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Descontrole da Covid-19 preocupa frigoríficos em meio à alta no preço das carnes

Em meio a um mercado interno enfraquecido e uma arroba bovina a preço recorde, o que dificulta o repasse do aumento de custos, a indústria frigorífica vê com preocupação o aumento expressivo dos casos de Covid-19 no país. Enquanto as medidas de segurança adotadas desde o ano passado pelo setor conferem um relativo controle da disseminação do vírus dentro das unidades de abate e beneficiamento, fora delas, o pior momento da pandemia no Brasil faz aumentar o afastamento de funcionários para evitar contaminações na linha de produção ao mesmo tempo que atinge em cheio a demanda por carnes.

“Além da indústria estar sofrendo um momento desfavorável com descasamento entre o preço do boi e da carne, ela está trabalhando com aumento de custo em função do controle da pandemia”, desabafa o presidente da Associação Brasileira de Frigoríficos, Paulo Mustefaga.

Segundo ele, a pandemia já levou a um aumento de 15% a 20% nos custos do setor devido a implementação de protocolos de segurança exigidos pelo governo federal e pelos acordos firmados individualmente pelas empresas com o Ministério Público do Trabalho. “Além dos equipamentos de proteção necessários, o distanciamento reduz a produtividade da mão de obra. Então, esse é um ponto importante para gente, pois o momento que a gente vive é ruim por dois sentidos, pela situação de mercado e pelo aumento de custos em função da pandemia”, aponta Mustefaga.

Além dos EPI’s e do distanciamento, o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, lembra que o setor também precisou implantar a busca ativa de casos suspeitos, com o monitoramento da saúde dos trabalhadores. Segundo ele, “as medidas de distanciamento já foram solidamente adotadas nos frigoríficos”, sendo um “ponto consolidado sobre o tema”.

“Infelizmente, a pandemia segue prosperando em todas as comunidades de todas as cidades do país – e é no convívio social sem distanciamento ou precauções – como as máscaras – que se alicerçou o recrudescimento deste quadro”, destaca Santin ao frisar que “todos os controles seguem ativos e reforçados”.

Assim como o setor de carne bovina, a indústria de aves e suínos, representada pela ABPA, foi foco de intensa fiscalização no ano passado, quando concentrou casos de Covid-19 no Sul do país. Em algumas unidades, o número de pessoas infectadas chegou a representar 2% do total de casos confirmados, como lembra o procurador do trabalho em Santa Catarina Sandro Sarda, gerente do projeto nacional de frigoríficos do Ministério Público do Trabalho.

“No início da pandemia, havia focos bem localizados em frigoríficos que eram polos de transmissão. Agora, a pandemia está tão disseminada, que o conceito de transmissão comunitária nunca foi tão aplicável”, lamenta.

Entre os trabalhadores, a percepção é de aumento dos afastamentos por causa do novo coronavírus, medida prevista nos protocolos de prevenção e controle da doença dentro dos frigoríficos. “Uma empresa que leva a sério essa questão, se tem um setor em que um trabalhador é contaminado, ela para aquela sessão e testa todo mundo”, observa o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias da Alimentação e Afins (CNTA), Artur Bueno Camargo.

Segundo ele, a indústria frigorífica avançou na adoção de medidas de proteção à Covid-19 desde o ano passado, mas a principal reivindicação dos trabalhadores ficou pelo caminho: a distribuição das equipes de abate em dois turnos, reduzindo pela metade o número de operadores por turno. “Nós não conseguimos avançar nesse sentido ainda e essa pendência ainda é bastante favorável à contaminação e proliferação do vírus”, explica o líder sindical.

Segundo dados do Sistema de Informação de Saúde do Trabalhador de Santa Catarina, maior produtor de carne suína e o segundo maior em frango no país – setores mais atingidos pela pandemia no início do ano passado, devido à falta de distanciamento entre os funcionários – 21.154 trabalhadores de frigoríficos já haviam sido afastados por suspeita de Covid-19 até esta quarta-feira (31/03), aumento de 12,2% ante o número registrado no início do mês (03/03).

O número de afastamentos em que houve teste e confirmação de Covid-19 somava 11.457 casos, avanço de 7,4% na mesma comparação. Mas, ainda assim, abaixo dos 11,4% de aumento no número de casos confirmados registrados pelo Estado no mesmo período.

Questionados por Globo Rural sobre dados nacionais de contaminações no setor, os Ministérios da Saúde, Agricultura e Economia não retornaram. Em nota, a pasta da Agricultura informou apenas que “no início da pandemia, foram adotados, no Brasil e no mundo, protocolos nesse setor, adicionando maior segurança à produção de alimentos” e que “o resultado foi a manutenção do fornecimento para o mercado interno e externo de alimentos seguros”.

O presidente da Abrafrigo, Paulo Mustefaga, contudo, reconhece que o setor não é uma ilha e que o descontrole da pandemia no país oferece riscos.  “Houve um agravamento da situação do país, essa segunda onda com novas variantes traz preocupações a toda sociedade brasileira em geral, incluindo todos os setores econômicos”, aponta.

Com níveis de ociosidade que passam de 50% no Mato Grosso, principal Estado produtor de carne bovina do país, Mustefaga afirma que “em função da gravidade do momento que vive o país” a indústria não descarta o risco de eventuais paralisações para conter o novo coronavírus, mas assegura que não há perspectiva de que tais medidas sejam adotadas por razões sanitárias por enquanto. “A suspensão pode até ocorrer, mas está muito mais relacionado a questões de mercado e dificuldades momentâneas”, diz ele.

Fonte: Revista Globo Rural.

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