Agroindústria brasileira está em recessão, afirma a CNA
15 de junho de 2012
Atacado – 15/06/2012
15 de junho de 2012

O que falta para termos um sistema de tipificação de carcaças no Brasil?

O que falta para termos um sistema de tipificação de carcaças no Brasil? Essa é uma grande pergunta que me incomoda há tempos. A pecuária está muito mais moderna, eficiente e produtiva. No entanto, um dos principais gargalos para o avanço do nosso setor está na comercialização de gado para abate. A forma como o gado é comercializado indica de forma muito forte para o pecuarista o que ele deve produzir, o que o mercado quer comprar.

Teoricamente faz todo sentido ter um sistema de tipificação no Brasil. E porque não temos? A tecnologia já existe. Já temos máquinas, pessoas treinadas, softwares. Enfim, todas as ferramentas estão disponíveis, inclusive as mais novas tecnologias do mundo já estão por aqui. Falta querer fazer. Falta fazer sentido. Sentido para o mercado, para as empresas.

O primeiro grande problema, que eu desconhecia como entrave a tipificação, é a enorme capacidade de abate do Brasil. Temos hoje mais de 70 milhões de capacidade de abate anual. E abatemos cerca de 40 milhões por ano. Ou seja, temos muito mais plantas frigoríficas do que gado. E planta funcionando vazia, com pouco gado, é mortal para um frigorífico. Em resumo, escala curta acaba com qualquer projeto de qualidade. É melhor para a operação, para a fábrica, para as finanças matar mais bois, mesmo que com menor qualidade do que poucos bois com alta qualidade.

E porque a escala curta é um grande inimigo de um programa de classificação? Pela cultura do pecuarista, a grande maioria não quer ser descontado. Todos querem prêmio pela qualidade, mas ninguém aceita desconto, redução de preço quando entrega baixa qualidade. Em programas de qualidade, ouvimos que muitos pecuaristas se recusam a participar quando sabem que serão descontados se a qualidade for baixa. Preferem um preço fixo para o bom, médio e ruim. E a junção de cultura do pecuarista com elevada capacidade de abate tem dificultado o avanço dos programas de qualidade.

Outro ponto muito importante é que os frigoríficos já conseguem comprar um percentual pequeno (10-15%) de animais de qualidade. E com esse pequeno percentual, fazem um “garimpo” interno e atendem clientes um pouco mais exigentes.

Com tudo isso contra, existe alguma luz no fim do túnel? Há algo que podemos fazer? Sim, há muito que pode ser feito. E mais incrível, há muito sendo feito hoje.

Tivemos a satisfação de reunir muitos projetos brasileiros de alta qualidade num workshop e webseminário sobre tipificação e comercialização de gado para abate. O que aprendemos?

Primeiro, precisamos estar mais próximos de quem compra e vende. Precisamos aprender mais. Quem vende boi tem que entrar na sala de matança, na sala de desossa, entender por onde o boi dele passa até chegar a dona de casa e ao restaurante. Esse aprendizado ajuda muito. Do outro lado, a mesma coisa. Quem vende carne precisa entrar na sala de desossa, na sala de matança. Precisa ir até a fazenda que produz o boi que vai virar carne, que vai virar churrasco, que vai virar festa.

Além disso, a tecnologia, as máquinas não vão resolver tudo. Temos divergências em relação ao peso da balança, que é algo mecânico, métrico. Outro ponto muito importante é que o repasse das informações da indústria para o produtor. Quanto mais o produtor souber como o boi dele está sendo bem ou mal utilizado dentro do frigorífico, melhor.

O receio de algumas indústrias é repassar essas informações, e ter dificuldade em comprar aqueles 10-15% com qualidade, pagando preço médio. O problema é que isso já está acontecendo.

Como pecuaristas, queremos comer carne de bois capões, com bom acabamento e boa coloração. Mas queremos vender bois inteiros, pois ganham mais peso e custam menos por arroba produzida. Com isso, temos uma tendência em duas direções.

