Efeito do escore de condição corporal e da espessura de gordura subcutânea na eficiência reprodutiva de vacas Nelore

Nas fêmeas bovinas, existe necessidade de adequada quantidade de reservas de energia (gordura corporal) para suprir o metabolismo basal, o crescimento, a lactação, a manutenção da saúde e, ainda, a função reprodutiva (WRIGHT et al., 1987; EDMONSON et al., 1989). Inúmeros trabalhos científicos mostram que as vacas apresentam elevada demanda energética no período pós-parto. Assim, durante o final da gestação, quantidades suficientes de energia devem ser armazenadas nos tecidos corporais, na tentativa de suprir o balanço energético negativo pós-parto.

A estimativa da condição nutricional das vacas através da avaliação de escores de condição corporal (ECC) ou da gordura subcutânea na garupa (EGPU) é uma prática bem descrita. O status ou balanço nutricional de um animal, avaliado através do ECC ou EGPU, reflete as reservas corporais disponíveis. Assim, como parte do manejo, o registro do ECC ou da EGPU é uma tentativa de avaliar a magnitude do déficit energético do animal.

Portanto pode-se notar a importância da mantença das reservas corporais e da preocupação em desenvolver uma técnica adequada para que se possa mensura-lá.

Neste artigo serão apresentados alguns resultados interessantes de um recente experimento (Ayres, 2008) realizado para determinar o(s) momento(s) de avaliação que possuem maior impacto na eficiência reprodutiva de vacas Nelore (Bos indicus) submetidas à inseminação artificial em tempo fixo (IATF) e repasse com o touro.

Um total de 266 vacas Nelore em terço médio de gestação foi avaliado quanto ao escore de condição corporal (método visual), a espessura da gordura subcutânea (ultra-sonografia) e ao peso vivo (balança). O experimento foi efetuado em um único rebanho criado sob sistema pastoreio, com suplementação mineral e água ad libitum, no estado de Mato Grosso do Sul, Brasil.

Todos os animais foram avaliados quanto ao ECC e a EGPU em cinco momentos distintos:
• M1) na desmama dos bezerros (207,5 ± 0,9 dias antes da IATF);
• M2) próximo aos 245 dias de gestação (variando entre 225 e 270 dias de prenhez);
• M3) no início do programa de sincronização (10 dias antes da IATF);
• M4) no dia do diagnóstico de gestação aos 30 dias após a IATF e
• M5) no dia do diagnóstico de gestação 60 dias após a IATF (Figura 1).

Figura 1. Diagrama esquemático dos momentos de coleta de dados (Adaptado de Ayres, 2008)


A avaliação do escore de condição corporal e as medidas por ultra-sonografia foram obtidas independentemente, no mesmo animal e no mesmo momento, por um único avaliador devidamente treinado.

Ao longo de todo o estudo, o ECC atribuído para cada vaca (em cada momento) foi realizado utilizando-se a técnica visual. Dessa forma, as vacas foram classificadas em escala variando de 1 (magra) a 5 (extremamente gorda), com incrementos de um quarto de ponto (0,25).

Para a obtenção das imagens ultra-sonográficas para mensuração da EGPU, foi utilizado um equipamento de ultra-som da marca Piemedical, modelo Scanner 200 VET, com transdutor de arranjo linear com freqüência de 3,5 MHz e 178 mm de comprimento, sem guia acústica acoplada.

Todos os animais receberam um implante auricular de Norgestomet, previamente utilizado por 9 dias, associado à aplicação de 2,0 mg de Benzoato de estradiol intramuscular (IM) em dia aleatório do ciclo estral (D-10, manhã). Oito dias após (D-2), foi realizada a remoção do implante, juntamente com a administração de 400 UI de eCG e 150 μg de D-Cloprostenol, IM. No dia seguinte (D-1), os animais receberam 1,0 mg de Benzoato de estradiol e foram submetidos à IATF 54 horas após a retirada do implante (D0, tarde). O diagrama esquemático do tratamento hormonal está representado na figura 2.

