Como melhorar a eficiência reprodutiva de vacas em anestro – Capítulo I: Nutrição

Uma das mais importantes habilidades da vaca é a capacidade de utilizar suas reservas energéticas corpóreas em períodos de balanço energético negativo. Nas fêmeas, existe necessidade de adequada quantidade de energia para suprir o metabolismo basal, o crescimento, a lactação, a manutenção da saúde e, ainda, a função reprodutiva. Inúmeros trabalhos científicos mostram que as vacas apresentam elevada demanda energética no período pós-parto. Assim, durante o final da gestação, quantidades suficientes de energia devem ser armazenadas nos tecidos corporais, na tentativa de suprir o balanço energético negativo pós-parto.

Quando mantida sob condições favoráveis, uma fêmea tem potencial para produzir uma cria por ano, com intervalo entre partos de 12 meses. Para alcançarem esse índice, as matrizes Nelore (Bos indicus) devem conceber até 75 dias após o parto. No entanto, durante esse período, é comum as fêmeas apresentarem perdas de suas reservas corporais, o que pode ser verificado pela diminuição do escore de condição corporal (ECC). Essa redução no ECC pode afetar consideravelmente a eficiência reprodutiva desses animais.

Ainda, um período de anestro de duração variável é observado tanto em vacas de leite, quanto em vacas de corte durante o período pós-parto precoce. Anestro é o estado de aclicidade ovariana, refletido pela completa inatividade sexual, com ausência de manifestação de estro (cio) e anovulação. A condição de anestro está associada à presença de ovários estáticos e lisos, sendo que, apesar de ocorrer desenvolvimento folicular, nenhum dos folículos que inicia o crescimento chega à fase final de maturação e, conseqüentemente, não ovula.

Estima-se que aproximadamente 80% da variação na fertilidade ocorra devido a fatores ambientais, dos quais mais de 50% estão relacionados a nutrição (Lotthammer, 1991). A nutrição envolve uma série de fatores que podem afetar tanto o desenvolvimento quanto a reprodução dos animais, sendo que problemas nutricionais podem predispor a doenças infecciosas. Dessa forma, a alimentação equilibrada é um ponto fundamental tanto para a fertilidade quanto para a saúde dos animais.

Com base nestas observações, dividiremos a abordagem em três importantes ferramentas para a melhora da eficiência reprodutiva de vacas em anestro:

1) Nutrição;
2) Desmame temporário;
3) Uso da eCG.

Neste primeiro artigo discutiremos sobre a Nutrição.

Nutrição

A ingestão insuficiente de energia está correlacionada com baixo desempenho reprodutivo, atraso na idade à puberdade, atraso no intervalo da primeira ovulação e cio pós-parto e redução nas taxas de concepção e de prenhez em vacas de corte e de leite (Santos, 2004).

Perry et al. (1991) observaram que o crescimento de folículos até 8 mm foi praticamente extinto em vacas de corte alimentadas com dietas de baixa energia antes e após o parto. A baixa ingestão de energia após o parto também resultou em aparecimento de pequenos folículos (5 – 7,9 mm), os quais persistiram no ovário por um período prolongado, refletindo a possível ausência de funcionalidade do folículo dominante (Perry et al., 1991).

Sabe-se também, que animais criados em regiões tropicais apresentam comprometimento na atividade ovariana pós-parto devido ao inadequado conteúdo energético fornecido pelas pastagens. Dessa maneira, a energia ingerida pelo animal é priorizada para funções vitais de manutenção e de produção de leite, em detrimento das funções reprodutivas (revisado em Montiel; Ahuja, 2005). Na reprodução, os efeitos resultantes do comprometimento nutricional são a supressão na liberação de GnRH e, conseqüentemente, diminuição na freqüência dos pulsos de LH (Schillo, 1992), reduzindo o diâmetro máximo do folículo dominante e a duração da onda de crescimento folicular (Rhodes et al., 1995; Wiltbank et al., 2002). Portanto, a avaliação do status nutricional dos animais e da nutrição do rebanho torna-se uma importante ferramenta do manejo reprodutivo.