A carne de qualidade melhora a cada dia. Enquanto que a carne comum, bica corrida, vem piorando. Seja por bois inteiros e mal acabados. Ou por problemas como o caroço de algodão mal utilizado.

Aproximar mais a indústria e pecuarista é fundamental para caminharmos de forma a atender o consumidor final com excelência. Isso só vai funcionar se houver confiança e ganhos mútuos. Enquanto isso, produtos substitutos e os inimigos da pecuária nadam de braçada, aproveitando nossos escorregões e também o crescimento do mercado consumidor, aqui no Brasil e no mundo afora. O mundo, o Brasil, está consumindo mais. De tudo, inclusive carne bovina. Esse maior mercado não é só volume, mas uma enorme demanda por qualidade.

Há exemplos mundo afora que provam que juntar 1-um sistema de tipificação, que separa o melhor do pior, com 2-maneiras de enviar feedback ao produtor que aquela boiada dele estava entre os melhores (ou entre os piores) a produção muda. A qualidade aumenta. Quando há mercado (e há muito), separar o bom do ruim, pagando diferente, e informando o produtor em que padrão ele se encaixa, tem mudado a forma de se produzir, atendendo muito melhor o consumidor.

E quem vai liderar esse processo? Minha aposta é simples, mas ambiciosa.

Eu acredito que quem poderia liderar esse processo que será fundamental para revolucionar a pecuária de corte são as associações de raça, em especial Nelore, Angus e Hereford.

Essas três raças já tem certificadores trabalhando nos frigoríficos. Pessoas treinadas, capacitadas, fazendo dia após dia um trabalho fundamental. Ou seja, a estrutura já está em grande parte montada. Mas temos três castelos sendo construídos, mas incompletos. Poderíamos construir um só, muito mais forte, robusto e eficiente.

Imagine que “estrago” não seria possível fazer com uma união dos serviços, dos profissionais, das equipes, do conhecimento dessas três associações. Reorganizando os tipificadores, pois não é preciso ter um de cada raça numa mesma planta. Criando um sistema que simplesmente reunisse essas informações coletadas e desse acesso a quem tem direito, e impedisse seu uso indevido a quem não deve acessá-las.

Mais de 90% do esforço já foi feito. Os profissionais já foram contratados, já estão trabalhados. É preciso apenas agrupar e coordenar. Mas essa é uma proposta ambiciosa, pois juntar quem anda separado muitas vezes não é fácil. É um grande desafio, que muito iria contribuir para a pecuária brasileira.

Além disso, com os recentes atritos entre produtores e frigoríficos, em especial o movimento contra o monopólio, criado por algumas entidades preocupadas com o futuro do pecuarista, abriu uma janela de oportunidade para se melhorar o relacionamento produtor-frigorífico e de um problema está sendo criado uma agenda positiva.

Esse é o momento para ser criar a tipificação no Brasil e minha sugestão, um pouco ousada, é usar as equipes de certificadores das associações de raça que já fazem um trabalho desse tipo.

28 Comments

  1. Evándro d. Sàmtos. disse:

    Entender que frigorífico precisa Tornar-se INDÚSTRIA DE ALIMENTOS,e gestões a altura.

    Precisa os executivos empresários,executivos e gestores,entenderem que o que é bom para o mercado externo,também pode ser bom para o mercado interno.

    Mudar formas de comercialização e por consequência de produção,amadurecimento do negocio e do setor.

    Com tais medidas as grandes redes perderão a desculpa das ditas perdas e com isto poderão diminuir seu Mark Up que é escorchante (de 80 a 100% sobre o valor de face da NF,que já contempla até 22% de rapel).

    Desta forma os pecuaristas saberá o que e como a indústria deseja de animais terminados,melhorando desta forma o relacionamento entre as partes.

    Nossos problemas dão-se na base do negocio,sem mudanças,quebras de paradigmas e dogmas ultrapassados,absolutamente nada de melhoria ocorrerá,nem nas relações,nem nas receitas sejam esta do pecuarista ou das indústrias.Se continuarmos em meio às trevas qualquer ação de melhoria será apenas um vácuo,falácia,nada mais.

