Como história de um fazendeiro dos EUA explica dificuldades de abertura à carne do Brasil

Aos 61 anos, Christopher Gibbs acorda quase todos os dias entre as 2h30 e as 3 da manhã. É certo que, no seu ramo de atividade — Gibbs é fazendeiro, no Estado americano de Ohio —, é preciso acordar cedo para iniciar o trabalho e garantir uma boa safra. Mas o motivo da insônia de Gibbs não é sua produção, e sim as dívidas que tem acumulado desde que o presidente Donald Trump, por quem Gibbs votou e fez campanha em 2016, começou uma guerra comercial com a China.

Sob a justificativa de proteger o mercado nacional e o direito à propriedade intelectual de empresas de tecnologia americanas, Trump impôs tarifas a produtos chineses a partir de 2018. Em resposta, a China taxou a produção agrícola dos Estados Unidos. Assim, o fluxo de commodities dos EUA para a China caiu de cerca de US$ 24 bilhões, em 2014, para algo em torno de US$ 9 bilhões no ano passado — e atingiu em cheio o negócio de Gibbs, que ocupa 227 hectares do meio-oeste americano com soja, milho e pasto para um rebanho de gado.

“Nesse momento, os preços da soja, do porco e do milho estão todos abaixo do custo de produção. E não é algo que eu simplesmente possa parar de fazer. Não posso abandonar a terra, deixar de plantar soja e colocar cana no lugar, não dar de comer às vacas. Então é um negócio em que você sangra e não tem como estancar”, contou Gibbs à BBC News Brasil.

Fazendeiro há 36 anos, Gibbs espera passar ao filho, de 31 anos e ao neto, de apenas 9 meses, o sustento por meio da terra. Para evitar a falência, pediu um novo empréstimo no banco e está consumindo suas reservas financeiras. Entre junho de 2018 e junho de 2019, o número de fazendeiros que foram à bancarrota aumentou em 13% em comparação com o mesmo período dos anos anteriores, de acordo com dados da American Farm Bureau.

Republicano durante toda a vida, Gibbs tomou uma decisão difícil.

“Não voto mais em Donald Trump. Preciso defender o negócio que quero que meu filho herde. Os movimentos de Trump até agora não nos levaram a negócios melhores, eu não acredito que irão. O que ele está fazendo é liberar subsídios para segurar os votos do agronegócio, que sempre o apoiou”, afirma Gibbs, em referência ao pacote de US$28 bilhões que a gestão Trump já liberou para conter a crise no campo.

Ohio, onde Gibbs vive, é um dos chamados swing states — Estados americanos em que a disputa entre democratas e republicanos é imprevisível, já que os eleitores mudam de preferência a cada pleito. O fato de Gibbs e alguns de seus colegas abandonarem o republicano, que disputará a reeleição em 2020, é uma ferida aberta em uma parcela valiosa do eleitorado. Uma pesquisa da Universidade Purdue mostra que entre 22% e 35% dos agricultores americanos acham que não têm nada a ganhar com a disputa de Trump com a China.

E o Brasil nisso?

Isso tudo poderia ser apenas um problema doméstico dos americanos. Mas a história de dificuldade financeira e descrença política do fazendeiro Gibbs ajuda a explicar por que o Brasil, apesar de o governo Bolsonaro dar prioridade aos EUA em sua política externa, tem sofrido para obter mais espaço comercial no país.

O governo brasileiro defende que o alinhamento ao país em questões como a aprovação ao embargo contra Cuba ou a tomada de medidas duras contra o regime de Nicolás Maduro na Venezuela, além de uma maior abertura do mercado brasileiro ao trigo e ao etanol americanos, trarão dividendos financeiros ao país — em particular com a reabertura do mercado para a carne nacional.

Em uma palestra promovida pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) na semana passada, o atual embaixador brasileiro em Washington, Nestor Foster, afirmou que Brasil e Estados Unidos dividem a liderança mundial de produção e exportação de commodities como soja, algodão e cana.

“Alguém pode pensar que somos competidores, mas na verdade somos parceiros, sócios. Há uma sinergia muito positiva”, afirmou Foster, em linha com o posicionamento oficial do país.

No mesmo evento, no entanto, o tom entusiasmado do embaixador foi rebatido pelo professor de agricultura econômica da Universidade Purdue Thomas Hertel, que apresentou uma perspectiva das dificuldades dos produtores americanos no momento atual.

“É ingênuo dizer que Brasil e Estados Unidos não são competidores”, resumiu.

‘A carne brasileira não é bem-vinda aqui’

Os resultados até agora sugerem que Hertel tem razão. No mês passado, a expectativa positiva das autoridades brasileiras foi frustrada quando o resultado de uma auditoria feita por agentes dos EUA em rebanhos no Brasil negou o retorno do bife brasileiro às mesas americanas.

“Eles alegaram lá algumas questões menores de fiscalização sanitária, às quais já respondemos. A verdade é que eles não querem abrir o mercado porque o produtor brasileiro é hoje mais eficiente que o americano e a carne brasileira é mais barata”, explicou um diplomata envolvido nas negociações.

Dois lobistas que atuam em Washington D.C. ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que o setor agrícola tem feito pressão para que o governo Trump não retome a compra de carne bovina brasileira, suspensa desde 2017, após a Operação Carne Fraca apontar que relatórios de qualidade dos produtos brasileiros eram adulterados.

“Por um lado, o Departamento de Estado americano diz que é preciso recompensar o novo comportamento brasileiro na política internacional. Por outro, o Departamento de Agricultura não quer nem ouvir falar na liberação da carne, em um contexto em que os fazendeiros estão já muito castigados. Então há uma queda de braço, o que explica a indefinição”, afirma um dos consultores, que atua há mais de uma década com negócios entre América Latina e Estados Unidos.

