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Banco do Brasil retoma postura mais agressiva no crédito rural

Líder histórico no segmento de crédito rural no país, o Banco do Brasil voltou a elevar o tom e não cogita mais perder espaço nesse mercado. Sob o comando de seu novo presidente, André Brandão, a instituição pretende no mínimo consolidar a participação de 55% que tem nos financiamentos a produtores e agroindústrias e ganhar espaço nos “ecossistemas” da atividade, aproveitando o aumento dos recursos captados durante a pandemia para ofertar empréstimos volumosos mesmo sem equalização das taxas de juros.

Nesta safra 2020/21, as contratações de crédito rural no Banco do Brasil já estão 20% maiores que as do ano passado, seguindo o ritmo ditado pelo apetite do campo. “Vamos consolidar nossa posição de liderança mesmo se houver redução no nosso percentual de recursos subvencionados. Vamos trabalhar forte para não perder mercado”, disse ao Valor o vice-presidente de Agronegócios do BB, João Rabelo.

Com alta substancial até setembro da captação de recursos via poupança (R$ 210 bilhões) e depósitos à vista (R$ 90,7 bilhões), principais fontes dos financiamentos agropecuários, o banco vê margem para emprestar sem equalização a taxas próximas das controladas e não teme concorrência pela subvenção, antes restrita a entidades públicas e cooperativas de crédito.

“É muito ruim ter no agro só um ou dois bancos. É bom ter mais, pois conseguimos diluir o risco, desenvolver melhor as soluções e chegar a mais mercado”, afirmou Rabelo, que ainda reclama dos custos para operar com o setor ante um taxa básica de juros (Selic) em mínima histórica.

“O nível de exigência que o Manual do Crédito Rural traz não parece ser compatível com o benefício que está sendo colocado. O custo de observância para fazer crédito rural está alto”, afirmou, indicando que poderia baratear a operação na ponta com mais simplificação no processo.

O BB nunca deixou de liderar com folga o segmento, mas o discurso mudou em relação à gestão anterior – quando, amparado pelo governo, o banco sinalizava que perder participação para bancos privados era inevitável. A fatia da instituição no saldo das operações de crédito ao setor caiu de 65% para 55% nos últimos cinco anos, mas Rabelo quer brecar essa tendência. Nesse sentido, lembra que a carteira de agronegócios da instituição cresceu R$ 40 bilhões no período e chegou a R$ 190,5 bilhões, 26% do total.

“O objetivo é aumentar a participação. Mas estou menos preocupado com a participação no sistema nacional de crédito rural e mais preocupado com a participação lá no cliente”, afirma o executivo, que está de olho em oportunidades no mercado de capitais.

Na safra 2019/20, dos R$ 190,3 bilhões emprestados aos produtores pelo sistema financeiro, R$ 81,1 saíram do BB. Nos quatro primeiros meses desta safra, as contratações subiram 20% em relação ao mesmo período do ciclo 2019/20, para R$ 35,8 bilhões – puxadas pelos investimentos, que aumentaram quase 50%, para R$ 10 bilhões. O número não contempla informações de títulos, como CPR e CDCA, e crédito para giro e agroindustrial.

Rabelo diz que o aumento dos desembolsos é motivado pela ampliação da área plantada no país e pela alta nos custos de produção, que intensificaram a busca por custeio, além dos juros menores na temporada. Mas são os investimentos o grande destaque. O BB destinou R$ 1 bilhão a mais que o programado inicialmente para financiar máquinas e implementos agrícolas, e acha que terá que fazer nova suplementação. “A velocidade está grande. Estamos em novembro e fizemos novo aporte. Talvez tenhamos mais, mas não nas mesmas condições”, adiantou ele.

Com a postura mais agressiva no agronegócio, o BB quer atuar nos “ecossistemas” de algumas cadeias e oferecer soluções personalizadas que vão além do crédito tradicional para ampliar a participação junto ao produtor.

Uma das apostas é no financiamento das Cédulas de Produto Rural (CPRs), para as quais o BB separou R$ 4,5 bilhões de recursos livres nesta safra. A obrigatoriedade de registro desses títulos a partir de 2021 vai dar “mais clareza e segurança” para avançar nessa frente, segundo Rabelo. O objetivo é ser “mais agudo” e conquistar espaço onde hoje reinam cooperativas, tradings e cerealistas, que fomentam cerca de um terço da produção agropecuária do país.

“Talvez não seja a função de algumas dessas empresas fazer isso. Podemos atuar aí, reforçar nossa posição de ser o agente financeiro do sistema e separar as funções”. Para essas companhias, o BB quer abrir as portas do mercado de capitais, com o empacotamento dos títulos em Cédulas de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), Certificados de Direitos Creditórios do Agronegócio (CDCAs) ou Fundos de Investimentos em Direitos Creditórios (FIDCs) e apoio na negociação.

“A taxa de juros a 2% permite que tenhamos algumas soluções de mercado que não tínhamos, para operações de curto prazo bem competitivas”, disse. O banco também passou a oferecer consórcio para a troca programada de máquinas agrícolas e quer ampliar o seguro rural para quem não tem área financiada.

Fonte: Valor Econômico.

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