    Acabou o tempo de comer pelas beiradas,existem concorrentes com canhões,enquanto a grande maioria só tem garrucha.E ai a estratégia não pode ser a mesma.

    Os frigoríficos menores (médios e pequenos),ou mudam agora,ou arrendarão,ou venderão,ou simplesmente fecharão suas plantas.Não é momento de ficar de nhê,nhê,nhê….é ora de ação positiva,pró ativa,é ora de contratar para fazer acontecer se não sabem como fazê-lo,é ora de abrir a cabeça para novas tendências que pode salvar seus negócios.

    Saudações,

    Evándro d. Sàmtos.

    • Miguel da Rocha Cavalcanti disse:

      Olá Evandro,
      Você não comentou sobre o ponto principal do texto, unificar o trabalho das associações :-)
      Sobre os mercados, vejo que o mercado interno é mais exigente que a maioria dos mercados externos que o Brasil atende. SP é mais exigente que Rússia e Irã, que compram volume e não querem acabamento.
      Vejo as indústrias melhorando a cada dia, no sentido de gestão melhor e visão de marketing.
      A pesquisa de marcas de carne que estamos fazendo está mostrando coisas interessantes. Cerca de 100 marcas identificadas e os principais frigoríficos possuem marcas.
      Marfrig tem uma linha grande de marcas e se expande. E o JBS tem uma marca (Swift Black) que é muitíssimo elogiada por quem entende, o que me deixou impressionado e com vontade de provar.
      Abs, Miguel

  2. Frank Yeo disse:

    Miguel,
    O tempo chegou quando a indústria de carne brasileira devem reconhecer que a classificação exata será um grande benefício para todos – os pecuaristas, os Frigoríficos e os consumidores. Minha experiência no Reino Unido, onde nós estabelecemos a certificação de 50 anos é que pecuaristas não gostam de descontos.

    No entanto, a corajosa decisão é para os Frigoríficos a fazer. Os bônus e os descontos devem ser realistas e se relacionam diretamente com o volume eo valor da carne (corte sem osso). Eu acredito que os Frigoríficos estão usando o sistema de oferecer um pequeno bônus e fazer um pequeno desconto quando a diferenciar entre bom, médio e ruim. Eles devem trabalhar com pecuaristas e demonstrar a análise de rendimento e qualidade da carne, relacionado com o valor e pagar os pecuaristas o verdadeiro valor da carcaça.

    Você está certo, a tecnologia está disponível ea prova é na sala de desossa do frigorifico. Depois de estabelecer esse sistema, então, os produtores de animais médios e ruim vai perceber o real benefício da melhoria da qualidade através da melhoria genética e nutrição melhorada quando terminar o seu gado.

    • Miguel da Rocha Cavalcanti disse:

      Obrigado Frank.
      Interessante saber que em outros países, com mais tradição em tipificação, a reclamação pelos descontos existe.
      Abs, Miguel

  3. rubens fernandes de paula disse:

    Para um pagto que viabilize para ambos os lados de forma politicamente correta, podemos partir de um ponto de bonificação e não de premio e desconto, ou seja: partimos de valor base que seria entre aspas o boi ruim e depois acrescentariamos as bonificações de acordo com as tipificações pré-estabelecidas, com isso a apresentação do programa de pagto seria visto com olhos de ganhos e não de penalização. Isso foi feito em pagto de leite em uma cooperativa de leite a qual ja fiz parte e retirou em grande parte das reclamações, e produtores querendo msaber como atingiria tais ganhos ou seja como atingir a qualidade pre-estabelecida.

    • Miguel da Rocha Cavalcanti disse:

      Rubens,obrigado.
      O problema é que o preço base hoje não é o preço do “boi ruim”.
      Outro ponto, é que a demanda por qualidade está realmente aumentando.
      Abs, Miguel

  4. Afonso Baggio disse:

    Se todo pecuarista tivesse como estratégia principal de produzir e comercializar uma carne com mais qualidade, com certeza aumentaríamos a oferta de carne boa e aí sim a tipificação de carcaça teria um futuro promissor.

