Cargill investe para seguir os passos dos consumidores

Diante da segmentação do perfil do consumo de alimentos mesmo em um mercado emergente como o Brasil, a Cargill teve que fazer uma escolha: E, embora continue com grandes fábricas no país com foco em commodities e escala, a companhia decidiu “modelar” seus processos produtivos para melhor atender às inúmeras demandas específicas que surgem tanto para a alimentação humana quanto animal. O primeiro “pacote de investimentos nesse sentido no Brasil, onde a múlti fatura mais de R$ 30 bilhões por ano, foi inaugurado ontem no complexo industrial de Uberlândia (MG).

A partir de um aporte total de R$ 150 milhões feito nos dois últimos anos, a companhia ampliou sua fábrica de amido de milho, que passou a ser capaz de produzir amidos modificados adaptados ao gosto dos clientes, e começou a rodar uma nova planta de ração de dieta úmida para gado leiteiro e de corte também direcionada a encomendas específicas.

“Há três anos, a Cargill decidiu mudar o foco no Brasil, já que o mercado buscava produtos de maior valor agregado para atender à mudança da demanda do consumidor”, disse Laerte Moraes, diretor do negócio de amidos, adoçantes e texturizantes da empresa no país. O caminho escolhido foi “fracionar o processo produtivo diante de uma demanda fracionada”.

Do total investido em Uberlândia, R$ 80 milhões foram aplicados na planta de amido, onde a companhia modifica moléculas de acordo com a necessidade do cliente. “Se o cliente precisa de uma molécula para deixar o alimento mais cremoso, ou mais consistente, nós desenvolvemos”, afirmou Moraes. “Se tem demanda por amido de milho não geneticamente modificado, podemos atender a essa demanda”, exemplificou o executivo.

Antes de serem produzidas no complexo mineiro, as moléculas são desenvolvidas em um laboratório da companhia em Campinas (SP). Atualmente, a planta de Uberlândia é capaz de produzir mais de 30 tipos diferentes de amido, que podem atender desde a indústria alimentícia até a de papel, substituindo importações que a Cargill tinha que realizar para suprir esses mercados.

A segunda parte do aporte no complexo mineiro é em uma planta nova de produção de rações prontas para consumo da pecuária, que custou cerca de R$ 30 milhões. O diferencial do processo, nesse caso, está na ampla gama de matérias-primas utilizadas, que podem resultar em fórmulas também variadas, ressaltou Moraes.

A fábrica utiliza desde palha e resíduos de milho, caroço de algodão, sorgo e bagaço de cana até ácido cítrico e melaço, além de misturar nutrientes, como calcário e ureia. Com essa diversidade, a unidade pode formular “receitas” de ração adaptadas às necessidades de cada pecuarista, com peso e balanço de minerais e proteínas de acordo com a demanda. Para essa customização, a múlti passou a contar com uma equipe que visita fazendas e avalia a genética do gado, as condições ambientais e o objetivo do produtor.

A localização da planta, na “porta do Cerrado”, facilita o atendimento de pecuaristas de gado de corte da região do Triângulo Mineiro e dos pecuaristas de gado leiteiro do Alto Paranaíba. Em geral, o perfil de produtor que a Cargill pretende acessar é de pequeno e médio porte. “Um grande pecuarista pode ter sua própria misturadora e fazer algo parecido, embora não seja igual. Mas os pequenos e médios não têm acesso a um produto específico como o nosso”, disse Moraes.

O potencial de demanda, segundo ele, é incalculável. Já há interesse, por exemplo, em ração para alimentar gado que será exportado vivo à Jordânia, comentou Ângelo Pedrosa, gerente de solução para nutrição animal da Cargill. Atualmente, a unidade tem capacidade para produzir cerca de 60 mil toneladas de ração por ano, mas já há espaço para aportes na duplicação do volume.

Em ambos os projetos apresentados ontem, a lógica da segmentação, que oferece valor agregado, desbanca a da escala, que predomina em empresas de commodities. “Nós não podemos ser uma empresa de custo, temos que ser uma empresa de valor”, defendeu Moraes.

Mas se essa segmentação atende à mudança da demanda, ela gera uma dificuldade: a economia de recursos nos processos. Para otimizar o uso de água no complexo de Uberlândia – que abriga também uma esmagadora de soja, uma fábrica de acidulantes e uma unidade de cogeração de energia -, a Cargill investiu R$ 40 milhões em uma estação de tratamento de água, que permite a reutilização de parte da água na própria planta.

Com o procedimento, a companhia reduziu em 30% o consumo de água. Ainda assim, o complexo utiliza atualmente cerca 6,5 milhões de litros por dia, volume suficiente para abastecer uma cidade com 51 mil habitantes. O próximo passo, afirmou Moraes, é reduzir o gasto de energia. A unidade de cogeração já atende 70% da demanda das plantas no local, mas ele vê espaço para reduzir a necessidade de recorrer à energia do mercado.

Fonte: Valor Econômico.


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