Anticorpos policlonais, uma nova alternativa para bovinos confinados

Atualmente, com a intensificação dos sistemas de produção de bovinos decorrente tanto do aumento das exportações quanto da exigência do consumidor (Fapri, 2005; European Comission, 2004), se faz necessário recorrer a ferramentas que permitam pequenos ajustes no sistema para que se possa explorar o máximo potencial produtivo do animal.

Dessa forma, observa-se que o aumento do nível energético das dietas de confinamento para bovinos de corte tem obtido uma crescente aceitação e seu conceito tem sido difundido entre produtores devido as suas respostas positivas em relação ao desempenho animal, qualidade de carcaça, facilidade de manejo e economicidade.

Porém, o uso de dietas de alto concentrado pode ocasionar problemas de ordem digestiva como a acidose ruminal a qual pode causar lesões à parede do rúmen e predispor o aparecimento de abscessos hepáticos, além de onerar os confinadores diante de eventuais gastos com medicamentos e perdas através da piora no desempenho dos animais, tais como:
• Redução no consumo de matéria seca;
• Piora na conversão alimentar;
• Menor ganho de peso.

Surge, portanto a necessidade de alternativas que visem melhorar o ambiente ruminal, e por conseqüência o desempenho animal. Dentre essas alternativas a manipulação dos microorganismos do rúmen é vista como uma nova linha de pesquisa que está sendo desenvolvida por diversas instituições de pesquisa e empresas de nutrição ou saúde animal. A pesquisa nessa área apresenta desafios, entre elas podemos citar a crescente resistência ao uso de antibióticos como promotores de crescimento o que pode levar a descoberta de novas técnicas para melhorar os processos de fermentação ruminal (DiLorenzo, 2004). Ionóforos são classificados atualmente como antibióticos e estão proibidos no continente europeu, assim sua restrição ao uso nos sistemas de produção de ruminantes pode acontecer em breve (Newbold et al., 2001).

Assim uma nova tecnologia de modificador da fermentação ruminal contra populações específicas de bactérias ruminais causadoras de distúrbios metabólicos como a acidose surge como nova alternativa de uso. A imunização constitui assim um novo enfoque, através da produção de anticorpos policlonais, que são considerados de origem natural e com baixo risco de contribuir para resistência microbiana.

O uso de anticorpos em dietas com alto concentrado para bovinos confinados estão sendo testados pela UNESP Botucatu há dois anos, através da equipe do Professor Dr. Mário De Beni Arrigoni, em pesquisas em conjunto com a USP Pirassununga e a Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos e resultados relevantes têm sido encontrados em relação ao seu uso como aditivo.

Após dois anos consecutivos de pesquisas na UNESP-Botucatu, bovinos jovens confinados suplementados com anticorpos policlonais apresentaram similares ganhos de peso, conversão alimentar e características de carcaça e superior consumo de matéria seca quando comparados a bovinos suplementados com monensina sódica (Millen, 2008). Em um outro estudo conduzido no Brasil (Marino et al., 2007), com animais recebendo dietas de alta energia e fistulados no rúmen, anticorpos policlonais provaram ser tão eficientes quanto a monensina sódica no controle do pH ruminal. Estudos anteriores, conduzidos fora do Brasil, já haviam constatado maior consumo de matéria seca e melhor controle do pH ruminal quando anticorpos policlonais foram oferecidos (Shu et al., 1999; Gill et al., 2000; Shu et al., 2000; DiLorenzo, 2004).

Em relação à saúde do rúmen, anticorpos policlonais reduziram a incidência de paraqueratose ruminal (lesões na parede do rúmen), o que melhora a saúde das papilas ruminais e permite, consequentemente, maior absorção de ácidos graxos voláteis, promovendo melhor saúde e desempenho ao animal com menores riscos de acidose e aparecimento de abscessos hepáticos.

Desta forma, anticorpos policlonais surgem como opção de aditivos alimentares para bovinos de corte confinados caso os ionóforos sejam realmente proibidos. Entretanto, mais estudos devem ser conduzidos para se saber os mecanismos pelos quais seus efeitos são atingidos e a eficácia de outras preparações com anticorpos policlonais.