    • Miguel da Rocha Cavalcanti disse:

      Afonso,
      Acho que aí é uma discussão sobre quem vem antes, ovo ou a galinha.
      Parece que a demanda por tipificação vai crescer justamente por haver pouco boi bom, e muito mais demanda por carne boa. Ou seja, a indústria precisa de mais carne boa do que o mercado (pecuaristas) está oferecendo “de graça”, e por isso vão precisar correr atrás de gado bom para atender melhores mercados.
      E eu vejo que os produtores poderiam ganhar um espaço importante se unissem as estruturas de tipificação das associações de raça.
      Obrigado. Abs, Miguel

  5. Délvio Berriel disse:

    Caro Miguel.
    Realmente tu tens razão. A melhor saida seria a unificação desse trabalho das Associações juntamente as plantas frigoríficas, mas a meu ver na prática fica muito difícil isso acontecer, uma vez que as raças Hereford/Braford e Angus possuem um diferencial e assim devem ser tratados.
    Não podemos esquecer que diferentes devem ser tratados diferentes.

    Grande Abraço.

    • Miguel da Rocha Cavalcanti disse:

      Olá Délvio, bom dia.
      Não acredito que precise (ou deva) tornar tudo igual. Mas unificar as equipes de certificadores. A mesma pessoa certifica uma carcaça mais leve ou mais pesada, mais gorda ou mais magra. Esse é o ponto.
      Obrigado. Abs, Miguel

  6. Celina Palhari disse:

    Olá Miguel,
    Sou médica veterinária, apaixonada por pecuária e estou cursando mestrado em produção de carne. E meu projeto será sobre a raça Rubia Gallega, do Projeto Pão de Açúcar. Um projeto que adimiro por incentivar a produção de carne de qualidade, pagando bem por isso.
    Moro em Nova Canaã do Norte – MT e soube que estará aqui na semana que vem para um dia de campo. Sou fã do seu trabalho e espero que eu tenha a oportunidade de conhecê-lo.
    Abraço,
    Celina.

    • Miguel da Rocha Cavalcanti disse:

      Olá Celina, boa noite. Estarei em Nova Canaã do Norte nesse sábado. Espero encontrá-la.
      Obrigado pelos elogios :-)
      Abs, Miguel

  7. Marcelo Ribeiro disse:

    Ola Miguel,
    Uma pena nao termos nos encontrado na Australia, espero que tenham aproveitado “o palestrante”.
    O mercado mundial tem passado a pedir mais carne MSA; todos nos sabemos que quem manda no preco e’ o mercado: e aumentando a demanda aumenta o preco.
    Pena que brasileiros ainda pensam que o Brasil e’ imenso e nao precisa exportar. So exporta quando o dolar ta bom, ou quando o mercado interno esta ruim. Nao cria constancia nenhuma com os nossos produtos direto no comprador, e dai caimos na vala comum da “comodite”.
    Apenas para ilustrar: imagina que voce vai ao Mcdonalds desde crianca e esta acostumado com o gosto do hamburger; dai voce viaja para a Asia e nao come as comidas deles, mas vai ao Mcdonalds e come o mesmo sanduiche que tem o mesmo hamburguer, com o mesmo sabor; da mesma maneira o restaurante do Joao la na Korea, que fornece o mesmo bife; ai vamos pensar que voce, dono do Mcdonalds ou do restaurante do Joao nao vao conseguir comprar a mesma carne porque o “fulono” la no Brasil resolveu matar vacas velhas; mas voce como dono de restaurante nao tem opcao e tem que comprar aquela carne ruim; seus clientes vao simplesmente sumir do seu restaurante! Qualidade tem preco sim!
    Enquanto os produtores nao deixarem de pensar que o frigorifico so’ quer rancar o que eles nao tem para oferecer, o mercado vai continuar na mao dos poucos que comercializam a carne – 95% sao trades e nao o frigorifico.
    Classificacao e padrao de qualidade sao o presente e futuro do nosso setor.
    No mes de julho comecarei a fazer o abate no Brasil-GO, apenas para exportacao. Alem dos paises ja na lista, um pais interessante da Asia, entrara na lista de compra do Brasil e meu parceiro de gado ai, esta comunicado: boi tera a classificacao de carcaca padrao MSA (implantarei o sistema apenas internamente para atender nosso abate) e claro, pagarei 7% a mais na tabela ESALQ para os animais dentro do padrao MSA.
    Esteja convidado para visitar nossa operacao em Goias, estaremos funcionando de portas abertas, sem recepcao e irei provar para brasileiro, que integracao produtor-frigorifico-comprador final funciona muito bem!
    Abraco e parabens pela materia!
    Marcelo Ribeiro

