Frigoríficos de carne bovina vislumbram ‘super demanda’

É nítida a euforia das empresas brasileiras de carne bovina representadas na Anuga, maior feira de alimentos do mundo que acontece a cada dois anos na Alemanha. Embaladas pelo aumento das importações da China, JBS, Marfrig e Minerva, entre outras, veem os volumes de vendas crescerem, os preços subirem e as ações dispararem na bolsa. As recentes autorizações de Pequim para que mais frigoríficos brasileiros exportem ao mercado chinês puseram mais lenha na fogueira, e o horizonte é cada vez mais promissor.

Com uma cadeia produtiva de ciclo mais longo que a das carnes de frango e suína, o segmento de carne bovina já especula, inclusive, sobre a possibilidade de formação de uma onda de “superdemanda” alimentada pelas compras do país asiático, que enfrenta uma grave epidemia de peste suína africana e tem sido obrigado a ampliar as compras de proteínas no exterior. E essa onda poderá acirrar a concorrência por carne bovina e gerar forte alta dos preços. “No primeiro semestre talvez o mundo não consiga atender à demanda da China”, afirmou ao Valor o diretor de exportação da Minerva Foods, Leonardo Alencar, na Anuga.

Com o plantel de porcos da China em queda por causa da peste suína – que já foi identificada também em outros países da Ásia e do Leste Europeu – os preços da carne suína quase dobraram no mercado chinês desde março, de acordo com relatório do banco Credit Suisse. De janeiro a agosto, as exportações brasileiras de carnes em geral para a China somaram US$ 2,1 bilhões, ou 21,2% de um total que alcançou US$ 9,9 bilhões. Só de carne bovina, os chineses compraram US$ 1 bilhão.

A conjuntura também anima frigoríficos de porte médio como o paulista Frigol, que acaba de sair de uma recuperação judicial e vê a chance de mudar seu perfil e se tornar essencialmente exportador. Dois meses atrás, a empresa tinha apenas uma planta, em Lençóis Paulistas (SP), apta a embarcar carne bovina in natura para a China e tinha cerca de 30% de sua receita proveniente de vendas ao exterior. Com a habilitação de mais uma unidade em setembro, em Água Azul do Norte (PA), a fatia deve crescer para 50%, segundo o CEO Luciano Pascon.

Diferentemente do que acontece na área de carne suína, na bovina as boas perspectivas não dependem necessariamente de que novas plantas sejam autorizadas a exportar à China. Seria mais importante, por exemplo, que o país asiático deixasse de aceitar apenas carne abatida de um “boi jovem” – ou seja, de até 30 meses de idade -, exigência imposta após o caso atípico de “vaca louca” identificado no Paraná em 2012. Os vizinhos Uruguai e Argentina são concorrentes que não precisam seguir essa regra.

O Valor apurou que a suspensão dessa restrição é uma proposta que está sobre a mesa da ministra Tereza Cristina, mas que há outras prioridades. É possível que a China abra primeiro seu mercado para a carne industrializada do Brasil (enlatados, hambúrgueres etc), o que poderá ser anunciado já na próxima viagem do presidente Jair Bolsonaro ao país, agendada para este mês de outubro.

Outra preocupação da ministra é com a sanidade dos produtos vendidos pelos frigoríficos brasileiros à China, e ela já pediu às empresa que redobrem cuidados com os requisitos exigidos por Pequim. “Essa euforia não se traduzirá em resultados se o setor não fizer sua parte e se adequar às normas”, diz uma fonte do governo. “O Brasil tem como melhorar sua produtividade em carne bovina por causa desse cenário na China, mas tem que tomar todos os cuidados”, concorda um executivo do ramo.

No caso da carne de frango, cuja cadeia produtiva é mais curta que a de bovinos, a expectativa gerada pela China, embora o risco de superprodução exista (ver Risco de sobreoferta já entra no radar da avicultura no Brasil ), também beira a euforia. Jair Meyer, superintendente de suprimentos e alimentos da cooperativa paranaense LAR, afirma que todas as proteínas animais se beneficiam da crise da peste suína na China, mas que a carne de frango, por ser mais barata, tende a ser ainda mais favorecida.

“Há uma demanda latente e mais regular da China por cortes de perna de frango e oportunidades para o peito de frango. O segmento deverá ter bons anos pela frente”, afirmou. A LAR tem duas plantas aptas a exportar à China e foi uma das primeiras a embarcar peito de frango para ao país asiático, em setembro – já um sinal da mudança do padrão chinês de importação de proteínas.

Nesse caso, novas habilitações chinesas serão bem-vindas, e a China já sinalizou que tem essa intenção, conforme apurou o Valor. No momento, as negociações em curso entre os dois governos indicam que Pequim poderá autorizar pelo menos as nove unidades que estavam na lista de 34 enviada pelo Brasil e ficaram de fora da relação de 25 plantas recentemente autorizadas (17 de carne bovina, seis de carne de frango, uma de carne suína e uma de carne de jumento).

Procurada, a ministra Tereza Cristina se limitou a dizer que o Ministério da Agricultura levará mais plantas de aves, bovinos e suínos para habilitação da China. “Estamos no ritmo combinado com os chineses. Se eles demandarem mais, vamos levar mais, sem nenhum açodamento”.

Fonte: Valor Econômico.

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