Crescimento compensatório em bovinos de corte

Durante a fase de crescimento, bovinos de corte passam freqüentemente algum tipo de estresse nutricional e exibem ganho compensatório quando colocados em dietas de melhor qualidade. Ganho compensatório, o crescimento mais rápido e eficiente em animais provindos de um período de restrição alimentar, desempenha um importante papel na produção de carne.

Biologicamente, trata-se da combinação de hipertrofia compensatória dos músculos esqueletais, do acúmulo aditivo de gordura e crescimento mitótico de ossos, com retenção de água, minerais e material protéico, que se revela pelo ganho compensatório, incluindo completa reversão das características desejáveis da carcaça, desde que seja dado tempo suficiente para recuperação (Villares, 1995).

Resultados de diversos experimentos usando diferentes planos nutricionais têm apresentado conflitantes respostas com relação ao desempenho animal, ingestão de matéria seca e composição da carcaça. Diferenças na severidade, natureza e duração da restrição na fase de crescimento assim como o potencial genético dos animais, indubitavelmente têm contribuído para essas disparidades entre as pesquisas já realizadas (Sainz et al. 1995).

As limitações do ambiente determinam à magnitude do crescimento animal, expresso no aumento do tamanho e peso (Ryan, 1990). O estresse nutricional, resultante de uma limitação quantitativa ou qualitativa de nutrientes fornecidos pelos alimentos, impede o animal de expressar o seu potencial de crescimento. A intensidade desse estresse pode causar redução ou até mesmo taxas negativas de crescimento (Hogg, 1991).

Em sistemas de produção de bovinos, baseados exclusivamente em pastagens, o potencial genético de ganho em peso, principalmente de animais de maior tamanho corporal, nunca é atingido. O máximo ganho em peso vivo diário obtido nessas circunstâncias, corresponde à aproximadamente metade do potencial genético do animal (Mannetje, 1982).

O fenômeno do crescimento compensatório já está incorporado no mercado americano de confinamentos, onde animais com condição corporal melhor têm desconto em relação a animais mais magros, pois os confinadores sabem que o segundo terá um desempenho superior (Sainz, 1998). Apesar disso, ainda falta informação suficiente para incorporar o efeito do crescimento compensatório de maneira eficaz nos modelos de previsão de exigências ou desempenho.

Segundo Ryan (1990), o animal pode apresentar compensação completa, parcial ou não apresentar compensação, após um período de subnutrição ou restrição alimentar. No caso de compensação completa, o ângulo de inclinação da curva de crescimento dos animais que passaram por restrição é maior do que o dos animais que não passaram por restrição.

Essa compensação na taxa de crescimento pós-restrição permite que o mesmo peso de abate seja atingido à mesma idade. Na compensação parcial, o ângulo de inclinação da curva de crescimento dos animais que passaram por restrição é maior do que o dos animais que não passaram por restrição, mas não o suficiente para que o mesmo peso de abate seja atingido a uma mesma idade.

Ainda segundo Ryan (1990) há uma variabilidade de fatores que afetam o crescimento compensatório, dentre eles, os que mais influenciam na magnitude do crescimento compensatório são: a idade do animal no início da restrição, a severidade e a duração do período de estresse nutricional, a natureza da restrição alimentar, a raça (genótipo) e o grau de maturidade do animal.

Por exemplo, um grupo de animais que sofre restrição durante a fase de amamentação, leva em média 14 a 18 meses para compensar 70-80% no atraso no seu crescimento, enquanto que animais que sofrem restrição após a desmama levam de 4 a 7 meses para apresentar o mesmo grau de compensação.

De acordo com Ryan (1990), bovinos restringidos nutricionalmente antes de três meses de idade tendem a não apresentar crescimento compensatório, podendo ficar permanentemente raquíticos, não atingindo o mesmo peso à maturidade de animais que não sofreram restrição alimentar.

Em contrapartida, a restrição alimentar de animais próximo ao peso adulto dificilmente é acompanhada de crescimento compensatório completo após o término da restrição, mas o mesmo peso à maturidade dos animais que não foram restringidos nutricionalmente, sempre é atingido, mesmo que em idades avançadas.