  8. Roberto G.B.Martins disse:

    Sou formado a quase 49 anos, naquela época já se falava em tipificação de carcaça de bovinos, a grande novidade espelhada na tipificação de carcaças suinas. Continuamos na mesma, exemplos isolados.

  9. Alessander Vieira disse:

    Além de consultor, sou pecuarista compramos bezerros recriamos e engordamos a pasto, o gado excedente confinamos na seca, tentamos produzir com o menor custo, nem passa pela nossa cabeça castrar um boi, a pergunta que eu faço é se o consumidor quer um produto mais caro e diferenciado, qual seria o tamanho desse mercado, alguém sabe? Como poderiamos saber? Um produto diferenciado seria para segurar o mercado atual ou para crescer a demanda, para exportar , para competir com outros players, quais as necessidades queremos atender dos diferentes segmentos?

  10. Eduardo Krisztán Pedroso disse:

    Boa noite Miguel,

    Estou de acordo com o seu raciocínio e o complemento do Prof Pedro de Felício (www.beefpoint.com.br/mypoint/pedrodefelicio).

    Aproveito para parabenizá-lo pelo modo competente e didático da abordagem.

    Quanto mais trabalharmos para nivelar o conhecimento sobre o tema e seus impactos comerciais (boi e carne), mais rico será o processo de construção desta agenda positiva.

    Colaboro com três considerações para reflexão:

    1. A meu ver, o maior motivador desta agenda é o fato de a demanda por qualidade, ser hoje, maior do que a oferta. Promover o diálogo na cadeia produtiva é a forma mais inteligente de construir e compartilhar resultados. A tipificação é apenas uma métrica para facilitar este diálogo (Pecuarista – Indústria – Consumidor).

    2. Temos de lutar para que as “Classes de Tipificação” cheguem até o consumidor final. Afinal de contas, é ele quem irá decidir o quanto a mais vale pagar por um produto de melhor qualidade. Preço é consequência do equilíbrio da oferta e demanda.

    3. A necessidade de planejamento deverá entrar na pauta desta agenda. Consumidores mais exigentes e dispostos a pagar mais pelo diferencial de qualidade não toleram ruptura da oferta. Ou seja, é necessário atender o mercado 365 dias por ano. Compreender a complexidade logística, operacional e produtiva desta roda viva de abastecimento é uma lição de casa que, necessariamente, passará pelo aprendizado do trabalho de equipe entre a Indústria e o pecuarista.