A entidade de classe dos criadores de gado concorda que não é de seu interesse o retorno da carne brasileira, mas afirma que o motivo não é político —- o que poderia ser punido em organismos internacionais como a Organização Mundial do Comércio — , e, sim, científico.

“A carne brasileira não é bem-vinda nos Estados Unidos porque ela não tem a mesma qualidade que se exige do produtor americano. Não podemos arriscar a saúde do consumidor dos EUA, acostumado com um produto de alto nível. Se os brasileiros conseguirem em algum momento ter a mesma qualidade nos produtos que os americanos, eles podem vir competir aqui”, afirmou à BBC News Brasil Kent Bacus, diretor de relações internacionais e abertura de mercados da Associação Nacional de Produtores de Carne dos EUA.

Brasil, ‘um negociador duríssimo’

Há, no entanto, o entendimento entre autoridades brasileiras que a questão é eminentemente política. A ministra da agricultura, Tereza Cristina, chegou no início da semana à capital americana não apenas para reafirmar que a produção brasileira segue as normas sanitárias globais, mas para tentar convencer seu par na gestão Trump, Sonny Perdue, de que não são necessárias novas inspeções americanas no Brasil para liberação do comércio — o que provavelmente só aconteceria no ano que vem.

Justamente por ser beneficiário direto da derrocada dos agricultores americanos no mercado chinês, o Brasil hoje tem obtido um preço muito atraente para sua produção — tanto de carne, quanto de soja — junto aos chineses.

“Temo que, ao encontrar um fornecedor confiável, como o Brasil, os chineses sequer voltem a comprar da gente quando a guerra comercial acabar. É verdade que só o Brasil não supre a necessidade atual da China, mas vocês têm ainda terras pra ocupar e aumentar a produção, nós não temos um hectare a mais pra explorar”, afirma o fazendeiro Gibbs.

A própria ministra Tereza Cristina reconhece que talvez sequer houvesse oferta brasileira disponível para o mercado americano, mas o Brasil quer receber o reconhecimento dos EUA de que sua carne in natura é aceita nesse mercado.

“Hoje o mercado brasileiro vive um boom muito interessante que nem sei se, nesse momento, a gente exportaria carne para os EUA, porque hoje o preço de outros mercados, principalmente da China, são mais compensadores. Agora é importante ter os EUA abertos, não tem dúvida, para alguns tipos de carne”, disse a ministra.

Em nome dessa abertura, o Brasil ofereceu um aumento na cota de importação do etanol americano — produzido a partir do milho — sem taxação. Em decreto presidencial em agosto, a cota de importação passou de 600 milhões de litros para 750 milhões de litros, fato propagado e comemorado por Trump no Twitter.

A medida, no entanto, gerou resistência entre os produtores de cana do Brasil, que, com o apoio do presidente da Câmara Rodrigo Maia, quase derrubaram o decreto de Bolsonaro. Para conter o problema, o governo estabeleceu períodos em que a isenção de imposto ao etanol americano valeria — parte durante a safra, parte na entressafra. E dessa vez, recebeu reação negativa dos americanos.

“A decisão do Brasil de impor restrições sazonais à sua cota tarifária para o etanol americano é decepcionante e coloca obstáculos adicionais ao livre comércio, prejudicando os consumidores e nossos respectivos setores de etanol”, afirmou em nota, em outubro, a associação de comércio de etanol Growth Energy, o Conselho de Grãos dos EUA e a Associação de Combustíveis Renováveis.

A reclamação foi diretamente encaminhada a autoridades brasileiras. A questão ainda não foi contornada e é tratada como prioridade pela Representação Comercial dos Estados Unidos, que já avisou que barrará qualquer possibilidade de acordo de comércio bilateral enquanto o assunto etanol não for encaminhado a contento.

Colabora ainda para o mal-estar dos americanos com o Brasil a participação da JBS no mercado americano. Gigante do setor frigorífico, a empresa brasileira opera nos EUA desde 2007 e hoje processa carne de cerca de 11 mil produtores americanos. A companhia dos irmãos Joesley e Wesley Batista é frequentemente acusada pelos rancheiros americanos de pagar menos do que o justo pelos animais, o que a empresa nega.

O escândalo de corrupção que envolveu os empresários no Brasil pode respingar nos Estados Unidos, já que o senador republicano Marco Rubio pediu a revisão pelas autoridades reguladoras da compra pela JBS da Swift e de outros frigoríficos locais sob alegação de que a empresa fez o negócio usando dinheiro obtido por empréstimos fraudulentos com o BNDES.

Além disso, os americanos afirmam que a empresa se beneficia duplamente da guerra comercial com a China — por um lado, compra porcos subsidiados pelo governo americano, por outro, pode evitar as tarifas de 72% sobre a carne de porco americana imposta pela China tranferindo esses negócio para o Brasil, cuja tarifa é de 12%.

O fazendeiro de Ohio, Gibbs, resume o sentimento envolvido na disputa comercial: “somos a favor do livre comércio, mas não vamos aceitar um acordo que seja injusto pra nós. Há quatro anos, a carne brasileira entrou no mercado. Eu não gostei, mas podemos negociar se houver ganhos para a agricultura em outras áreas. Não sei se é o caso. Simplesmente não me importo se Trump gosta ou não do presidente do Brasil. O Brasil sempre foi um negociador duríssimo, vamos ver se estamos mesmo em uma nova era”.

Fonte: BBC News.

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