Com o intuito de verificar as relações entre a espessura da camada de gordura subcutânea (EGS; avaliada por ultra-sonografia) e o ECC, realizamos um estudo (Ayres, 2008) com 1330 observações de ECC e EGS simultâneas, em vacas Nelore criadas à pasto no Centro-Oeste brasileiro. Pôde-se verificar que o ECC apresentou forte relação (R2 = 0,84; Gráfico 1) e, ainda, uma altíssima correlação (r=0,90; PGráfico 1. Representação gráfica da regressão entre espessura da gordura de subcutânea (EGS) e o escore de condição corporal (ECC)


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Portanto, pudemos notar que a aferição do escore de condição corporal pode ser utilizada como uma ótima uma ferramenta para se estimar a espessura de gordura subcutânea em vacas Nelore, com alta precisão e facilidade, uma vez que não demanda equipamentos específicos ou contenção do animal.

Além disso, em um estudo prévio, Ayres et al. (2007) avaliaram o uso do ECC (escala de 1 a 5) e EGS como preditores de presença de CL em vacas Nelore no pós-parto precoce (41,9  7,1 dias; Gráfico 2). O objetivo da investigação foi determinar a proporção de animais com ciclicidade ovariana (presença de CL) conforme o ECC e o EGS. Os autores verificaram que tanto os animais com boa condição corporal (ECC > 3,0) quanto boa quantidade de reserva de energia armazenada na forma de gordura (EGS > 0,6) apresentam maior cilicidade (presença de CL), confirmando a importância da reserva de energia (na forma de gordura) na fertilidade de vacas no período pós-parto.

Gráfico 2. Percentagem de vacas com presença de CL (“ciclicidade”) aos 42 dias pós-parto conforme a classe de escore de condição corporal ou a classe de espessura de gordura subcutânea (Adaptado de Ayres et al., 2007)


Com base nos achados acima mencionados, fica evidente importância da mantença das reservas corporais e a importância de adequada disponibilidade de alimento de qualidade para que o animal consiga manter uma boa condição corporal ao parto e ainda, manter ou até melhorar sua condição corporal no pós-parto. Com base nessas informações pode-se evitar a incidência de prolongado anestro pós-parto que compromete a eficiência reprodutiva do rebanho. Além disso, podemos verificar a existência de uma ferramenta de ótima precisão (ECC) para a monitoração das reservas corporais e que está altamente relacionada à ocorrência de anestro pós-parto em vacas Nelores criadas a pasto.

Referências Bibliográficas:

Ayres, H. Efeito da espessura da gordura subcutânea, da condição e do peso corporal durante o pré e pós-parto na atividade ovariana após o parto e na eficiência reprodutiva de vacas Nelore (Bos indicus) inseminadas em tempo fixo. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2008. Dissertação de Mestrado.

Ayres, H.; Penteado, L.; Torres-Júnior, J.R.S.; Ferreira, R.M.; Baruselli, P.S. Escore de condição corporal e espessura da gordura subcutânea como preditores de ciclicidade em vacas Nelore (Bos indicus) no período pós-parto. Acta Scientiae Veterinariae; 2007. v. 35. p. s1051-s1051.

Lotthammer, K. H., 1991. Influence of nutrition on reproductive performance of the milking/gestating cow in the tropics, Feeding dairy cows in the tropics. Roma, IT FAO, p. 36-47.

Montiel, F.; Ahuja, C. Body condition and suckling as factors influencing the duration of postpartum anestrus in cattle: a review Animal Reproduction Science; 2005;85:1-26.

Perry, R.C., Corah, L.R., Cochran, R.C., Beal, W.E., Stevenson, J.S., Minton, J.E., Simms, D.D., Brethour, J.R., 1991. Influence of dietary energy on follicular development, serum gonadotrophins, and first postpartum ovulation in suckled beef cows. J. Anim. Sci. 69, 3762-3773.

Rhodes FM, Fitzpatrick LA, Entwistle KW, De´Ath G. Sequential changes in ovarian follicular dynamics in bos indicus heifers before and after nutritional anoestrous. J Reprod Fertil 1995;104:41-9.

Santos JEP, Cerri RLA, Ballou MA, Higginbotham GE, Kirk JH. Effect of timing of first clinical mastitis occurrence on lactational and reproductive performance of holstein dairy cows. Anim Reprod Sci 2004;80:31-45.

Wiltbank, M. C.; Gümen, A.; Sartori, R. Physiological classification of anovulatory conditions in cattle Theriogenology; 2002;57:21-52.


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