Degradação de pastagens: práticas de recuperação

Por Luís Gustavo Barioni 1 e Rosane Cláudia Rodrigues2

Introdução

Grande parte dos sistemas produção de gado de corte e leite no Brasil são extrativistas com predominância de uso de pastagens nativas, implantação de espécies não adaptadas às condições edafoclimáticas de cada região e manejo inadequado. Essas pastagens apresentam baixa produtividade e estão sujeitas ao processo de degradação, comprometendo o desempenho da atividade pecuária.

A degradação de pastagens representa um dos maiores entraves para o aumento da produtividade da pecuária, por afetar a fonte de alimento mais barato e ubíqua para os bovinos, que é o pasto. Kichel et al. (1999) estimam que, considerando-se apenas a engorda de bovinos, a produtividade de carne de uma pastagem degradada está em torno de duas arrobas ha/ano, enquanto que numa pastagem em bom estado podem-se atingir 16 arrobas ha/ano.

Dentro desse contexto, fica evidente a necessidade de se estabelecer programas de recuperação dessas pastagens. Entre as várias técnicas de recuperação de pastagens estão: calagem e adubação, tratamentos físico-mecânicos e mais recentemente o uso da integração agricultura x pecuária. A decisão pela adoção de qualquer uma dessas técnicas vai depender do estágio e origem da degradação, tipo de solo, objetivos do pecuarista e, principalmente, dos custos dessa recuperação.

Conceitos básicos

A degradação de pastagens é um processo evolutivo de perda de vigor, de produtividade, de capacidade de recuperação natural para sustentar os níveis de produção e qualidade exigidos pelos animais, assim como de superar os efeitos nocivos de pragas, doenças e invasoras, culminando com a degradação avançada dos recursos naturais, em razão de manejos inadequados (Macedo, 1995).

Para Merelles (1993), as pastagens são consideradas em degradação quando a produção de forragem é insuficiente para manter determinado número de animais no pasto por um determinado período.

A recuperação tem por finalidade oferecer à pastagem as condições originais do solo quando ela foi estabelecida, ou seja, fornecer nutrientes necessários, de acordo com as análises químicas e as condições físicas do solo, para que o pasto possa expressar seu potencial produtivo. A recuperação não implica a substituição da espécie estabelecida por outra espécie, embora isso possa ocorrer.

Causas da degradação

Macedo (1999) aponta como sendo as causas mais importantes da degradação, as seguintes:
* Espécie inadequada ao local;
* Má formação inicial causada pela ausência ou mau uso de:
-práticas de conservação do solo;
-preparo do solo;
-correção da acidez e/ou adubação;
-sistemas e métodos de plantio;
-manejo animal na fase de formação
* Manejo e práticas culturais:
-uso de fogo como rotina;
-métodos, épocas e excesso de roçagens;
-ausência ou uso inadequado de adubação de manutenção;
* Ocorrência de pragas, doenças e plantas invasoras;
* Manejo animal:
-excesso de lotação;
-sistemas inapropriados de pastejo;
-ausência ou aplicação incorreta de práticas de conservação do solo após superpastejo .

Meirelles (1999) aponta duas outras causas da degradação de pastagens descritas a seguir:
* Extensas áreas de pastagem, sem subdivisões, permitindo o livre acesso dos animais a toda área, favorece a seletividade, fazendo com que os animais escolham plantas ou partes de plantas mais palatáveis. Nesse sistema de pastejo não se consegue uma utilização uniforme da forragem disponível, uma vez que algumas plantas são super utilizadas.
* A localização inadequada de cercas, cochos e bebedouros força os animais a seguir continuamente pelos mesmos caminhos concentrando-se sempre em determinados lugares, causando pisoteio excessivo da vegetação e do solo.

Critérios de avaliação de pastagens degradadas

Muitas vezes, a degradação não é percebida pelo produtor. Diante disso, Soares Filho (1993) aponta as seguintes características de uma pastagem em processo de degradação:
1) a produção de forragem diminui, com a redução da qualidade e quantidade, mesmo nas épocas favoráveis ao seu crescimento;
2) há uma diminuição na área coberta do solo pela pastagem e existe pequeno número de plantas novas, provenientes da ressemeadura natural;
3) há aparecimento de espécies invasoras de folhas largas, competindo por nutrientes, e de processos erosivos pela ação das chuvas, e
4) existe grande proporção de espécies invasoras, ocorre a colonização da pastagem por gramíneas nativas e os processos erosivos acelerados ficam evidentes.

Estratégias para recuperação de pastagens

Quando a pastagem começa a demonstrar sinais de degradação, deve-se tomar algumas medidas para recuperar a produtividade original. A condição essencial é que ainda haja na pastagem uma população adequada de plantas forrageiras, isto é, que o número de plantas ou touceiras e sua distribuição sejam tais que possibilitem a cobertura posterior da área. Caso contrário, haverá necessidade de se reformar a pastagem, quando então os procedimentos são aproximadamente os mesmos adotados na formação de novas pastagens (Carvalho, 1993).

As várias técnicas para recuperar pastagens degradadas visam aumentar a produção de massa verde por área e melhorar a qualidade da forrageira. Nesse sentido, vários estudos foram desenvolvidos para devolver às pastagens suas capacidades originais, seja através de calagem, adubação, uso de máquinas descompactadoras do solo ou através da integração agricultura x pecuária.

Calagem: Segundo Andrade (1991) entende-se por calagem o ato de adicionar ao solo o calcário na quantidade preestabelecida, em função do tipo de solo, da planta a ser cultivada e do nível de produtividade desejado.

É comum nas regiões tropicais e subtropicais a ocorrência de solos ácidos, os quais geralmente apresentam baixos teores de cálcio e magnésio trocáveis, teores elevados de alumínio trocável e de manganês disponível e baixa percentagem de saturação por bases. A prática da calagem, além de fornecer cálcio e magnésio, eleva o pH do solo e, como conseqüência, aumenta a disponibilidade de fósforo e molibdênio e reduz a de Al, de Mn e de Fe, os quais em excesso tornam-se tóxicos para as plantas e para o rizóbio nas leguminosas. Além disso, a calagem exerce papel fundamental sobre processos de decomposição e mineralização da matéria orgânica, essenciais para a elevação da capacidade de troca catiônica (CTC) e para a melhoria das propriedades físicas e químicas do solo. Por outro lado, o excesso de calagem induz à imobilização de certos micronutrientes (Zn, B e Cu) podendo causar suas deficiências (Werner, 1986;citado por Soares Filho, 1999).

O critério mais utilizado para a correção do solo é aquele baseado na elevação da saturação por bases. Desse modo, as pastagens são classificados em três grupos, em ordem decrescente de exigência em fertilidade do solo, como mostra a Tabela 1.

Tabela 1. Classificação das gramíneas de acordo com a exigência em fertilidade e a saturação por bases adequada para a formação e manutenção de pastagens


Nas pastagens já estabelecidas, onde não há possibilidade de incorporação do corretivo no solo, a aplicação deve ser feita a lanço na superfície. Nessas circunstâncias, o calcário deverá ser aplicado, preferencialmente, no final do período das águas, época do ano em que ainda existe umidade disponível no solo. O calcário a ser aplicado deverá ser de granulometria mais fina possível, pois esta característica confere alta reatividade (P.R.N.T.) do corretivo, para que seu efeito possa ser rápido e efetivo.

A aplicação do calcário no final do período das águas (abril/maio) se deve ao fato de que, quando o corretivo é aplicado em superfície, o pH nessa camada do solo torna-se bastante elevado, sendo desfavorável o uso de certos fertilizantes, principalmente, os nitrogenados, os quais são normalmente aplicados durante a época de maior disponibilidade dos fatores de crescimento para as plantas, como água, temperatura e luminosidade. O pH elevado na superfície do solo faz com que boa parte do nitrogênio aplicado seja perdido por volatilização, reduzindo drasticamente a eficiência e a economicidade da adubação nitrogenada. Assim sendo, aplicando-se o corretivo no final das águas, época em que normalmente não se adubam as pastagens, devido à ausência de um ou mais fatores de crescimento, haverá tempo suficiente para que o mesmo complete sua reação com o solo, tornando possível a aplicação de fertilizantes no início da estação das águas subsequentes (outubro/novembro), sem que ocorram perdas elevadas.

Adubação:De acordo com Carvalho (1993), para orientar a aplicação de fertilizantes é importante que se faça amostragem do solo na área da pastagem a ser recuperada. A análise química do solo vai ajudar na decisão sobre quais fertilizantes devem ser aplicados e em que quantidades. A amostragem deve ser feita durante o período seco, de tal forma que os resultados da análise química estejam disponíveis em tempo hábil para permitir a aquisição dos fertilizantes e aplicação dos mesmos no início do período de crescimento da pastagem.

1) Nitrogênio: Em pastagens em início de degradação, a deficiência de nitrogênio pode ser corrigida, pelo menos em parte, com aplicação de pequenas doses de fertilizantes nitrogenados. Nessa fase a adubação nitrogenada, funciona apenas como uma das medidas que contribuem para devolver à pastagem a sua produtividade original.

Soares Filho et al. (1993), num trabalho de recuperação de pastagens de Brachiaria decumbens, observou que a adubação com macro e micronutrientes incluindo o nitrogênio, teve efeito benéfico na recuperação da pastagem, aumentando as produções de matéria seca da parte aérea e das raízes dessa forrageira.

2) Fósforo: Dos elementos essenciais ao crescimento das forrageiras e que normalmente são deficientes nos solos de pastagens, o fósforo é um dos mais importantes. Embora o efeito de fertilizantes fosfatados seja mais acentuado por ocasião da formação da pastagem, diversos estudos têm demonstrado como a aplicação de fósforo em pastagens já formadas contribui para aumentar a produção animal.

A deficiência de fósforo no solo, além de comprometer o valor nutritivo do pasto, provoca efeito sobre o estabelecimento e o desenvolvimento das forrageiras, comprometendo a capacidade de suporte das pastagens. Como é um elemento pouco móvel no solo, e é absorvido principalmente por difusão, é fundamental que seja colocado próximo às raízes e aplicado quando houver disponibilidade de umidade no solo (Soares Filho, 1999).

3) Potássio: O potássio é de grande importância para a manutenção e recuperação da produtividade das pastagens. É ativador de várias enzimas e está relacionado com a distribuição de água e com o transporte de carboidratos na planta. É um elemento bastante móvel no solo, sendo também absorvido, principalmente por difusão. Por essa razão, é fundamental que seja aplicado quando houver disponibilidade de umidade no solo, ou seja, durante o período das águas. Entretanto, é facilmente lixiviado no perfil do solo, fazendo com que suas aplicações devam ser feitas de acordo com um plano estratégico de adubação. Em solos com a CTC muito baixa, a quantidade a ser aplicada não deve ser maior do que a que o solo pode comportar, fazendo-se necessário o parcelamento da adubação, em duas ou mais vezes.

4) Enxofre: Embora esse elemento não tem sido determinado nas rotinas de análise de solos, tem uma importância relevante para as forrageiras, pois participa na síntese de amonoácidos e, todas as proteínas vegetais o apresentam em sua composição. A deficiência desse elemento é maior em solos degradados, o que compromete ainda mais o desenvolvimento e a qualidade das forrageiras.

5) Micronutrientes: Os micronutrientes são importantes, principalmente quando as exigência em macronutrientes são supridas adequadamente.

Tratamentos físico-mecânicos

Se referem às atividades de descompactação e melhoramento das condições físicas do solo. O preparo mecânico facilitará a infiltração da água e melhorará a aeração, facilitando o bom desenvolvimento e a penetração das raízes das forrageiras. Além disso, propiciará a mineralização da matéria orgânica existente, liberando alguns nutrientes ao solo. Segundo Soares Filho (1999), quando o fator é compactação do solo, alguns pecuaristas utilizam grade do tipo ´Rome”, como única estratégia para recuperação. Contudo, os resultados não são satisfatórios, porque não é feita a associação dessa prática com a correção e adubação do solo. Dessa forma, a produtividade da pastagem será boa no primeiro ano, mas no ano seguinte começará a declinar. Os dados encontrados na literatura com a utilização de implementos agrícolas como o subsolador e grade são contraditórios. Alguns apresentam resultados negativos e outros melhoraram as condições do solo. A grade revolve a parte superficial do solo, até uns 10 cm, sem voltear à terra, cortando as raízes e distribuindo-as. Com umidade suficiente no solo, há rebrota, propiciando um bom crescimento das plantas devido à maior área de exploração radicular e às melhores condições do solo. Deve ser ressaltado que os tratamentos físico-mecânicos devem ser iniciados na época das águas.

Integração lavoura / pecuária

Tem crescido a cada ano, nos cerrados do Brasil, o uso de uma alternativa bastante eficiente de recuperação e ou renovação indireta de pastagens e de manutenção da produtividade, que é o sistema de integração lavoura / pecuária. Este sistema permite o uso mais racional de insumos, máquinas e mão-de-obra na propriedade, além de diversificar a produção e o fluxo de caixa dos produtores (Macedo, 1999).

Kichel et al. (1999) cita dois sistemas de recuperação ou renovação de pastagens através da integração lavoura / pecuária:

a) Em consórcio com cultura anuais, tais como arroz, milho, sorgo, etc. Neste caso, é feito o plantio conjunto das sementes da cultura anual e sementes da pastagem, ou aproveita-se o potencial de sementes da forrageira existentes no solo. Após a colheita da cultura anual tem-se o pasto renovado ou recuperado. Sempre que se realizar o plantio de culturas anuais em áreas de pastagem degradada, deve-se iniciar o preparo do solo cerca de 120 dias antes do plantio da cultura. A aplicação de calcário e início de preparo do solo devem ser feitos entre junho e julho. A conservação de solo é feita em agosto/setembro, com correção fosfatada em setembro/outubro.

b) O plantio de culturas anuais solteiras: faz-se o plantio da cultura anual, soja, milho, arroz, etc., por um ou mais anos, retornando-se à pastagem, podendo ser a mesma espécie ou outra espécie forrageira mais adaptada e produtiva.

As principais vantagens de se fazer a recuperação com o uso de culturas anuais, além do restabelecimento da biomassa forrageira e aumento da capacidade de lotação da pastagem, são listadas a seguir:

a) Recuperação mais eficiente da fertilidade do solo;
b) Facilidade na aplicação de corretivos e fertilizantes;
c) Melhoria nas propriedades físicas, químicas e biológicas;
d) Controle de pragas, doenças e invasoras;
e) Aproveitamento do adubo residual e,
f) Aumento da produtividade do negócio agropecuário, tornando-o sustentável em termos econômicos e agroecológicos.

Comentário dos autores: De acordo com os resultados dos trabalhos revisados, conclui-se que a degradação de pastagens é o resultado de práticas de manejo inadequadas. Ao invés de usar práticas adquadas, os produtores ficam esperando aparecer uma forrageira milagrosa, que seja produtiva e não exigente tganto em fertilidade do solo e como em manejo. Além disso, os resultados mostram que eficiência das técnicas de recuperação irá depender das causas da degradação e da situação da pastagem. Finalizando, é necessário entender, que depois de recuperadas, as pastagens só permanecerão produtivas se manejadas corretamente, respeitando a interação solo-planta-animal.

Referências bibliográficas

ANDRADE, I. Calagem para pastagens. Informe Agropecuário, v.15, n. 17, p.34-37,1991.
CARVALHO, M. M. Recuperação de pastagens degradadas. Coronel Pacheco: EMBRAPA-CNPGL, 1993. 51p. ( EMBRAPA-CNPGL. DOCUMENTOS, 55).
KICHEL, A . N., MIRANDA, C. H. B., ZIMMER, A .H. Degradação de pastagens e produção de bovinos de corte com a integração agricultura x pecuária. In: I SIMPÓSIO DE GADO DE CORTE, Viçosa, 1999. Anais…Viçosa: UFV, 1999. p.201-234.
MACEDO, C. M.M. Degradação de pastagens: conceitos e métodos de recuperação. In: SIMPÓSIO SOBRE SUSTENTABILIDADE DA PECUÁRIA DE LEITE NO BRASIL, Goiânia, 1999. Anais… Goiânia: EMBRAPA-CNPGL, 1999. p.137-150.
SOARES FILHO, C.V., MONTEIRO, F. A., CORSI, M. Recuperação de pastagens degradadas de Brachiaria decumbens. 1. Efeito de diferentes tratamentos de fertilização e manejo. Pasturas Tropicales, Cali, v.13, n.2, p.42-45, 1991.
SOARES FILHO, C. V. Tratamentos físico-mecânicos, correção e adubação para recuperação de pastagens. In: ENCONTRO SOBRE RECUPERAÇÃO DE PASTAGENS, Nova Odessa, 1993. Anais… Nova Odessa: IZ, 1993. p.78-118.
SOARES FILHO, C. V. Tratamentos físico-mecânicos, correção e adubação para recuperação de pastagens. Recuperação de pastagens 1999. (Ed.) Paulino, V. T. & FERREIRA, L. G. Nova Odessa: IZ, 1999. p. 37-60.

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1 Doutorando, Ciência Animal e Pastagens, ESALQ/USP
2 Estagiária, Dep. Produção Animal, ESALQ/USP


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