Efeito do ganho de peso sobre a taxa de gestaçao de receptoras de embrião

Introdução

O Brasil é líder mundial na produção de embriões Bovinos, principalmente pela técnica de FIV (Fecundação in Vitro). Mais de 1/3 de todos os embriões desta biotécnica no mundo são produzidos e transferidos aqui. Embora num volume considerável, cerca de 400.000 embriões em 2009, trata-se de uma biotecnia recente. Iniciou-se em nosso País de forma comercial a pouco mais de 10 anos. É ainda uma tecnologia em constante evolução, que força a busca por novos conhecimentos e alcança cada vez mais novos pecuaristas como consumidores, seja pelo desenvolvimento de procedimentos mais acessíveis, seja pela melhoria da eficiência dos processos.

Infelizmente a técnica de FIV tem evoluído principalmente de forma numérica. Pelo modelo mais comum de aplicação desta biotecnia, uma parcela significativa, senão a maioria dos profissionais que a aplicam se preocupam ou possuem apenas conhecimentos empíricos ou habilidade manual relacionada às questões técnicas específicas, como a aspiração e/ou colheita e transferência dos embriões. Pouco se procura relacionar com a fisiologia reprodutiva das fêmeas e aspectos do manejo dos animais, doadoras e principalmente as receptoras. Para o resultado final, ou seja, o sucesso da técnica, o manejo dos animais é de igual ou maior importância. Dentre os fatores de manejo, sem dúvida, a nutrição é dos mais importantes.

Uma das explicações pela vanguarda brasileira está na disponibilidade de animais de baixo valor comercial para serem usadas como receptoras e na vasta área de pastagens para manutenção das mesmas. Este manejo “extensivo” das receptoras fatalmente leva a uma variação sazonal na disponibilidade das mesmas, acompanhando a oferta de forragens.

Por serem fêmeas de baixo valor comercial e também de categorias menos exigentes, geralmente relegam-se as receptoras a um segundo plano. São poucos os programas que se preocupam com a nutrição desta categoria, e menos ainda aqueles que se programam para contornar a situação de variação da oferta natural de alimentos de acordo com a época do ano, quando estas estão criadas a pasto. Independente da época do ano, o balanço energético positivo está diretamente relacionado a fertilidade das receptoras, o que é mais difícil se conseguir na época das secas sem programação e/ou suplementação adequada.

Nutrição e reprodução são dois aspectos que possuem estreitos laços, em qualquer sistema de produção. Antes de analisar características relativas a estas duas variáveis deve-se lembrar que esta relação podia ser observada inclusive nos ancestrais dos animais domésticos. Pela grande variação na oferta de alimentos nos diferentes períodos do ano, as espécies primitivas desenvolveram mecanismos de adaptação às condições de escassez de alimentos. Algumas espécies conservam estes mecanismos ou parte deles até hoje, porém a domesticação eliminou total ou parcialmente estas estratégias em várias outras. A perda destas características de adaptação à situações desfavoráveis faz com que o indivíduo seja mais sensível às variações nutricionais. A seleção genética para produção intensiva, sem dúvida, fez diminuir ou mesmo desaparecer as características de adaptação, ou de tolerância a condições de menor disponibilidade de alimentos. Nestes animais, a restrição alimentar sempre será mais prejudicial à reprodução.

A nutrição é responsável pela expressão e funcionamento de rotas metabólicas que permitirão ao animal expressar todo seu potencial produtivo e/ou reprodutivo. Estas rotas metabólicas relacionadas à reprodução são complexas e em varias situações não tem o mecanismo totalmente elucidado. Independente da via metabólica envolvida, a regulação que a nutrição exerce sobre a reprodução de machos e fêmeas ocorre principalmente por efeitos no cérebro, mais especificamente no hipotálamo, onde será alterada a secreção de GnRH.

A principal via de controle da reprodução de fêmeas bovinas pela nutrição, ocorre pela alteração na secreção de GnRH. Vários são os metabólicos circulantes indicados como responsáveis por estimular a liberação de GnRH, porém as substancias oxidáveis como glicose, ácidos graxos não esterificados e alguns aminoácidos, parecem ser os principais agentes que ativam as rotas neuro-endócrinas responsáveis pelo controle da reprodução em bovinos.

Material e métodos

Para avaliar a influência do balanço energético, ou seja, variação de peso corporal sobre a taxa de gestação de receptoras montou-se o estudo descrito a seguir.

