primeiro semestre, avalia a economista. Isso porque uma melhor condução da imunização permitiria a retomada de atividades produtivas e econômicas mais rapidamente.

Abaixo, veja as projeções e análises de Zeina para o andamento do comércio global, dólar, commodities e outros temas.

Commodities agrícolas

“Acredito em sustentação nos preços, mas a alta daqui para frente mais moderada. O plano de fundo para explicar isso é o comércio mundial. A China quer aumentar o consumo das famílias, o que beneficia o mundo todo. Mesmo que seja um movimento lento, aos poucos ganha musculatura e da sustentação nos preços. Mas não como visto em 2020, especialmente no segundo semestre do ano passado, quando houve grande demanda chinesa e global para aumentar os seus estoques. Outro fator positivo é o consumo dos Estados Unidos, igualmente avançando. São dois grandes players mundiais, o que dá liquidez ao mercado”

Commodities agrícolas II

“Vale lembrar que o setor de commodities é também um ativo financeiro, onde além de consumidores existem investidores que estão apostando no setor, mas o setor deve ficar atento ao movimento global de sustentabilidade e preservação do ambiente. O que antes era concentrado em países mais desenvolvidos, como os Estados Unidos e Europa, agora ganha força também na China e se fortalece com a Vitória de Biden, aumentando as pressões sobre o Brasil”

A cotação do dólar no Brasil

“O dólar não deve ter grande redução nos próximos meses no Brasil, mesmo a redução de juros. Desde junho do 2020, no resto do mundo esse movimento se enfraqueceu, mas no Brasil ocorreu ao contrário. Esse descolamento da realidade é muito forte. O dólar hoje deveria estar entre R$ 4,20 e R$ 4,30 e não em R$ 5,50. Esta diferença é claramente reflexo de problemas internos e a raiz disso são as contas públicas. Não pelo tamanho do déficit, mas porque o governo não está conseguindo administrar este fato e nem tem planos consistentes para repor os recursos investidos, por exemplo, no auxílio emergencial, com cortes de gastos consistentes”

Inflação e crédito

“Além do dólar em relação ao real estar com uma cotação descolada em relação ao resto do mundo, a inflação brasileira também está acima da media de todos os outros países emergentes . A iniciativa do Banco Central de levar os juros para conter a alta do dólar prejudicar o crédito e tende a aumentar a inadimplência”

Fonte: Jornal do Comércio.

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