Figura 2. Representação esquemática do tratamento hormonal (Adaptado de Ayres, 2008)


BE – benzoato se estradiol; IATF – inseminação artificial em tempo fixo; eCG – gonadotrofina coriônica eqüina; US – ultra-sonografia; PGF – prostaglandina; D – dia

Dez dias após a inseminação (D10), foi realizada a introdução de touros nos lotes de vacas, visando a cobertura natural dos animais não gestantes, que retornassem ao estro. O diagnóstico de gestação foi realizado por exame ultra-sonográfico, em média, aos 30 e 60 dias após a IATF.

A eficiência reprodutiva foi avaliada pela taxa de concepção à IATF aos 30 e aos 60 dias pós-parto e pela taxa de prenhez acumulada aos 60 dias após a IATF.

Os animais utilizados no experimento apresentaram idade média de 7,33 ± 0,09 anos (variando de 3 a 9 anos) no momento do início do experimento (desmame), intervalo entre partos de 416,8 ± 3,25 dias (variando de 338 a 716 dias), intervalo entre o desmame e o parto de 165,5 ± 0,9 dias (desmame aos 8 meses após o parto) e dias pós-parto ao inicio da sincronização de 42,0 ± 0,5 dias (variando de 29 a 74 dias).

O ECC variou de 2,00 a 4,50, com média de 3,23 ± 0,42, o EGPU variou de 0,2 a 2,0 cm, com média de 0,69 ± 0,28 cm e o peso vivo variou de 262 a 577 kg, com média de 406,9 ± 1,2 kg.

Os dados gerais relacionados à taxa de concepção à IATF aos 30 e 60 dias de gestação, taxa de prenhez acumulada aos 60 dias após a IATF e taxa de perda gestacional entre 30 e 60 dias de gestação estão apresentados na tabela 1.

Tabela 1. Taxa de concepção à IATF aos 30 e 60 dias de gestação, taxa de prenhez acumulada aos 60 dias após a IATF e taxa de perda de gestação entre 30 e 60 dias após a IATF em vacas Nelore (Bos indicus; Adaptado de Ayres, 2008)


Ainda, os animais foram divididos em diferentes classes, de acordo com o escore de condição corporal em três momentos (Figura 3):
1. No desmame;
2. Próximo ao parto;
3. Na sincronização.

Além disso, foi realizada uma análise para verificação do efeito das classes de escore de condição nos três momentos mencionados (Figura 4) sobre a taxa de prenhez acumulada 60 dias após a IATF.

Figura 3. Representação gráfica da evolução do escore de condição corporal segundo cada classe e o momento de classificação em vacas Nelore (Bos indicus): (A) no desmame; (B) próximo ao parto; (C) na sincronização (Adaptado de Ayres, 2008)




Figura 4. Gráfico de dispersão e reta de regressão do escore de condição corporal e taxa de prenhez acumulada 60 dias após a IATF em vacas Nelore (Bos indicus): (A) escore de condição corporal no desmame; (B) escore de condição corporal próximo ao parto; (C) escore de condição corporal na sincronização (Adaptado de Ayres, 2008)




ECC – escore de condição corporal; Desm – desmame; Sinc – sincronização

Ao se analisar a figura 3B, pôde-se notar que os animais com inferior ECC ao parto foram aqueles que apresentaram menor taxa de prenhez acumulada aos 60 dias após a IATF (56,6 %, Figura 4B). Além disso, estes também foram os animais que apresentaram o menor ECC ao desmame (2,94 ± 0,04 unidades de ECC; P Referências bibliográficas:

AYRES, H. Validação do escore de condição corporal e seu impacto na eficiência reprodutiva de vacas Nelore (Bos indicus) inseminadas em tempo fixo. 2008. 136 f. Dissertação (Mestrado em Medicina Veterinária) – Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008. Disponível em

EDMONSON, A.J.; LEAN, I.J.; WEAVER, L.D.; FARVER, T.; WEBSTER, G. A body condition scoring chart for Holstein dairy cows. Journal of Dairy Science, 72, 68-78, 1989.

WRIGHT, I.A.; RHIND, S.M.; RUSSEL, A.J.F.; WHYTE, T.K.; MCBEAN, A.J.; MCMILLEN, S.R. Effects of body condition, food intake and temporary calf separation on the duration of the post-partum anoestrus period and associated LH, FSH and prolactin concentrations in beef cows. Animal Production, 45, 395-402, 1987.


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