Wilson e Osbourn (1960) e Fox et al. (1972) ressaltaram que o crescimento compensatório pode ser completo, quando os animais são submetidos a períodos curtos ou médios de restrição, sendo que a capacidade de recuperação diminui à medida que a severidade e a duração da restrição são aumentadas.

A partir disto, podemos refletir que a severidade da restrição, ou seja, a quantidade de nutrientes que o animal terá disponível no período de restrição, influencia a resposta do animal após o restabelecimento da alimentação normal. A intensidade da restrição está relacionada mais com o tempo de permanência do animal em crescimento compensatório do que com a taxa de compensação (Ryan, 1990).

Scales e Lewis (1971), trabalhando com novilhos perdendo pesos de 0,08 kg/dia (nível de mantença) e 0,230 kg/dia (nível de sub-mantença), observaram que os animais em nível de mantença apresentaram crescimento compensatório durante 82 dias, tempo menor que os 180 dias obtidos pelos animais mantidos em sub-mantença.

No caso de animais confinados os animais que sofrem um maior período de restrição antes da entrada no confinamento apresentam um maior ganho peso diário e ingestão de matéria seca do que aqueles animais que não são submetidos à restrição.

Assim as principais alterações durante o crescimento compensatório estão relacionadas com:
• Maior taxa de ganho
• Eficiência de conversão alimentar superior
• Mudanças na composição do ganho

E elas podem ser explicadas através de:
• Aumento no consumo voluntário
• Redução na mantença
• Melhor eficiência metabólica
• Mudanças na composição do ganho
• Redução no Tamanho dos Órgãos
• Mudanças Endócrinas

Um ponto importante, é que animais restringidos entram no período de realimentação com menor tamanho e, assim, têm menores requerimentos de mantença. Aumento de ingestão em relação ao peso vivo significa uma proporção maior do alimento sendo usado para ganho.

Lawrence e Fowler (1997), baseados em dados de Lawrence e Pearce (1964), sugerem a hipótese que animais provenientes de restrição alimentar têm menor enchimento ruminal para explicar o aumento de ingestão. Para esses autores esse seria o motivo pelo qual animais em compensação têm uma ingestão superior logo no início da realimentação em relação a animais melhor alimentados previamente.

Durante a restrição ocorre redução dos órgãos viscerais (fígado, rins, coração e trato gastrointestinal -TGI) em relação ao peso do animal. Isso ocorre, pois o crescimento desses órgãos, principalmente fígado e intestinos, é mais afetado que o crescimento do animal como um todo.

No período de pós-restrição ocorre o contrário (Winter et al. 1976), isto é, há um crescimento maior dos órgãos viscerais que do corpo como um todo. Esse crescimento alométrico faz com que parte do desempenho no período de crescimento compensatório do animal seja função dele mesmo.

Considerando que estes órgãos representem 7% do corpo vazio, isto significaria que eles possuem um metabolismo 6 vezes mais intenso que o corpo inteiro, portanto uma mudança de 1% na proporção destes órgãos seria capaz de alterar 6% na mantença (Sainz, 1998).

A exigência de energia metabolizável para mantença é reduzida, para os animais na fase de crescimento compensatório, assegurando uma maior disponibilidade de energia para o ganho (Hogg, 1991). Percebe-se, assim, uma relação direta entre tamanho de órgãos internos e exigências para mantença.

Carstens et al. (1988) encontraram exigência de mantença de 123 kcal/PesoVazio 0,75 para animais em compensação, contra 140 kcal/PesoVazio 0,75 para animais sem crescimento compensatório, chegando a representar reduções de 18%, 17% e 11,5% na exigência de energia líquida para crescimento (Elg).

Em termos de eficiência de utilização de energia, observa-se que há uma aparente menor eficiência na mastigação em animais com consumo restringido, o que faz com que o método de processamento durante os períodos de restrição e crescimento compensatório possa ser importante no manejo de sistemas de produção que incorporem a alimentação restrita. Este é um bom exemplo de como as alterações que ocorrem durante a restrição e o crescimento compensatório podem adquirir uma complexidade maior do que normalmente nos preocupamos.

Desta forma o objetivo maior do entendimento do crescimento compensatório deve ser a possibilidade de incorporá-lo em modelos de previsão de desempenho. Essa seria a maneira mais eficaz de se aproveitar o crescimento compensatório como ferramenta para melhores resultados.

