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Carlos Viacava fala sobre seleção, novas tecnologias e seu novo projeto pecuário

Miguel da Rocha Cavalcanti conversou com Carlos Viacava, economista e selecionador de Nelore, sobre seleção, novas tecnologias e seu novo projeto pecuário.

“Comecei a criar Nelore Mocho comprando 50 novilhas da marca OB, de Ovídio Carlos de Brito, que foi o precursor do Nelore Mocho no Brasil”.

“Esses animais foram trazidos para Paulínia/SP, eu fui gostando e após a aquisição da Fazenda Campina, em Presidente Venceslau/SP, resolvemos ampliar a criação”.

“Depois disso, comprei um gado cara limpa Nelore muito bom, em cima desse rebanho, a maioria de chifre, nós fizemos um trabalho com registro LA e a partir daí fomos fazendo o LA 1ª geração, 2ª geração, até chegar ao PO”.

“Há 23 anos começamos a trabalhar com melhoramento genético, quando nasceu o Programa de Melhoramento Genético da Raça Nelore, hoje gerenciado pela Associação Brasileira de Criadores e Pesquisadores com mais de 500 fazendas em todo o Brasil. A Fazenda de Paulínia é a número 7 do programa”.

“Entramos no programa logo no início e tivemos que aprender o que era essa ferramenta e como usá-la. A primeira recomendação era fazer estação de monta. No começo, como todo criador que gosta de participar de exposições, eu era contra. Mas depois caiu a ficha de que o que importa é produzir carne, animais férteis, precoces, que dão uma carne de boa qualidade, que dão lucro para o criador. Fomos mudando nossa cabeça, praticamente abandonamos a pista e hoje o foco é fertilidade e precocidade”.

“Estamos buscando a funcionalidade. A vaca tem que ser fértil, o touro tem que produzir filhas férteis, precoces e boas de leite, para desmamar um bom bezerro todo ano”.

“Usando o programa de seleção do professor Raysildo e buscando touro com altas DEPs maternais estamos conseguindo um progresso importante com a fertilidade, habilidade materna e precocidade (ganho de peso). Que é o que a pecuária precisa, um animal de giro rápido”.

“Recentemente adquirimos uma fazenda em Presidente Epitácio/SP e eu resolvi começar a criação no andar de cima. Então nós pegamos as melhores matrizes do rebanho e estamos fazendo FIV. O projeto é para 1.500 prenhezes, já nasceram uns 450 produtos e esses animais foram todos super bem avaliados”.

“Quando começamos o projeto todas as nossas vacas estavam prenhes, então fizemos uma primeira seleção no lote de novilhas (25 animais), nas quais realizamos 2 aspirações e depois selecionamos mais algumas fêmeas em nosso rebanho de matrizes. Esta seleção foi feita em duas etapas: primeiro levando em consideração as avaliações genéticas das fêmeas e depois fizemos um segundo filtro através de avaliações visuais. O interessante é que agora temos novilhas parindo sua primeira cria, mas que já tem filhos nascidos através da FIV”.

“Esse gado, da fazenda de Presidente Epitácio, está muito bonito e a média melhorou bastante. É impressionante como a coisa funciona”.

“Esperamos conseguir produzir uma maior quantidade de touros de qualidade com esse rebanho”.

“São animais bem arqueados, bem bonitos, fortes, com bons aprumos, sem problemas de pigmentação”.

“As vezes nasce algum de chifre, mas não estou ligando muito para isso. O bom Nelore, pode ter chifre, pode não ter chifre, pode ter batoque ou calo. Na hora de vender o tourinho, o que o comprador quer é um animal com o umbigo correto, bem arqueado, bons aprumos, costelas cumpridas e precoce. É esse o animal que o mercado está procurando hoje”.

“A FIV, hoje em dia é uma ferramenta acessível, é possível fazer em larga escala e acelera muito o avanço genético do rebanho. Mas é preciso escolher bem porque na verdade ela é uma ferramenta de multiplicação, é preciso multiplicar o que há de melhor”.

“Acho que futuramente teremos mais inovações, talvez com um aumento ainda maior do uso de transferência de embriões. Um dia ninguém mais vai comprar sêmen, vamos comprar o embrião e implantá-lo em nossas matrizes”.

“Mesmo estando concentrado em São Paulo, estou vendendo touros cada vez para mais longe. A pecuária tinha um pólo muito importante na região de Araçatuba e Presidente Prudente, hoje a atividade nessa região diminuiu muito. Depois fomos para o Mato Grosso do Sul e agora boi está subindo mais para o norte. Esse ano vendemos muito gado bem para cima de Cuiabá, Goiás e até para o Maranhão. Felizmente o Brasil inteiro está acompanhando nosso trabalho e temos compradores em muitos Estados diferentes”.

“Se a gente olhar o que aconteceu no Brasil nos últimos 20 anos, foi uma revolução. O Brasil não exportava carne. Hoje somos líderes no mercado mundial. Antes ninguém falava em boi de dois anos e hoje já é uma realidade, hoje temos carne de qualidade. Esse choque foi excelente para o Brasil”.

“O nelore brasileiro conseguiu um avanço muito grande em qualidade e hoje está entrando em mercados que eram do Aberdeen Angus. Eu acho que esse mercado está aberto e nós temos que continuar aumento a qualidade da nossa carne”.

“O Brasil é um país com todas as condições para aumentar a oferta de carne. Muito mais do que nossos concorrentes”.

“Com ajuda da Embrapa, que é a salvação do Brasil para muitas coisas, temos um enorme potencial para desenvolver a recuperação de pastagens degradas e um espaço enorme para aumentar a produção sem aumentar as áreas já ocupadas e melhorando a qualidade da carne”.

A carne Nelore Natural foi uma ideia que pegou, mas não como eu gostaria. O que faltou foi o dono da marca. Claro que a Associação fez um trabalho muito bom, mas ela não é a dona do boi e nem a dona da carne. Um exemplo é a questão da apresentação do produto, todos os concorrentes ficam em cima da organização do produto na gôndola. Para uma Associação isso fica mais complicado, não tem como ter um funcionário só para fazer esse controle. Isso que faltou e também faltou dar continuidade às campanhas de marketing”.

“Hoje a Associação está desenvolvendo um trabalho com o Marfrig, para fazer isso mais de perto”.

“Essa questão da marca eu acho importantíssima”.

“Essa questão ajuda a fidelizar o comprador, que vai comprar mais e vai gostar mais do nosso produto”.

This post was published on 10 de novembro de 2010

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  • Tenho muita adimiracao pelo trabalho realizado pelo grupo nelore cv. porem nao concordo com a tecnica de fiv em novilhas que ainda nao tiveram crias. com vamos replicar uma genetica que nao sabemos o que ela produz? acho que isso nao deveria ser feito, pois se algum desses animais tiverem algum problema reprodutivo ele ja disseminou sua genetica para outros rebanhos.

  • Parabéns Miguel pela entrevista e Carlos Viacava não só pela vanguarda do "novo" projeto, mas por tudo aquilo que já fez, e vem fazendo pelo agribusiness brasileiro.

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