    Forte Abraço,

    Eduardo K. Pedroso
    Relações com o Pecuarista – JBS

  11. Renan Aires de Alencar disse:

    Caro Miguel,

    Não acredito que haja um pecuarista que não esteja disposto a produzir qualidade, mas o problema é sempre a oferta e procura, da mesma forma como aconteceu com o boi europa, inevitavelmente acontecerá com a carne com valor agregado, o frigorifico diante da oferta sempre vai querer pagar um valor irrisório.
    Quanto á qualidade, não é a realidade atualmente, haja visto os programas do marfrig, que remuneram bem um animal diferenciado.
    Ainda podemos citar na entressafra, onde muitas vezes devido aos frigoríficos terem seus confinamentos, querem te oferecer uma @ muito abaixo do mercado, simplesmente pelo animal não ser castrado ou proveniente de confinamento.
    O consumidor brasileiro em sua grande maioria ainda é pouco exigente, procura sempre o menor preço, até mesmo por culpa da industria que não consegue separar uma carne boa de uma ruim, é ai que acontece de você comprar 2 carnes da mesma marca e encontrar numa embalagem a vácuo uma picanha dura e outra macia.
    Mas devemos ser otimistas, há espaço para qualidade, o que a indústria precisa fazer primeiramente entender o consumidor para que possa dizer o que o pecuarista precisa produzir, e o mais importante, pagar por aquilo.
    Ainda pergunto se alguém recebeu alguma coisa a mais pela carne que faz parte da linha maturatta do friboi, me parece que escolhem as melhores carcaças, dentre aqueles 10-15% que você citou, mas na hora de pagar é tudo igual.
    Muito diferente do que ocorre no mercado de frango, a indústria da carne vive um eterno cabo de guerra, nessa ótica predatória, fica difícil progredirmos para um sistema único de tipificação, as associações de raças tem feito um belo trabalho, o pecuarista só tem força para barganhar no preço se estiver unido.

    Abraço.

  12. Bernardo Potter disse:

    Olá Miguel,
    Acredito que há mais problemas do que tu enumeraste. Concordo com o Rubens de Paula que deveria haver um preço base e a partir disto bonificação ou descontos, pois o que há hoje é uma junção de variáveis para formação de preço, o qual geralmente fica mais baixo do que o preço base. Mas o problema maior, sob o meu ponto de vista, é que o produtor não confia no frigorífico (com razão) e o frigorífico não se importa com o produtor, quer levar vantagem sempre. Sabemos que há problemas de sonegação de impostos, rendimentos de carcaça duvidosos, prazos absurdos etc, não vamos ser hipócritas, então dessa maneira como vamos estabelecer um sistema de tipificação de carcaças? Não há diferenciação, em larga escala, entre novilho bom e ruim, jovem ou velho, gordo ou magro, ou seja, não há estímulo à produção de bons animais. No Rio Grande do Sul há vários frigoríficos pequenos que pagam bem mais por isso, animais jovens e bem acabados, e pagam com base no peso vivo e à vista. Porque uma grande indústria não pode fazer o mesmo? Se aproximar do produtor, sem querer levar vantagem sempre? Porque não interessa à grande indústria, eles estão preocupados em comprar a Doux, captar dinheiro do BNDES etc.
    Bom, espero um dia poder morder minha língua, mas acho muito improvável que venhamos a ter um sistema de tipificação de carcaças num futuro próximo, pois os problemas são bem mais profundos dos que os discutidos no teu artigo.

    Grande abraço,

  13. Elmo do Val disse:

    Caro Miguel,

    Excelente abordagem!! Estamos ao longo deste ano fazendo alguns contatos com associações para apresentar o Sistema Nutricattle de Classificação de Carcaça.
    Temos demostrado que o produtor pode melhorar sua rentabilidade de duas formas. Uma da porteira para dentro, ou seja, melhorando os seus índices. E da porteira para fora que ao fornecer ao frigorifico com produto padronizado e bem acabado poderá ser melhor remunerado. Os resultados que estamos tendo no campo com o sistema são:

    1º. Dias de confinamento: a apartação tem proporcionado diminuição de 7% no período;
    2º. Consumo de MS: redução média de 2,5% do CMS;
    3º. Rendimento de Carcaça: Aumento de 3,5% em média;
    4º. KgMS/@produzida: 15% de diminuição em média;
    5º. Homogeneização da carcaça abatida: 85% entre Mediano e Uniforme.

