Flexibilização do momento da inseminação artificial em programas de IATF

Importantes ferramentas para aumentar o retorno econômico de uma fazenda são a otimização da eficiência produtiva e reprodutiva do rebanho. O uso da inseminação artificial (IA) é uma alternativa para a introdução de material genético de animais de raças européias (Bos Taurus) possibilitando a maximização da produção.

A implementação de protocolos hormonais que possibilitem que a inseminação artificial seja realizada em tempo fixo (IATF), sem necessidade de observação de cio, pode, por sua vez, colaborar para o aumento da eficiência reprodutiva do rebanho. Manejar o menor número possível de vezes esses animais é um grande desafio a ser alcançado. Portanto, práticas de manejo que possibilitem a diminuição do número manipulações dos animais são muito importantes para maximizar a eficiência de manejo e viabilizar o uso desses protocolos para IATF.

Sabe-se que os animais precisam ser levados ao curral em quatro diferentes ocasiões para a realização dos tratamentos relativos ao protocolo convencional de IATF (usando benzoato de estradiol) e que a IA tem sido realizada durante um período de 4 horas (54 a 58 h após a retirada do dispositivo), com pouca possibilidade de alteração desse horário. Assim, o objetivo deste artigo será discutir um trabalho no qual se avaliou a dinâmica folicular (1) e a taxa de concepção (2) de vacas Nelore (Bos indicus) lactantes tratadas com dispositivo intravaginal de progesterona (P4) associado a diferentes momentos de administração do benzoato de estradiol (BE) e diferentes momentos de IATF.

Para tal, dois experimentos foram realizados administrando-se BE em dois momentos distintos após a retirada do dispositivo intravaginal de P4: no momento da retirada (D8) ou 24 horas após (D9). A avaliação da eficiência da aplicação do BE nestes momentos foi realizada com base na dinâmica folicular (Experimento 1, n = 30) e na taxa de concepção (Experimento 2, n = 504) dos animais.

No Experimento 1, o acompanhamento da dinâmica folicular foi realizado em 30 vacas Nelore divididas em dois grupos experimentais (n=15 vacas/grupo). No início do tratamento (Dia 0), todos os animais receberam um dispositivo intravaginal de P4 (DIB®, Syntex, Argentina) associado à administração intramuscular (IM) de 2 mg de BE (RIC-BE®, Syntex, Argentina). No Dia 8, realizou-se a remoção do DIB® e a administração de uma dose de PGF2 (150µg de d-cloprostenol; Prolise®, Syntex, Argentina) e 400 UI de eCG (Novormon®, Syntex, Argentina) IM. As fêmeas foram então distribuídas homogeneamente em dois grupos: os animais do grupo controle (G-BE9; n = 15) receberam 1 mg de BE no Dia 9 e os animais do grupo BE8 (G-BE8; n = 15) receberam a mesma dose de BE no momento de retirada da fonte de P4 (D8; Figura 1).

Figura 1. Desenho experimental dos protocolos de tratamento do Experimento 1 (G-BE9 G-BE8) para a avaliação da dinâmica folicular de vacas Nelore (Bos indicus)

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Os exames ultra-sonográficos foram realizados a cada 8 horas após a retirada do dispositivo de P4 até a ovulação. O efeito de cada tratamento nas variáveis envolvidas na dinâmica folicular está apresentado na tabela 1. Ao comparar os animais do grupo G-BE8 e G-BE9 observou-se que as vacas do G-BE9 apresentaram maior diâmetro do folículo dominante no momento do tratamento com o indutor de ovulação (BE), maior diâmetro máximo do folículo dominante e maior intervalo entre a retirada do dispositivo de P4 e a ovulação, como já era esperado. Em adição, as vacas do grupo G-BE9 tenderam a exibir maior diâmetro máximo do folículo ovulatório (1,58±0,04 cm) quando comparadas com as do G-BE8 (1,46±0,05 cm; P = 0,07; Tabela 1). Entretanto, os dois grupos apresentaram resultados similares em termos de diâmetro do folículo dominante nos dia 8 e 9, taxa de ovulação e variação no momento da ovulação (Tabela 1 e Figura 2).

Tabela 1. Dinâmica folicular (média  EP) de vacas Nelore (Bos indicus) lactantes submetidas a diferentes tratamentos para IATF

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Figura 2. Efeito do momento da administração do benzoate de estradiol (D8 vs D9) no momento da ovulação (h) de vacas Nelore (Bos indicus) lactantes tratadas com dispositivo de P4

No Experimento 2, 504 vacas lactantes receberam o mesmo tratamento descrito no Experimento 1, sendo a inseminação realizada em dois diferentes momentos em cada grupo. Os animais dos grupos BE8-IA48h (G-BE8-IA48h; n = 119) e BE8-IA54h (G-BE8-IA54h; n = 134) receberam 1 mg de BE no Dia 8 e foram inseminados 48 ou 54 h após a remoção do dispositivo de P4, respectivamente. Os animais dos grupos BE9-IA48h (G-BE9-IA48h; n = 126) e BE9-IA54h (G-BE9-IA54h; n = 125) também foram inseminados 48 e 54h após a retirada do dispositivo, entretanto o BE foi administrado no Dia 9 (Figura 3).

Figura 3. Desenho experimental dos protocolos de tratamento do Experimento 2 (G-BE9-IA48h, G-BE9-IA54h, G-BE8-IA48h e G-BE8-IA54h) para avaliação das taxas de concepção e prenhez de vacas Nelore (Bos indicus)

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A taxa de concepção foi maior (P a], G-BB9-IA48h [58,7% (74/126)a] e G-EB8-AI48h [58,8% (70/119)a] do que nos animais do G-BE8-IA54h [34,3% (46/134)b; Tabela 2].

Tabela 2 – Efeito do momento da administração do BE e da IATF na taxa de concepção de vacas Nelore lactantes

Assim, os autores puderam concluir que o tratamento com BE no momento da retirada de P4 possibilita a redução do número de manejos com os animais, porém não permite a realização da IATF no período da tarde, ou seja, 54 h após a retirada da P4. No entanto, quando o BE foi administrado 24 h após a remoção da P4, necessitou-se a realização de 4 manejos, mas foi possível realizar a IATF durante o período de 48 a 58h (manhã e tarde), sem diminuir a eficiência reprodutiva.

Portanto, constatou-se no presente experimento, que existem protocolos de IATF, nos quais, é possível utilizar uma única fonte de estradiol (BE) no início (D0) e ao final do protocolo (indução da ovulação) e que, dependendo do interesse do produtor, pode-se optar tanto pelo uso de um protocolo com 3 manejos (BE-D8) e IA em apenas um período (48h), quanto por um protocolo de 4 manejos (BE-D9) que possibilite a realização da IATF durante o dia todo (48 a 58h). Uma vez respeitados os intervalos necessários entre as aplicações do indutor de ovulação e a IA, os resultados a serem alcançados por esse novo protocolo proposto (BE-D9) possuem potencial de assemelharem-se em eficiência reprodutiva àqueles obtidos por animais manejados 4 vezes e inseminados apenas no período da tarde (protocolo tradicional; BE-D8).

Obs. Atualmente nosso laboratório está empenhado no estudo de novas alterações desse protocolo que viabilizem a realização de três manejos e IATF o dia todo (48 a 58 horas), ou seja, de manhã e a tarde.


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