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BRF e Marfrig começam a negociar fusão

Em um movimento surpreendente, BRF e Marfrig anunciaram ontem que negociam uma fusão que, se bem sucedida, criará uma gigante global com faturamento superior a R$ 80 bilhões. As duas companhias firmaram um acordo que prevê exclusividade nas negociações entre ambas por 90 dias – prorrogáveis por mais 30.

A estrutura societária ainda não está definida, mas a troca de ações que permitirá a união das empresas será feita considerando a média das ações de BRF e Marfrig nos últimos 45 dias, o que daria aos atuais acionistas da primeira uma participação de 85% na companhia resultante. Os sócios da Marfrig ficariam com 15%.

Nas negociações, o Citi será o assessor financeiro da BRF. O J.P. Morgan, por sua vez, vai assessorar a Marfrig, apurou o Valor. As projeções iniciais apontam para sinergias de R$ 5,5 bilhões na união. A operação ainda terá de passar por diversas etapas importantes, incluindo a aprovação da BNDES (acionista da Marfrig) e dos fundos de pensão Petros e Previ, principais sócios da BRF.

A negociação da fusão foi anunciada após o fechamento do mercado, mas na bolsa de Nova York a recepção foi positiva. Os recibos de ações (ADRs) da BRF subiam mais de 6% na noite de ontem. O anúncio ocorre a poucas semanas do fim do mandato de Pedro Parente como CEO da BRF. A partir de 17 de junho, ele ficará apenas como presidente do conselho de administração e passará o bastão a Lorival Luz, atualmente vice-presidente executivo.

A aproximação entre as duas empresas teve início no fim do ano passado, quando a Marfrig comprou da BRF a argentina Quickfood e uma fábrica de hambúrguer em Mato Grosso. Como resultado da transação, a companhia de Marcos Molina passou a produzir o hambúrguer Sadia e Perdigão para a BRF. Nesse ambiente, a interlocução entre as duas companhias se tornou permanente. Em 13 de maio, Molina e Luz se encontraram em Nova York durante um jantar promovido pelo Banco Safra.

De forma geral, a transação pode mudar a percepção de que muitos no mercado ainda têm de Parente. Até então, ele vinha sendo encarado como o “bombeiro” que tentava apagar os incêndios de uma companhia que perdera a capacidade de gestão da longa cadeia produtiva.

Se a união com a Marfrig prosperar, Parente será um dos arquitetos de uma transação que fará da BRF uma empresa mais parecida com o modelo vencedor da JBS – diversificado geograficamente e “multi-proteínas” (carne bovina, suína e de frango). Em faturamento, vale ressaltar, os negócios ainda seriam bem menores – a empresa dos Batista fatura mais de R$ 180 bilhões.

Estrategicamente, a fusão representa o extremo oposto dos planos iniciais – e mal-sucedidos – da gestora Tarpon e de Abilio Diniz, que assumiram as rédeas da BRF em 2013 com o objetivo de, entre outras coisas, reduzir a fatia das commodities no faturamento. Não à toa, a BRF se desfez do negócio de carne bovina, repassando as operações na área à brasileira Minerva Foods, em 2014.

“Perdemos o jogo. O futuro agora é ter volume e faturamento, mas carne bovina tem pouca diferenciação”, lamentou um ex-executivo da BRF. De fato, os frigoríficos de carne bovina costumam entregar margens mais apertadas, abaixo de dois dígitos. Também por isso, os investidores fazem avaliações distintas de negócios de marca, como é o da BRF no Brasil, e frigoríficos como a Marfrig.

Na B3, as ações da dona da Sadia e da Perdigão costumam ser negociadas a um múltiplo próximo de 10 vezes, enquanto os papéis da Marfrig oscilam perto de 5 vezes. Mesmo com um faturamento quase R$ 10 bilhões menor, a BRF vale na bolsa quatro vezes mais que a Marfrig. Ontem, a BRF estava avaliada em quase R$ 24 bilhões, ao passo que a Marfrig valia R$ 4,2 bilhões.

Do lado da Marfrig, a união com a BRF representa uma volta a um passado pouco agradável. A incursão da companhia de Molina pelo negócio de frangos e suínos – com a compra da Seara, principalmente – custou caro à empresa, que teve dificuldades para integrar os ativos, queimou caixa, viu as dívidas dispararem e acabou vendendo o negócio à JBS. Só no ano passado, com a alienação da subsidiária Keystone à americana Tyson Foods, a Marfrig conseguiu reduzir a dívida e entregar um índice de alavancagem considerado saudável.

A expectativa é que, juntas, as empresas tenham um índice de alavancagem (relação entre dívida líquida e Ebitda) próximo de 3 vezes. Hoje, a alavancagem da BRF supera 5 vezes.

Fonte: Valor Econômico.

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