Gestão produtiva e financeira em pecuária de corte – Guia de implementação

Por Rogério Rodrigues de Lima.

Este artigo tem por objetivo elucidar de forma clara e de fácil entendimento como um produtor pode implantar um modelo de gestão profissionalizada da atividade de pecuária de corte, onde possa ter oportunidade de evoluir na condução de seu negócio, de tal forma que atingir novos e melhores patamares de resultados seja uma constante, tanto no campo zootécnico como também e, principalmente, no campo financeiro de sua atividade.

Quando falamos de gestão produtiva e financeira em pecuária de corte, precisamos entender que neste contexto, o produtor precisa adotar uma nova forma de enxergar seu negócio.

Esta nova visão que deve ser criada, é a de desenvolver uma cultura dentro da atividade, e que atinja igualmente desde os proprietários do empreendimento até toda a equipe de colaboradores envolvida no operacional, em que se passe a entender a fazenda e o negócio como atividades estritamente empresariais.

A princípio parece mais um clichê, mas na verdade a implantação e manutenção desta cultura de enxergar a fazenda como uma empresa faz toda a diferença no momento de se adotar um modelo de exploração mais profissional da atividade, em que pese a gestão sendo utilizada não somente como ferramenta no processo mas também como instrumento de captação de informações acerca do negócio, onde este novo conhecimento gerado possa ser transformado em ações que busquem impactar de forma positiva os resultados, ora obtidos.

Tendo este primeiro posicionamento impregnado nas pessoas envolvidas no negócio, os restantes dos passos a seguir passam a ser uma sequencia natural de acontecimentos. E é justamente nestes próximos passos que daremos o devido enfoque a seguir.

Primeiramente, se faz necessário que o produtor tenha consciência daquilo que quer e busca para seu negócio. Neste ponto, ele precisa ter bastante claro em sua mente alguns parâmetros para iniciar a nova forma de gerir sua atividade. Dentre estes parâmetros, elenco alguns que considero primordiais.

– Defina o propósito de sua empresa, qual o objetivo principal deseja atingir através daquela atividade que está se propondo a fazer.

– Defina uma visão de futuro, de como espera e almeja que seu negócio esteja daqui 5, 10, 20 ou 30 anos.

– Defina seu modelo de negócio de maneira consciente. Qual será sua atuação, se irá explorar a cria, a recria, a engorda ou o ciclo completo. Se sua exploração será de baixa / média / alta tecnologia. Como irá gerar valor e entrega-lo ao mercado. Quem serão seus clientes e parceiros chave. Fontes de Receitas, estrutura de custos, dentre outras questões pertinentes.

– Defina na sua linha de ação, se irá atender mercado de commodities ou de nichos em carne de qualidade.

Enfim, são alguns os itens que o produtor precisa ter previamente decidido para que seu projeto possa caminhar de forma planejada e coordenada.

Após esta “olhada no futuro”, estabelecimento de propósitos bastante objetivos e ainda das diretrizes de trabalho, partimos para a parte mais prática da gestão, onde colocamos a mão na massa em busca de informações que possam nos orientar no planejamento e tomadas de decisão para o negócio.

Neste momento precisamos empreender um diagnóstico minucioso da atividade, traçando um retrato daquele momento do negócio em que o mesmo apresente de forma fidedigna as características e os indicadores atuais na atividade.

Este diagnóstico depois de concluído deve possibilitar a compilação das informações produtivas e financeiras obtidas, de tal modo que o responsável pela avaliação dos números possa visualizar de maneira clara como o negócio está posicionado naquele momento de avaliação.

Identificação dos pontos fortes e fracos no sistema de produção avaliado é possível através de uma análise criteriosa. As oportunidades serão construídas com base nas informações coletadas pelo diagnóstico, e na posterior análise detalhada destas informações.

Este é o motivo pelo qual sua importância é fundamental no processo de gestão, e precisa representar fidedignamente os números para que não incorramos em erros de planejamento.

É importante que se tenha métricas de avaliação que sejam realmente de relevância produtiva e financeira, e que em paralelo possam ser fontes de impacto positivo nos resultados. Tais métricas podem ser divididas em setores, para facilitar o entendimento, e dentre eles destacamos as métricas de avaliação produtivas, reprodutivas, financeiras e de pessoal.

Concluída esta fase de diagnóstico e avaliação criteriosa inicial, entramos numa outra etapa de suma importância no processo de gestão, à qual denominamos de planejamento estratégico da atividade.

Este planejamento realizado deve contemplar planos de ação, processos bem delineados, data de execução de tarefas, metas produtivas e financeiras, previsões de fluxo de caixa, estratégias comerciais de colocação do gado no mercado, dentre outros pontos que se façam necessários.

Este planejamento deve também contemplar dois horizontes paralelamente, sendo que um se referindo ao planejamento de curto prazo que está focado no período do ciclo produtivo que entrará em curso, e o outro se referindo ao planejamento de longo prazo que está focado num horizonte maior de tempo, e que pode ser projetado para 3 anos, 5 anos ou mais, dependendo do nível de complexidade e organização de cada empreendimento.

Nesta etapa do planejamento estratégico é fundamental o suporte de uma equipe com extrema capacidade técnica e gerencial da atividade.

Oportunamente sendo ela multidisciplinar, melhor será o nível do planejamento elaborado. Estas expertises, nas áreas técnica, gerencial e comercial é que permitem com que se possa construir um horizonte de trabalho que irá nortear de forma eficaz as ações no sentido de incrementar os resultados da empresa, no curto, médio e longo prazo.

Etapa do planejamento concluída, aí chega o momento de colocar tudo que foi proposto em prática na execução do projeto. Esta etapa, assim como as demais já citadas anteriormente é igualmente essencial no processo de gestão de uma propriedade rural.