    Abs,

  14. André Locateli disse:

    Miguel

    Acima de tudo acredito na união de forças e na transparência da comunicação entre as partes envolvidas, em qualquer negócio ou atividade. A somatória de experiências, “cabeças” e “braços”, na maioria das vezes é salutar e tende a agregar eficiência.
    Mas compartilho com o Prof. Pedro de Felício a dúvida de que a união de esforços das associações que já desenvolvem algum trabalho neste sentido, justifique a não existência de um sistema oficial.
    Penso que, neste momento, o gargalo da questão não é quem conduz ou conduzirá a operação (quem classifica/tipifica/seleciona as carcaças na indústria), mas sim a padronização dos critérios que são ou serão utilizados para tanto.
    Tendo um padrão único de classificação/tipificação, nacional ou até internacional, cada associação ou mercado pode definir qual o tipo de carcaça que melhor atende aos seus objetivos e, a partir daí, quem conduz a operação da seleção das carcaças é “quase um detalhe”. Qualquer pessoa, com um mínimo de instrução, bem treinada, e auditada periodicamente, é capaz de conduzir esta operação.

    Abs.

    André Locateli
    Gerente Executivo
    Nelore do Brasil

  15. Elmo do Val disse:

    Caro Sr. Marcelo Ribeiro,

    Gostaria de lhe enviar um material com informações sobre o Sistema NutriCattle de Classificação de Carcaça. o Sr. poderia me enviar seus contatos.

    Att.

    Elmo

  16. Fabiano Pagliarini Santos disse:

    Miguel eu concordo como consumidor que nosso desejo é uma carne melhor acabada, de animais castrados de preferencia novos.
    Mas eu vejo uma série de barreiras do meu lado pecuarista.
    1 – Os critérios para tipificação devem ser universal, assim como é para as commodities agrícolas, a exemplo o soja onde seu índice máximo de umidade aceito é de 14%, e quando ultrapassa esse valor é aplicado um desconto. No entanto, tanto a indústria como produtor podem fazer uma contraprova.
    Cada frigorífico, melhor cada planta tem sua regra exclusiva de tipificação, como aos olhos do encarregado de classificação. Isso torna difícil aceitar um desconto.
    O que determina o nível de investimento do produtor, em grande parte é o retorno no bolso, isso vale para qualquer investidor em qualquer setor produtivo, e ai voltamos ao rotulado problema de mercado, muitas plantas, muita capacidade nas mãos de poucos, que acabam por fazer o preço.
    Você sitou o caso das associações de criadores de nelore, angus e hereford, vou contar um breve relato, em Cascavel/Pr, criaram uma cooperativa de criadores de angus, devido sua diferenciação, e alugaram uma pequena planta, criaram marca própria e foram para o mercado. Foi um sucesso tiveram seus problemas que era mais de conjuntura administrativa do que mercado.
    Então vejo que o caminho é uma seriedade maior das plantas frigoríficas que muitas vezes tiram mais peso de uma carcaça, além do couro, e também uma aproximação do produtor aos varejistas.

    Att.

    Fabiano Pagliarini Santos.

  17. H F Tavares disse:

    Miguel, minha opinião é que o melhor é deixar o mercado livre, sem engessar. Ao introduzir um terceiro ator no processo, o “xerife da norma”, nem todas as transações que antes eram do mútuo interesse dos dois atores pricipais — abatedor e boiadeiro — serão “legalmente” permitidas. Com menos transações disponíveis, as duas partes ficam mais pobres. Pode desenvolver-se a colusão entre uma das partes (a mais forte) e alguns representantes do xerife. Vimos isso no Sisbov, e não queremos que a farsa se repita.

    • Miguel da Rocha Cavalcanti disse:

      Olá Humberto, obrigado pelo comentário. Sempre é bom ter visões contrárias para melhorarmos o raciocínio e argumentos.
      Você tem alguma sugestão do que poderia ser feito para evitar a “colusão” e ao mesmo tempo criarmos um modelo interessante de tipificação de carcaças?
      Abs, Miguel

  18. H F Tavares disse:

    Miguel, não tenho sugestão, porque, repito, não vejo necessidade do modelo único. Acho que o que estamos assistindo é a resposta do sistema de mercado a uma mudança na estrutura da demanda por carne.

