Estratégias de manejo nutricionais para novilhas de reposição

Por Bruno I. Cappellozza1, Rodrigo S. Marques2 e Reinaldo F. Cooke3

1 Zootecnista e mestre pela Oregon State University. Atualmente realiza o programa de doutoramento em Animal Sciences na Oregon State University – Corvallis, OR, EUA.

2 Zootecnista e mestre pela Esalq/USP. Atualmente realiza o programa de doutoramento em Animal Sciences na Oregon State University – Corvallis, OR, EUA.

3Professor e pesquisador na Oregon State University – Eastern Oregon Agricultural Research Center, Burns, OR.

Nos sistemas de produção de cria, qualquer atividade de manejo pode significativamente afetar a rentabilidade da operação, entre eles: estação de monta (seleção e manejo dos touros, e duração da estação de monta) e parição, desmame e o desenvolvimento de novilhas de reposição. Dentre essas atividades, uma atenção especial deve ser dada ao último, dado que novilhas de reposição trazem nova genética e são a base em que o rebanho é construído, sendo responsável pela produtividade do mesmo ao longo prazo.

Para obter uma ótima produtividade, novilhas de reposição (Bos taurus) devem alcançar a puberdade aos 12 meses de idade, emprenharem pela primeira vez aos 15 meses de idade e parirem com 2 anos de idade (Lesmeister et al., 1973). Além disso, novilhas que parem cedo na primeira estação, acabam desmamando um maior número de bezerros, assim como bezerros mais pesados, demonstrando a importância de um adequado sistema de manejo para o desenvolvimento de novilhas de reposição. Em contrapartida, como será demonstrado a seguir, novilhas com influência B. indicus, naturalmente, atingem a puberdade um pouco mais tarde quando comparadas às novilhas B. taurus.

O objetivo desse artigo é focar em aspectos que podem afetar o alcance da puberdade, assim como algumas estratégias que o produtor de corte tem e pode adotar em sua propriedade para melhorar e maximizar a produtividade das novilhas de reposição, e com isso, afetar diretamente a rentabilidade dos sistemas de produção de cria.

Influência da raça, idade e peso ideal à puberdade

Como mencionado anteriormente, raça é considerado o fator mais importante afetando a idade e o peso em que novilhas atingem a maturidade sexual e consequentemente, estão hábeis a entrarem no manejo reprodutivo das operações. No Brasil, rebanhos com sangue B. indicus são predominantes e diversos estudos demonstraram que novilhas com influência B. indicus alcançam a puberdade mais tarde (entre 14 e 18 meses de idade) e mais pesadas (65 % do peso vivo adulto) comparado com rebanhos de novilhas B. taurus (entre 12 e 14 meses de idade e entre 55 e 60 % do peso vivo adulto, respectivamente).

É importante ter em mente que os processos fisiológicos que influenciam o início da puberdade são exatamente os mesmos para ambas as raças, diferenciando apenas o tempo em que esses processos ocorrem, sendo um pouco mais tardios em animais B. indicus. Outra característica importante sobre o alcance da puberdade e o desempenho reprodutivo na estação de monta foi demonstrado por Byerley et al. (1987). Esses autores reportaram que novilhas submetidas à monta natural no primeiro (púbere) cio tiveram uma menor taxa de prenhez quando comparadas às novilhas submetidas no terceiro cio (57 versus 78 %, respectivamente). Entretanto, diversos dados na literatura têm demonstrado que se as novilhas forem submetidas à um protocolo para induzir a ovulação, os hormônios utilizados neste, são capazes de estimular o processo de puberdade (Madgwick et al., 2005; Rodrigues et al., 2013).

Idade à puberdade também é afetada por diversos fatores ambientais, sendo o principal deles o manejo nutricional. Restrição alimentar resulta em um menor número de novilhas alcançando a puberdade na idade esperada, assim como em uma menor taxa de prenhez na primeira estação de monta. Seguindo o mesmo raciocínio, fornecendo alimentos em excesso deve ser evitado principalmente pelo aumento dos custos associado com a compra dos alimentos e também pela excessiva deposição de gordura no corpo dos animais. Esse excesso de gordura depositado é reconhecido por ter efeitos deletérios na expressão do cio, facilidade de parição, taxa de concepção e na produção de leite dessas fêmeas de corte.