Aqui adotamos no campo tudo aquilo que no planejamento estratégico foi delineado. Nesta oportunidade, devemos sempre estar em constante processo de treinamento e capacitação das equipes responsáveis pelo operacional da atividade.

Ajustar processos para serem conduzidos de forma eficiente e no momento adequado, se dá com treinamento e aprimoramento contínuo da equipe e é a melhor maneira para que a etapa de execução do projeto seja exitosa. Nesta etapa é onde semeamos para que no decorrer do ciclo produtivo, possamos iniciar uma colheita farta de resultados tanto zootécnicos como financeiros.

É o pulmão do sistema produtivo, e em grande parte é o que determina o sucesso ou fracasso do realizado versus planejado. Recomenda-se bastante atenção e critério na condução desta etapa no processo de gestão.

Aqui também é onde temos oportunidade de coletar informações fidedignas de nosso processo produtivo, e todo o time precisa estar imbuído neste propósito para que as coletas não se percam ou que não reflitam a realidade do negócio. Comprometimento, trabalho em equipe e liderança nesta etapa são fundamentais para o bom andamento da execução das atividades.

Em paralelo à execução, outra etapa primordial é a de monitoramento e checagem de resultados. Este acompanhamento permite com que nos mantenhamos na rota previamente traçada e mais ainda, possibilita alguma correção de rota em tempo ainda hábil para atingir os resultados a que nos tínhamos proposto inicialmente.

Somente ao final de cada ciclo produtivo, checar resultados não permite que em caso deles serem negativos possam ser corrigidos, ao passo que durante o ciclo produtivo, se identificarmos resultados inferiores ao que nos propomos, ainda temos como agir de forma corretiva para que nossos números sejam prontamente atingidos.

O foco deve estar no que está sendo realizado versus o que tinha sido planejado. Estes números devem estar sempre alinhados, e nossa conduta deve ser de buscar este alinhamento obstinadamente.

Finalizando o processo de gestão, temos a avaliação final de resultados quando se encerra o ciclo produtivo que vinha sendo conduzido.

Nesta etapa, identificamos de forma definitiva se aquilo resuque foi projetado pelo planejamento estratégico foi alcançado.

Consolidando os números, podemos identificar os pontos positivos e fortalece-los. Podemos ainda identificar os possíveis erros, caso tenham ocorrido, e através deles construir um aprendizado para que não se repitam novamente.

É nesta fase da gestão que entregamos os resultados de todo o trabalho desenvolvido ao negócio. Ainda temos como característica desta etapa, as informações para nos servir de base, orientando e norteando no planejamento do próximo ciclo produtivo que irá se iniciar, renovando o processo de gestão de forma continuada.

Resumindo em etapas, podemos definir o processo de gestão na seguinte ordem:

1ª ETAPA : Estabelecimento de propósito, uma visão de futuro, um modelo de negócios a ser construído e que atenda os anseios do produtor.

2ª ETAPA : Diagnóstico atual do negócio, traçando uma fotografia do mesmo e uma avaliação criteriosa destas informações geradas.

3ª ETAPA : Planejamento estratégico, com delineamento de planos de ação, metas produtivas e financeiras, estabelecimento de estratégias para que o negócio alcance maiores resultados.

4ª ETAPA : Execução do projeto, colocando em prática no campo todas as estratégias previamente traçadas, com constante aprimoramento da equipe operacional.

5ª ETAPA : Monitoramento e checagem constante de resultados, de tal modo que a rota percorrida esteja em linha com a que tinha sido traçada.

6ª ETAPA : Avaliação final e entrega de resultados.

Em todo este processo de gestão, é importante que as métricas de avaliação sejam compostas por números, indicadores e informações que realmente possam vir a contribuir para a melhoria de resultados do sistema como um todo.

Neste contexto, entendemos que algumas métricas são vitais para conhecermos de fato os resultados do negócio e as recomendamos no controle de suas atividades.

Para cada ramo de atividade em pecuária de corte, seja na cria, na recria/engorda, no ciclo completo, na engorda a pasto ou em sistemas intensivos de cocho, existem suas métricas específicas, mas olhando amplamente para o negócio em si, a empresa pecuária como um todo, segue abaixo algumas das métricas que buscamos atender numa gestão produtiva e financeira mais profissional, às quais seguem:

Dentre os indicadores expostos acima, os que consideramos de maior complexidade para levantamento e avaliação são os indicadores financeiros. Existem parâmetros técnicos que precisam ser levados em conta para avaliação de custos e resultados financeiros.

O que do desembolso total com pastagens e infraestrutura devem ser realmente alocados como custo ou como investimento? Como dividir sua estrutura de custos entre mão de obra, nutrição animal, reprodução, sanidade, pastagens e infraestrutura?

Estas são considerações que caberiam um artigo específico para seu melhor entendimento, e que são de fundamental importância na condução da atividade com viés empresarial.

Deste modo, encerramos o artigo deixando duas mensagens principais, sendo que a primeira é uma citação de um autor renomado mundialmente, Peter Drucker, um dos nomes mais conceituados em gestão profissional no mundo, que diz… “As únicas coisas que evoluem por si mesmas, em uma organização, são a desordem, o atrito e o mau desempenho.”

E a segunda mensagem é que comecem simples, evoluam seus controles gradualmente, mantenham disciplina no decorrer do processo para não se perder no caminho, mas façam! Partam para a ação! Este é o único caminho de buscar um modelo de exploração pecuária em que o futuro se mostra mais promissor.

Grande Abraço e Vamos em Frente!

Por Rogério Rodrigues de Lima, Eng. Agrônomo da Resultados Lapidados Consultoria

This post was published on 20 de maio de 2016

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