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Conheça João Martins da Silva Junior, pecuarista e vice-presidente da CNA, e seus desafios e expectativas para a pecuária de corte

Por *Luiz Raimundo Freire Sande*

Na Bahia, pecuária e João Martins são quase sinônimos. Impossível pensar em um sem se lembrar do outro. Essa história tem início na geração anterior, quando João Martins, o pai, antes da década de 1950 já abatia bois para abastecimento de Salvador, chegando a incrível marca de 138 açougues e casas de carne, numa época em que os bovinos eram transportados em trem e caminhões. Nos anos 1950, comprou um navio adaptado que embarcava os animais em Ilhéus, e 11 a 12 horas depois desembarcava-os em Paripe, subúrbio ferroviário de Salvador, onde a família possuía uma fazenda para descanso e posterior abate dos bovinos.

Sempre acompanhando o pai, Dr. João se tornou o principal gestor da Agropecuária João Martins S/A, uma empresa mista, Agropecuária e Patrimonial, criada em 1966 que, além da produção de gado de corte, tem negócios na área de imóveis urbanos, postos de gasolina e outros. Formado em Administração de Empresas, João Martins da Silva Junior possui uma trajetória profissional totalmente ligada à atividade pecuária. Na década de 1970 era produtor de leite na Fazenda Grande Vista, em Feira de Santana, grande bacia leiteira da época; foi fundador e 1º tesoureiro da Central de Cooperativas de Leite da Bahia (CCLB) e um dos primeiros diretores e presidente interino da Associação Baiana de Criadores (ABAC).

Nos anos 1980, quando vários abatedouros foram fechados pela Vigilância Sanitária, assumiu, junto com outros pecuaristas, a Cooperativa Pecuária de Feira de Santana (COOPERFEIRA), colocando em funcionamento o matadouro MAFRISA, que, por mais de uma década, dominou o mercado de carne da Bahia e deu origem, posteriormente, ao Frigorífico de Feira de Santana S/A (FRIFEIRA) quando foi diretor e 1º vice-presidente da FAEB na década de 80; em 1985 se afastou, retornando em 2000 para assumir a presidência, cargo que ocupa até hoje, acumulando com o de presidente do Conselho de Administração do SENAR – BA, presidente do Conselho Deliberativo do SEBRAE – BA e, a partir de janeiro de 2012, 1º vice-presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), na gestão da Senadora Kátia Abreu.

Pai de dois filhos e avô de quatro netos. Segundo João Martins, família é o único amor que supera sua paixão pela pecuária, principalmente a baiana, que tive o prazer de entrevistar.

Luiz Sande (LS): Do que é composta a atividade pecuária da Agropecuária João Martins S/A?

João Martins (JM): De três propriedades rurais, situadas no estado da Bahia: a Grande Vista, no município de Feira de Santana, a Reunidas Maravilha em Itapetinga e a Alto Alegre em Baixa Grande. Em todas elas desenvolvemos a criação de gado Nelore PO, sendo que na Reunidas Maravilha atuamos na atividade de cria, recria e engorda de gado nelorado e na Alto Alegre também recriamos e engordamos bois. A gestão dessas fazendas é compartilhada com meus irmãos Marcelo e Antônio Carlos Martins, sendo que me dedico mais à Alto Alegre.

Fazenda Alto Alegre

LS: Vamos, então, focar na Fazenda Alto Alegre. Qual a área da propriedade e o sistema de produção adotado?

JM: Tem uma área de 2.000 hectares, com 600 hectares de mata, composta de grande acervo de madeira de lei, como pau d’arco, pau d’óleo, peroba e outras, onde criamos 200 vacas Nelore PO, base na linhagem Akasamu / Padhu, e recriamos e engordamos, aproximadamente, 800 bois. O gado PO tem como finalidade a comercialização de tourinhos na região. Criamos essencialmente à pasto, as pastagens são, em sua maioria, de capim Brachiaria MG4, divididas em 26 piquetes.

LS: Qual o maior desafio da sua fazenda de gado de corte hoje?

JM: Com esse período de estiagem prolongada que assola o semiárido baiano e nordestino, além de fortalecer a segurança hídrica, sem dúvida, implantar reserva estratégica de alimento, fazer o planejamento forrageiro da propriedade, quantificando a suplementação de forragem para 12 meses, no lugar dos 6 adotados atualmente.

LS: Qual seu maior aprendizado em 2012?

JM: Não diria aprendizado, mas a constatação, mais uma vez, da necessidade de profissionalizar a atividade. É preciso reduzir o ciclo de produção, com novilhas parindo cada vez mais cedo, vacas produzindo uma cria por ano, bezerros desmamados mais pesados, bois terminados num período cada vez menor. Isso sem perder de vista a relação positiva benefício/custo.

Fazendas Reunidas Maravilha

LS: O que você pretende fazer de diferente em 2013?

JM: Aumentar a área de plantio de mandioca, palma forrageira e milheto ou sorgo para ensilagem, potencializar a reserva de alimento para as fases críticas; utilizar, de forma racional, pulverização com herbicidas em substituição a roçagem mecanizada; aumentar a mecanização da fazenda, uma vez que a topografia permite em quase 100 por cento da área. Em Itapetinga, vamos iniciar uma estratégia para utilização de IATF em 1.500 vacas “cara branca”, que serão desafiadas, buscando reduzir o intervalo entre partos e, consequentemente, o ciclo de produção.

LS: O que você mais gosta no BeefPoint?

JM: É uma excelente ferramenta de consulta e atualização do pecuarista de corte. Destacam-se as tendências do mercado de carne bovina, os indicadores da atividade, a análise do agronegócio, os eventos. As equipes técnica e econômica do SENAR e da FAEB consultam regularmente o BeefPoint, onde encontram subsídios importantes para elaboração e acompanhamento dos Programas que coordenamos.

LS: O que você acha que poderia mudar/melhorar no BeefPoint?

JM: Como gestor e representante da classe produtora, gostaria de ter acesso, no site, a mais informações e artigos sobre união da classe, representatividade nas câmaras setoriais, entrevistas e maior alinhamento com presidentes e diretores de Sindicatos de Produtores Rurais, Federações.

LS: Para finalizar, qual a sua expectativa para a pecuária de corte?

JM: Não tenho a menor dúvida que é e será sempre um negócio bastante atraente e lucrativo para quem se dedicar de forma profissional e empreendedora ao segmento. Caracteriza-se como uma atividade equilibrada, sem muitos altos e baixos. Se administrada como um negócio moderno, com custo monitorado, racional, à pasto, levando em consideração a produção de arroba de carne por hectare e não unidade animal/ha; se o criador de gado PO deixar de se preocupar demais com orelha perfeita, exagero de peso e estética e se direcionar para a produção de animais precoces, férteis, com boa conformação de carcaça, velocidade de ganho de peso, acompanhamento e gestão do negócio, sempre de olho no que demanda o mercado, certamente terá bons lucros com a atividade.

*Luiz Raimundo Freire Sande, candidato a agro-empreendedor do BeefPoint.

This post was published on 18 de abril de 2013

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Equipe BeefPoint

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