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Como os incêndios na Austrália podem afetar o mercado de carne

Os incêndios na Austrália que se intensificaram nos primeiros dias de 2020 atingiram mais de 114 mil km² do território do país. Ao menos 28 pessoas morreram desde setembro de 2019, quando começou a temporada de incêndios.

As regiões de Victoria e Nova Gales do Sul, no sudeste do país, estão entre as mais atingidas. Mais de 50 mil pessoas ficaram sem energia, algumas não têm acesso à água potável, e artigos básicos como pão e leite têm sido disputados nos mercados. Em termos econômicos, as perdas já somam mais de R$ 1 bilhão.

O fogo também atingiu gravemente os animais australianos, incluindo rebanhos criados para a comercialização de carne. A estimativa de pesquisadores da Universidade de Sydney é que pelo menos um bilhão de animais, no geral, tenha morrido.

Segundo a Meat & Livestock Australia, órgão público de pesquisa, 20% do gado australiano vive em regiões total ou parcialmente atingidas pelo fogo. Cerca de 80 mil fazendas haviam sofrido danos até 7 de janeiro. Segundo a consultoria econômica australiana Mecardo, a população de gado no país deve sofrer queda de 1,8% em 2020; já a população de ovelhas pode ser reduzida em 2,4%. Até 13 de janeiro de 2020, ao menos 100 mil cabeças de gado e 100 mil ovelhas haviam morrido.

Ainda não se sabe qual será a extensão do prejuízo e a real diminuição dos rebanhos no país. A depender do seu impacto, no entanto, as perdas de animais podem alterar o papel da Austrália no mercado internacional de carnes em 2020 – o que pode ter efeitos no Brasil.

O papel da Austrália no mercado mundial

A Austrália é o sétimo maior produtor de carne bovina do mundo. Mas, em termos de exportação, o país salta para terceiro lugar em vendas de carne de boi ao exterior, atrás apenas de Brasil e EUA. O quarto lugar fica com a Índia, que exporta duas vezes e meia o total da Nova Zelândia, quinto maior vendedor bovino do mundo. Em 2018, o Brasil exportou cerca de 36% a mais do que a Austrália, liderando o mercado com folga.

Onde Austrália e Brasil são concorrentes

Um dos principais pontos de concorrência da Austrália com o Brasil é o mercado importador de carne na Indonésia. Com mais de 260 milhões de habitantes, a Indonésia importa em torno de 150 mil toneladas de carne por ano. Aproximadamente 40% de toda essa carne têm origem australiana.

A Indonésia é um país de maioria islâmica e é um grande consumidor de carnes halal (“autorizado”, em árabe), que seguem normas específicas para a criação, alimentação e abate dos animais. O Brasil é o maior exportador mundial de carnes halal. As empresas produtoras recebem inspeções para certificar se seguem, de fato, os preceitos.

Em agosto de 2019, a Indonésia liberou a importação de carne de boi de 10 empresas brasileiras após negociação com o governo do Brasil. Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, as plantas frigoríficas liberadas para exportação de carne teriam o potencial de exportar ao menos 25 mil toneladas de carne bovina para o país do sudeste asiático. A possível diminuição de oferta bovina australiana pode favorecer a presença de carne brasileira na Indonésia.

Outro mercado onde a Austrália tem atuação forte é o de gado vivo. Ao todo, produtores australianos exportaram mais de 1,1 milhão de cabeças desse tipo de gado em 2018, mesmo ano em que o Brasil exportou 778 mil. Em 2019, o Brasil perdeu competitividade nesse mercado, com recuo de um quarto da exportação. A perda de rebanhos na Austrália pode reabrir espaço para os produtores brasileiros no comércio internacional de gado vivo.

A crise da carne suína chinesa

Em 2019, o mercado internacional de carne ficou marcado pela diminuição do rebanho de porcos da China em decorrência da epidemia de febre suína africana que atingiu o país. A febre suína africana é um vírus que afeta porcos, resultando em quadros hemorrágicos e levando quase sempre à morte dos animais. A doença é incurável e altamente contagiosa para suínos, mas, segundo a Organização Mundial de Saúde Animal, não apresenta riscos para humanos.

Segunda maior economia do mundo, a China é o país que mais produz e consome carne de porco no planeta. Em 2018, os chineses produziram 54,04 milhões de toneladas de carne suína e consumiram 55,40 milhões. O segundo colocado, tanto em produção como em consumo, foi a União Europeia, a uma distância significativa: 24,30 milhões de toneladas produzidas e 21,38 milhões de toneladas consumidas. A preferência da população chinesa pelo porco é notável: cerca de 60% da proteína consumida no país é de origem suína.

A diminuição do rebanho chinês em mais de 40% aumentou a procura pela carne brasileira – seja bovina ou suína. A necessidade de suprir a demanda chinesa de carne elevou as exportações do país e fez subir os preços das proteínas.

O peso da carne no bolso do brasileiro

Em novembro e dezembro de 2019, o preço da carne aumentou consideravelmente no Brasil, tendo como pano de fundo a epidemia de febre suína africana na China. Ao todo, o preço da arroba de boi gordo havia aumentado 48% no ano até dezembro. No último mês do ano, as carnes subiram 18%, sendo responsáveis, em dezembro, por 45% de todo o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), principal índice de inflação ao consumidor do país.

No acumulado de 2019, a inflação do país foi de 4,31%. Desse total, 0,86 ponto percentual veio do aumento do preço da carne, que terminou o ano 32,4% mais cara, no acumulado dos 12 meses. A variação do IPCA define a inflação ampla, para consumidores com renda entre 1 e 40 salários mínimos. Para isso, mede as variações de preços de centenas de produtos todo mês – entre o dia 1º e o dia 30 –, dando diferentes pesos aos diferentes produtos.

A redução do rebanho bovino na Austrália em decorrência dos incêndios pode trazer mais um choque de preços na carne para o Brasil. A depender do tamanho da restrição da oferta, a procura pela carne brasileira pode ter mais um momento de alta. À Agência Estado, o diretor da Scot Consultoria, Alcides Torres, confirmou a expectativa de queda da participação da Austrália no mercado internacional de carne em 2020.

Com a menor oferta mundial de carne, a tendência é que os preços aumentem, beneficiando os produtores e exportadores brasileiros, mas pesando mais no bolso dos consumidores. Ao Nexo, o professor de economia da PUC-SP Antonio Carlos Alves dos Santos comentou os possíveis efeitos dos incêndios na Austrália no Brasil.

“Tivemos um fato infeliz, mas que acaba sendo benéfico ao produtor brasileiro, que foi a perda de gado na Austrália [por causa dos incêndios]. Não sabemos como isso vai impactar no preço mundial da matéria-prima bovina, mas poderá impactar porque a Austrália é o terceiro maior exportador mundial. Então, abre um espaço para o Brasil trabalhar nessa área”, disse Antonio Carlos Alves dos Santo, professor de economia da PUC-SP, em entrevista ao Nexo realizada em 8 de janeiro de 2020.

Assim como em 2019, a carne pode ter um papel importante na inflação de 2020 – tanto pela continuidade da crise de carne de porco chinesa como pelas perdas animais causadas pelos incêndios na Austrália.

Fonte: Reportagem de Marcelo Roubicek, para o NEXO.

This post was published on 14 de janeiro de 2020

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Equipe BeefPoint

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