    Neste modelo anárquico, o titular da marca de carne define quem são seus inspetores e a quem se subordinam, e estabelece quais são os critérios de aceitação da matéria-prima boi ou vaca ou novilha. Se o resultado final for bom, o consumidor da carne vai pedir mais, e isso definirá o sucesso, a reorientação ou o fracasso do projeto.

    Existe hoje uma infinidade de marcas pertencentes a abatedores, algumas marcas pertencentes a grupos de criadores e umas poucas marcas pertencentes a entidades de registro genealógico de raças bovinas. Querer unificar critérios de tipificação delas todas pode trazer embaraços a meu ver desnecessários, com prejuízo da criatividade e da liberdade de mudar rapidamente.

    Isso evidentemente não impede que em alguns casos seus titulares façam acordos de uso comum de inspetores, conforme sua sugestão que eu endosso. O treinamento destes inspetores e a definição dos critérios de julgamento será um caso à parte. Temos ouvido reclamações dos frigoríficos sobre o preciosismo dos inspetores em questões relativas a filigranas raciais, e as desclassificações decorrentes têm gerado atritos e reclamações dos fornecedores de matéria-prima. Marcas de propriedade exclusiva dos frigoríficos ou marcas pertencentes a grupos de criadores não padecem deste problema, o que lhes confere uma vantagem comparativa.

    • Miguel da Rocha Cavalcanti disse:

      Olá Humberto. Muito obrigado.
      Eu gostaria que existisse um extrato sobre a qualidade das carcaças junto do romaneio. Só a informação de que prateleira você está, já vai fazer as pessoas perguntarem, pensarem diferente. Uma informação transparente de performance ajudaria muito.
      E concordo com você que é maléfico engessar o sistema.
      Obrigado, abraços, Miguel

  19. Gabriel Arthur Silva Pinto disse:

    Miguel,

    Gostei muito do texto que aborda muito bem o tema…
    Gostaria apenas de colocar meu ponto de vista em pauta englobando todo o assunto.

    Frigoríficos de exportação necessitam de tipificação de carcaças pois precisam
    dizer aos compradores, o que é fornecido. Pois exigência é só da parte do comprador
    e se não fosse o mercado consumidor, frigorífico não iria fazer tipificação.

    Por outro lado em inspeções estaduais, o cenário é bem diferente e são estes, os grandes produtores de carne pra mercado interno e acredito que muitas destas indústrias não têm tanta responsabilidade pelo produto colocado no mercado, nem no ponto de vista sanitário e muito menos num ponto de vista de tipificação e classificação.

    Acho que assim como a tipificação de carcaças assim como melhorias no aspecto sanitário seriam excelentes para os consumidores internos.

    Então no caso acho que uma das respostas para sua pergunta seria uma maior responsabilidade pelo produto que as empresas colocam no mercado e não sei como fazer isso mas acho que como você comentou: o pecuarista conhecer a indústria, a indústria conhecer a fazenda e o consumidor final, seria um intercâmbio muito bom dando um passo para que o mercado interno esteja melhor servido de carne no ponto de vista sanitário ou mesmo no ponto de vista de qualidade envolvendo a tipificação.

    grato, Gabriel

  20. George Adriano dos Santos Silva disse:

    Miguel. Boa noite.
    O engessamento é uma via de mão dupla.
    Se houver um engessamento justo que cubra os custos, tudo bem. Se não houver, vai ser um desastre.
    A tipificação da carcaça, assim como a do couro, é uma saída para incentivar o produtor a produzir mais e melhor, com lucratividade e produtividade.
    Temos condições de produzir produtos para os mais diversos nichos de mercados.
    Carne marmorizada, magra, orgânica, etc.
    Temos como base a raça de bovinos mais resistente para nosso clima. O nelore.
    É preciso que a instituição maior da classe, a CNA, deixa de fazer política, tenha consciência e mais compromisso com suas reais atribuições e volte suas atenções para um programa de fomento e extensão mais eficiente e efetivo para o produtor. Em especial, para o médio, pequeno e micro produtores, que são a maioria, com produção e produtividade pequenas.