O objetivo deste trabalho foi avaliar o efeito de ganho de peso nos 30 primeiros dias após a TE na taxa de gestação em novilhas mestiças usadas como receptoras de embriões. O estudo foi realizado na Central Biotran localizada no sudoeste de Minas Gerais, durante um período de 3 meses.

Figura 1. Receptoras após a transferência com identificação característica

Foram transferidos 264 embriões produzidos in vitro num mesmo laboratório com ovócitos colhidos de doadoras e fecundados com sêmen sexado. Os embriões foram inovulados por um mesmo técnico.

O cio das receptoras foi sincronizado por injeção intramuscular 0.530mg de cloprostenol sódico. As receptoras apresentando cio 2 a 4 dias após a sincronização foram posteriormente avaliados por ultrassonografia (Esaote ÁquilaT) para verificar a presença e posição do corpo lúteo. Após a transferência as receptoras foram mantidas em pastagens de Brachiaria brizanta, com água e suplementação mineral ad libitum.

As receptoras foram pesadas nos dias da transferência e 28-35 dias mais tarde quando o diagnóstico da gestação foi realizado por ultrassonografia. De acordo com o ganho de peso diário neste período as fêmeas foram alocadas em 4 grupos:

Tabela 1. Distribuição das receptoras nos grupos de acordo com o ganho de peso no período

O peso médio inicial das receptoras foi 346,5 + 33,4 kg, variando de 315 a 438 kg. Os embriões foram distribuídos de forma aleatória entre os grupos.

Resultados e discussão

Não houve diferença na fase de desenvolvimento, qualidade de embriões ou peso inicial médio entre grupos. O peso médio inicial das receptoras nos quatro grupos não foi diferente.

A taxa de gestação em cada um dos grupos está na Figura 3. Estes resultados suportam a hipótese de que existe uma relação positiva entre ganho de peso e taxa de gestação em receptoras de embrião. Como foram manejadas da mesma forma, pode-se afirmar que aquelas quando conseguem melhores ganhos de peso, ocorre incremento na manutenção da gestação.

Figura 2. Taxa de gestação de receptoras de embrião de acordo com o ganho médio de peso diário logo após a inovulação

O processo ovulatório e a manutenção inicial da gestação são os principais mecanismos influenciados pelo ambiente nutricional. Este conhecimento é antigo e utilizado como ferramenta de manejo denominado “FLUSHING”. Este efeito do aporte de energia sobre a taxa de ovulação e manutenção inicial da gestação ocorre em fêmeas de diferentes espécies.

A taxa de gestação é o elemento chave da relação custo-benefício de qualquer programa comercial em bovinocultura. No caso das biotecnias relacionadas a embriões é ainda mais importante pelo custo dos procedimentos e o valor da genética envolvida. A nutrição inadequada pode afetar e gestação de duas formas: pode causar morte fetal ou reduzir o desenvolvimento do concepto.

A principal fase na qual a nutrição pode afetar o desenvolvimento do concepto é no início da gestação. Este efeito é particularmente delicado até o reconhecimento materno da gestação, que no bovino ocorre entre 17 e 25 dias após a concepção. Após esta fase ocorre na fêmea gestante, alteração na partição dos nutrientes, com maior prioridade para a gestação, desta forma variações nutricionais refletem menos no desenvolvimento do embrião. A troca de informações entre células trofoblásticas e epiteliais do endométrio são o aspecto crítico para a manutenção do corpo lúteo. Metabólitos circulantes no sangue materno, como alguns ácido graxos poliinsaturados, podem alterar, juntamente com as substâncias produzidas pelo embrião, a secreção de PGF2a pelo endométrio.

Desta forma, atenção especial a nutrição das receptoras deve ser dispensada logo após estas receberem o embrião, por ser o período que qualquer alteração nutricional pode afetar de forma mais intensa a taxa de gestação. Avaliações periódicas do ganho de peso das receptoras nesta fase, uma medida simples, podem indicar se resultados ruins de taxa de gestação das receptoras estão relacionados a questões nutricionais. Vale relembrar que a atenção deve ser redobrada na época das secas, quando não se tem suplementação adequada que suporte um ganho de peso compatível.

Conclusões

O ganho de peso é uma variável importante no gerenciamento de receptoras de embriões. É imprescindível um ganho de peso mínimo para que as receptoras possam apresentar fertilidade ótima.

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