O conceito do “peso vivo alvo” envolve o alcance de um status nutricional que permita o crescimento das novilhas em uma taxa que elas se tornem púberes a tempo da estação de monta. Em vacas adultas, o status nutricional é frequentemente avaliado pelo escore de condição corporal (ECC; escala de 1 a 9, onde 1 = excessivamente magra e 9 = obesa). Em contrapartida, para novilhas de reposição, a avaliação do ECC pode não ser o melhor indicador do status nutricional porque, em situações normais de manejo e alimentação, esses animais estão com uma adequado ECC (= 5) e não estão depositando gordura em excesso. Em casos de alimentação em excesso, frequentemente pode ser observado novilhas com um elevado ECC (> 6).

Por isso, pesagem e o cálculo do ganho diário de peso (GDP) são os melhores indicadores das taxas de crescimento e o status nutricional no rebanho de novilhas de reposição. Outro importante aspecto que devemos ter em mente é a de que o manejo nutricional de uma novilha de reposição é diferente de vacas, indicando que é extremamente importante manter essas categorias animais separadas.

Estratégias para acelerar o desenvolvimento das novilhas de reposição

Como mencionado anteriormente, nutrição é o fator mais importante afetando a idade e o peso em que as novilhas atingem a puberdade. Nutrição, em especial a ingestão de energia, é a consideração primária associada com nutrição e o desempenho reprodutivo do rebanho de bovinos de corte (Mass, 1987). Ingestão de energia está positivamente associada com hormônios e metabólitos (glicose, insulina, progesterona e IGF-I) que afetam o alcance da puberdade em novilhas de corte (Cooke et al., 2007).

É inevitável que em algum (ou todo) período do sistema de produção de cria, os animais vão estar consumindo forragens com baixo teor nutricional de PB e energia, fazendo necessário o uso de uma suplementação estratégica. A seguir queremos demonstrar algumas alternativas que foram estudadas pelo nosso e outros grupos de pesquisa, a fim de abrir o leque de oportunidades que o produtor pode ter no seu plano de operação.

Frequência de suplementação: o conceito de frequência de suplementação foi anteriormente apresentado em outro artigo do nosso grupo de pesquisa. Brevemente, essa alternativa consiste em diminuir a frequência com que os suplementos são oferecidos ao rebanho, com o intuito de diminuir os custos operacionais do sistema de corte e a variação de consumo do rebanho (Bohnert et al., 2002). Entretanto, é importante ter em mente que a quantidade de suplemento oferecida durante a semana é a mesma, apenas mudando a frequência com que estes são oferecidos. Como será demonstrado a seguir, é importante considerar o tipo de suplemento a ser oferecido (energético ou protéico) para determinar a viabilidade dessa estratégia.

Recentemente, nosso grupo de pesquisa demonstrou que diminuir a frequência de suplementação de suplementos energéticos pode negativamente afetar o alcance da puberdade (Cooke et al., 2008; Moriel et al., 2012). Mais especificamente, Moriel et al. (2012) ofereceram suplementos energéticos com baixo teor de amido diariamente (D) ou 3 vezes por semana (3D) para novilhas de reposição a partir dos 10 meses de idade consumindo forrageiras tropicais de baixa (8,3 % PB) ou média (12,7 % PB) qualidade.

Esses autores reportaram que apesar de similar GDP, novilhas suplementadas diariamente alcançaram a puberdade mais cedo e tiveram maiores taxas de prenhez quando comparadas aos animais recebendo 3D. Outro aspecto importante a ser mencionado é que independentemente do tipo de forragem, nos dias em que ambos os grupos foram suplementados, novilhas recebendo D tiveram uma menor ingestão de forragem, provavelmente devido ao efeito de substituição, a maior oscilação diária do consumo de forragem, e consequente mudança na função ruminal desses animais.

Composição do suplemento. Muitas vezes o produtor de gado de corte decide uma suplementação estratégica do rebanho com base nos alimentos mais baratos disponíveis para ele. Entretanto, o fator mais importante a ser considerado nessa situação são os requerimentos nutricionais das novilhas de reposição, levando em conta a raça dos animais, assim como a idade esperada com que estes vão atingir a puberdade e subsequentemente entrar na estação de monta.

Em um recente trabalho do nosso grupo de pesquisa (Cappellozza et al., 2014), oferecemos 3 tipos de suplementos para novilhas consumindo uma forragem temperada de baixa qualidade (8,7 % PB): 1) suplementação a base de farelo de soja [100 % da matéria seca (MS); PROT], 2) suplementação energética (68 % milho moído, 22 % farelo de soja e 10 % uréia; base MS; ENER) ou 3) controle sem nenhum tipo de suplementação (CONT). No início do estudo, as novilhas estavam com 7 meses de idade e 200 kg de peso vivo e, os suplementos foram oferecidos diariamente por 160 dias a uma taxa isoenergética e isoprotéica de 0,50 e 0,54 % peso vivo para PROT e ENER, respectivamente.

Esses autores não observaram diferenças entre os tratamentos no consumo de forragem (base MS) e, como esperado, os animais suplementados tiveram uma maior ingestão de nutrientes e consequentemente, um maior GDP e peso vivo ao final do experimento (d 160) quando comparados às novilhas que não foram suplementadas (Tabela 1).

De acordo com esses resultados, novilhas recebendo ENER e PROT tiveram maiores concentrações sanguíneas de compostos associados à ingestão de nutrientes e ao status nutricional dos ruminantes, tais como glicose, insulina, IGF-I, uréia e leptina. Surpreendentemente, ao final do experimento, apesar do maior peso vivo, % peso adulto e status nutricional, puberdade foi acelerada apenas em novilhas recebendo ENER, indicando que outros fatores além de composição corporal e status nutricional afetam a taxa de alcance a puberdade.

Tabela 1. Desempenho de novilhas consumindo uma forragem de baixa qualidade (8,7 % PB) e recebendo ou não (CONT) suplementos protéicos (PROT) ou energéticos (ENER). Adaptado de Cappellozza et al. (2014).

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Aditivos alimentares. Aditivos alimentares, tais como monensina e lasalocida, atuam através da inibição de uma classe específica de bactérias ruminais (gram-positiva), resultando em uma redução na perda de energia no rúmen, inibindo a produção de lactato, metano e dióxido de carbono. Além disso, ocorre uma maior produção de propionato (mais importante composto gluconeogênico no ruminante) e glicose, fazendo com que as novilhas atinjam a puberdade mais cedo (Moseley et al., 1982).

Purvis e Whittier (1996) ofereceram 200 mg/d de monensina para novilhas de corte e observaram que novilhas recebendo monensina foram mais eficientes na utilização do nutriente (eficiência alimentar) quando comparadas aos grupos que não receberam o aditivo. Além disso, suplementação com monensina diminuiu a idade (8 dias) e o peso (10 kg) com que novilhas atingiram a puberdade e mais novilhas estavam púberes antes da estação de monta, afetando, diretamente a taxa de concepção ao primeiro serviço (32,0 versus 20,2 % para novilhas recebendo monensina ou não).

Nosso objetivo foi demonstrar algumas práticas nutricionais que podem ser adotadas pelos produtores de gado de corte, com a finalidade de antecipar a idade na qual as novilhas alcancem a puberdade, afetando assim, a produtividade e rentabilidade do sistema. Como exemplo, novilhas que emprenham e parem mais cedo nas estações de monta e de parição, respectivamente, apresentam uma maior produtividade no rebanho, trazendo mais benefícios para o produtor.

Por Bruno I. Cappellozza1, Rodrigo S. Marques2 e Reinaldo F. Cooke3


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