Aumenta a aposta em ‘bife’ plant based impresso em 3D
18 de novembro de 2021
Rússia importará 300 mil toneladas de carnes com tarifa zero
18 de novembro de 2021

Hambúrguer de laboratório? JBS vai erguer fábrica para dar escala comercial

A picanha de laboratório talvez ainda pareça futurista, mas a JBS encontrou uma tecnologia viável para produzir hambúrguer, quibe e outros alimentos preparados a partir do cultivo de células. Depois de escarafunchar o estado de desenvolvimento das tecnologias nos últimos três anos, a companhia acaba de anunciar a aquisição do controle da espanhola BioTech Foods. 

O M&A integra um abrangente plano da JBS para liderar a indústria de carne cultivada, uma tecnologia que ainda não atingiu escala comercial mas já atraiu o capital de personalidades como Bill Gates, Richard Branson e Leonardo DiCaprio tamanho é o apetite por alternativas ao sacrifício animal — e, claro, por uma redução substancial nas emissões da gases de efeito estufa.

Maior indústria global de carne bovina e dona de um faturamento anual de US$ 65 bilhões, a JBS separou US$ 100 milhões — o equivalente a R$ 550 milhões — para se consolidar como um grande player em carne cultivada a partir de células.

Uma parcela desse montante será desembolsada para assumir uma participação majoritária na BioTech Foods, mas o pacote também inclui US$ 41 milhões para a construção de uma fábrica na Espanha. Os recursos contemplam ainda a criação de um centro de P&D dedicado ao tema no Brasil. 

“Quando a gente entra num negócio, é para ter posição de liderança”, enfatizou o CEO global da JBS, Gilberto Tomazoni, ao Pipeline.

Ao contrário de outras startups que começaram o desenvolvimento das carnes cultivadas buscando chegar ao bife perfeito, o que é mais complexo por causa da dificuldade de emular a fibra muscular, a BioTech Foods iniciou pela proteína desagregada (trocando em miúdos, a startup criou um produto parecido com a carne moída). 

A partir da carne desagregada, é bem mais fácil produzir itens como hambúrguer, quibe, almôndega e embutidos. Eduardo Noronha, o executivo responsável pela área de inovação da JBS, já provou o hambúrguer da BioTech Foods e não se arrepende. “É exatamente a mesma coisa que um hambúrguer de carne”. 

A validação da tecnologia da BioTech Foods — o tecido celular é obtido com uma biópsia e a partir daí é cultivado — deu segurança para a JBS não só assumir o controle do negócio como já iniciar a construção de uma fábrica em escala comercial em 2022. No desenvolvimento da tecnologia, a startup recebeu recursos da Comissão Europeia e do governo espanhol.

A unidade será construída no País Basco, comunidade autônoma da Espanha onde está sediada a planta piloto da BioTech Foods. A fábrica terá capacidade para produzir 1 mil toneladas por ano. Nos testes, a startup produz apenas 1 tonelada por ano. 

Um desafio crucial para tornar o produto palatável é o preço. Atualmente, o quilo de um produto como esse não sai por menos de US$ 600, mas a tecnologia vem se desenvolvendo rapidamente e os executivos da JBS estão confiantes numa solução de escala. 

“Veja o que aconteceu com os chips. Era um absurdo e hoje custam pouco”, diz Noronha. De fato, já houve uma drástica redução de preço desde que o carne de laboratório começou a ser testada. Há dez anos, um hambúrguer desses chegava a valer US$ 280 mil. 

Ao assumir o controle da BioTech Foods, a JBS dá um passo diferente de concorrentes como as americanas Cargill e Tyson e a brasileira BRF, que fizeram aportes minoritários. A dona da Sadia, por exemplo, aplicou US$ 2,5 milhões na rodada série B da Aleph, startup israelense que levantou US$ 105 milhões e vem trabalhando para desenvolver, aí sim, um bife — se a parceria chegar a um produto comercialmente viável, a companhia brasileira vislumbra construir uma fábrica em 2024.

“Ao invés de sermos um investidor, nossa opção foi ser um produtor. Fizemos a aquisição de tudo, inclusive das patentes. Os técnicos que desenvolveram permanecem conosco e agora são sócios do negócio”, diz Tomazoni. 

Na Espanha, o time da BioTech Foods seguirá à frente do negócio. A startup foi fundada em 2017 por dois espanhóis: a CTO Mercedes Vila Juárez, uma especialista em física dos materiais para biomedicina que já ganhou prêmio da Unesco no programa Mulheres na Ciência; e o CEO Iñigo Charola, experiente na área comercial. 

Por aqui, a JBS também vai fomentar as pesquisas, criando um centro de P&D que será liderado pelos cientistas Luismar Marques Porto, pesquisador visitante em Harvard e no MIT, e Fernanda Vieira Berti, que criou uma startup que trabalha com medicina regenerativa e células-tronco voltadas para o tratamento de animais. Localizado em um espaço de 10 mil metros quadrados, o centro terá 25 pesquisadores. 

Fonte: Valor Econômico.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *