Cruzamento industrial para produção de carne

As raças bovinas especializadas para corte podem se enquadrar dentro de um dos tipos biológicos apresentados e discutidos no radar anterior: pequeno, médio ou grande porte. A combinação ou o acasalamento de raças de diferentes tipos biológicos, que têm por objetivo a maior eficiência na produção de carne, deve ser entendido como cruzamento industrial.

O cruzamento industrial permite: a) aproveitar os efeitos da heterose; b) utilizar as diferenças genéticas existentes entre raças puras; c) aproveitar os efeitos favoráveis da combinação de características nos animais cruzados, resultantes na seqüência em que os animais são usados nos cruzamentos (complementaridade); d) dar flexibilidade aos sistemas de produção, como no manejo e comercialização.

O tipo de estratégia de cruzamento a ser adotado vai depender, principalmente, dos “objetivos” do sistema de produção, além, é claro, do tipo de produto requerido pelo mercado.

Os cruzamentos podem ser do tipo:

1) Rotacionado: uso de apenas duas raças, segurando as fêmeas para reprodução, sendo estas acasaladas com animais da raça da mãe ou do pai (retrocruzamento);

2) Terminal: cruzamento entre duas raças, onde todos os produtos são destinados ao abate;

3) Rotacionado-terminal: usa-se duas raças para produzir o F1, e cruza-se as fêmeas F1 com uma terceira raça, onde os produtos, machos e fêmeas, são destinados ao abate.

Podemos citar também o cruzamento para formação de uma nova raça, também conhecido como “boi composto”, pelo qual diferentes raças com características desejáveis por determinado “nicho de mercado” (adaptabilidade, precocidade, peso adulto, resistência a parasitas, etc.) são utilizadas. Porém, vamos nos limitar a apresentar algumas diferenças entre os tipos de cruzamentos usados diretamente para a produção de carne.

Em revisão feita pelo Prof. Pedro Franklin Barbosa (EMBRAPA-São Carlos) são sumarizados resultados de trabalhos de cruzamento industrial no país, onde avaliou-se os índices de produtividade de carne (ganho de peso, peso de carcaça, rendimento de carcaça, espessura de gordura). Os resultados que seguem abaixo são expressos em relação percentual aos valores obtidos pelo Zebu, considerado como 100%.

Tabela 1: Desempenho de animais de cruzamento industrial em relação ao Zebu

O cruzamento de raças européias (Britânica e Continental), com zebuínos, aumentou o ganho de peso e o peso de carcaça em relação aos animais zebuínos. Os resultados mostram claramente que o cruzamento com raças européias (taurinas) melhora de maneira expressiva os índices produtivos em relação ao zebu. Deve-se destacar os cruzamentos com três raças, que apresentaram ganho de peso e peso de carcaça, 20,5 e 29,5 unidades percentuais superiores ao zebu, enquanto que os os cruzamentos entre raças zebuínas apresentaram acréscimo pouco expressivo. Os resultados indicam que os melhores desempenhos são observados quanto mais distintas forem as raças, ou seja, quando a heterose for maior.

Tabela 2: Média de peso de carcaça, idade, espessura de gordura e taxa de deposição/@ de bovinos de diferentes grupos genéticos terminados em confinamentos.

Na tabela 2 foram agrupadas as médias de peso em arroba, idade em meses e espessura de gordura. Os F1 de sistemas de cruzamento com raças continentais bem como os retrocruzados, apresentaram maiores taxas de ganho e peso de carcaça (Tabela 1 e 2), enquanto que a espessura de gordura na 12ª costela foi menor. Isto se deve ao fato de raças continentais apresentarem maior tamanho corporal (ver artigo anterior). Tais animais (raças continentais) provavelmente deveriam ser abatidos com peso superior, para que apresentassem a mesma composição corporal que as raças britânicas.

O uso do cruzamento industrial permite melhorar os índices produtivos, tais como ganho de peso e peso de carcaça, e antecipar a idade ao abate. Os cruzamentos com raças continentais devem ser abatidos com peso superior, para que tenham o acabamento de gordura ideal. Portanto, permanecem por mais tempo no confinamento. Já os cruzamentos com raças britânicas atingem o grau de acabamento (3 mm de gordura) em idade mais jovem, permanecendo menos tempo confinado, embora o peso de carcaça chegue a ser de 1 arroba inferior às raças continentais. De forma geral, o cruzamento com três raças distintas (Zebu, Britânica e Continental) mostrou os melhores resultados, em função do maior efeito de heterose.

A escolha da raça ou raças no programa de cruzamento deve ser feita de maneira estratégica, considerando-se o tipo de sistema de terminação, o peso de abate e o grau de acabamento que o cliente pede. Ou seja, deve-se definir previamente os “objetivos”.

Literatura Consultada:

Barbosa, P. F. Cruzamentos Industriais e a produção de novilhos precoces. Anais do Simpósio sobre produção intensiva de gado de corte. Campinas, SP. 1998


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