A principal conclusão que pode ser tirada a respeito da manifestação do crescimento compensatório está na dependência de uma série de fatores e suas interações, o que justifica uma variabilidade muito grande na magnitude da resposta animal frente aos períodos de restrição alimentar.

Considerando que existem regiões onde os períodos de estiagens normalmente atingem 7 a 8 meses, comprometendo o desempenho animal, o avanço no conhecimento e manipulação do crescimento compensatório se torna imprescindível, no sentido de fornecer subsídios mais consistentes para se avaliar a viabilidade da incorporação deliberada desse fenômeno às estratégias de exploração de bovinos de corte a pasto e em confinamento.

A estratégia seria aceitar determinados valores de desempenho negativo na seca, mas de forma que na realimentação eles fossem anulados. Para usarmos essa estratégia, porém, há necessidade de sabermos, para cada situação, qual o resultado esperado em termos de crescimento compensatório.

Os fatores descritos acima nos mostram a grande complexidade do crescimento compensatório em bovinos de corte, devendo-se ter muito critério na adoção dessa prática na bovinocultura de corte. Os inúmeros fatores influindo nesse “processo” poderão levar a prejuízos econômicos e aumento da idade de abate dos animais, se não houver compensação completa. Com este raciocínio, busca-se associar o lucro máximo ao nível de produção ótimo, e não à produção máxima.

Referências bibliográficas:

CARSTENS, G.E., JOHNSON, D.E., ELLENBERGER, M.A., TATUM, J.D. (1988). Energy metabolism and composition of gain in beef steers exhibiting normal and compensatory growth. In: Energy Metabolism of Farm Animals , p.131-134. Proc. 11th Symposium EAAP.

FOX, D.J., JOHNSON, R.R., PRESTON, R.L., DOCKERTY, T.R., KLASTERMAN, E.W. (1972). Protein and energy utilization during compensatory growth in beef cattle. Journal of Animal Science, 34, 310-318.

HOGG, B.W. (1991). Compensatory growth in ruminants. In: Growth regulation in farm animal – advances in meat research. Corvallis Oregon: Ed. Elsevier, 7, 103-134.

LAWRENCE, T.L.J., FOWLER, V.R. (1997). Compensatory Growth. In: Growth of farm animals. CAB International, 219-246.

LAWRENCE, T. L.J., PEARCE, J. (1964). Some effects of wintering yearling beef cattle on different planes of nutrition: I. Live-weight gain, food consumption and body measurement changes during the winter period and the subsequent grazing period. Journal of Agricultural Science, 63, 5-21.

MANNETJE, L.T. (1982). Problems of animal production from tropical pastures. In: Nutritional limits to animal production from pastures. Editor: HACKER, J.B. Farmhand Royal: Commonwealth Agricultural Bureaux, 67-86.

RYAN, W.J. (1990). Compensatory growth in cattle and sheep. In: Nutrition abstracts and reviews (Series B), 50, 653-664.

SAINZ, R.D., DE LA TORRE, F., OLTJEN, J.W. (1995). Compensatory growth and carcass quality in growth-restricted and reefed beef steers. Journal of Animal Science, 73, 2971-2979.

SAINZ, R.D. (1998). Crescimento compensatório em bovinos. In: CBNA – Simpósio Sobre Produção Intensiva de Gado de Corte. Campinas, SP. 22-38.

SCALES, G.H. E LEWIS, K.H.C. (1971). Compensatory growth in yearling beef cattle. Society of Animal Production, 31, 51-57.

VILLARES, J.B. (1995). Exploração do ganho compensatório para produção de bovinos no trópico. In: PEIXOTO, A.M., MOURA, J.C., FARIA, V.P. (coord.). Nutrição de Bovinos. Piracicaba: FEALQ, 251-290.

WILSON, P.N. E OSBOURN, D.F. (1960). Compensatory growth after under nutrition in mammals and birds. Biological Reviews, 35, 324-363.

WINTER, W.H., TULLOH, N.M., MURRAY, D.M. (1976). The effect of compensatory growth in sheep on empty body weight, carcass weight, carcass weight and the weights of some offal´ s. Journal of Agricultural Science, 87, 433-441.

This post was published on 12 de dezembro de 2007

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