Referências bibliográficas:

DILORENZO, N. Effects of feeding polyclonal antibody preparations against rumen starch and lactic-fermenting bacteria on target bacteria populations and steer performance. Saint Paul, Minnesota, USA: University of Minnesota, 2004. 101p. Dissertação (Mestrado em Zootecnia) – University of Minnesota, 2004.

EUROPEAN COMISSION. 2004. Prospects for agricultural markets and income 2004 – 2011. Brussels.

FAPRI, 2005. World agricultural outlook. Iowa State University – University of Missouri – Columbia.

GILL, H.S.; SHU, Q.; LENG, R.A. et al. Immunization with Streptococcus bovis protects against lactic acidosis in sheep. Vaccine, v.18, p.2541-2548, 2000.

MARINO, C.; OTERO, W.; RODRIGUES, P.H.M. et al. Avaliação do preparado de anticorpos policlonais (PAP) nos parâmetros de fermentação ruminal em bovinos recebendo dietas de alto concentrado. In: Reunion Asociacion Latinoamericana de Produccion Animal (ALPA), 20., 2007, Cusco – Peru. Anais… Cusco, 2007, CD-ROM.

MILLEN, D.D. Desempenho, avaliação ruminal e perfil metabólico sanguíneo de bovinos jovens confinados suplementados com anticorpos policlonais ou monensina sódica. Botucatu, São Paulo, Brasil: Universidade Estadual Paulista, 2008. 131p. Dissertação (Mestrado em Zootecnia) – UNESP-Botucatu, 2008.

NEWBOLD, C.J., STEWART, C.S.; WALLACE, R.J. et al. Developments in rumen fermentation – The scientist’s view. In: GARNSWORTHY P.C. AND WISEMAN J. (Ed) Recent advances in animal nutrition.. Nottingham United Kingdom: Nottingham University Press, 2001. p.251-279.

SHU, Q.; GILL, H.S.; HENNESSY, D.W. et al. Immunization against lactic acidosis in cattle. Research of Veterinary Science, v.67, p.65-71, 1999.

SHU, Q.; GILL, H.S.; LENG, J.B. et al. Immunization with a Streptococcus bovis vaccine administered by different routes against lactic acidosis in sheep. Vet. J., v.159, p.262-269, 2000.

This post was published on 24 de março de 2008

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  • quetal!
    Esses anticorpos policlonais já existem no mercado?
    Se sim, alguém pode me informar onde encontra e quanto custa?

    Muito obrigado!

  • Esses anticorpos estão em fase de experimentação aqui no Brasil para possívelmente entrarem no mercado.

    Nos Estados Unidos já são empregados comercialmente.

    Abraços.

  • Muito boa a materia, se posivel gostaria de ter mais informações tecnicas.

    Obrigada e parabens!

  • Cara Wilmara,

    Primeiramente obrigado pelos parabéns.
    A respeito das informações técnicas, estamos elaborando mais um artigo para postarmos nesta seção com maiores informações, assim como gráficos e tabelas.

    Atenciosamente,

    João Paulo.

  • Prezado José,

    Muito interessante sua colocação sobre a UE.

    Teoricamente os anticorpos policlonais não contribuem para a seleção de bactérias resistentes. Eles não interferem no conteúdo genético do microrganismo, apenas se ligam à bactéria impedindo o crescimento da população.

    Outra vantagem é que eles atuam em uma bactéria específica, a qual foram desenvolvidos. Por exemplo, o anticorpo contra Streptococus bovis só terá ação sobre essa espécie de bactéria.

    Essa tecnologia pode ser uma ferramenta útil ao se pensar em controle de bactérias já resistentes à antiobióticos.

    A empresa americana já produz anticorpos com esse enfoque para suínos, de acordo com o problema enfrentado pelo cliente.

    Até o momento desconheço o teste de anticorpos específicos contra protozoários, mas como já expliquei acima, se for usado um anticorpo contra bactérias não ocorrerá efeito direto sobre os protozoários.

    Abraços,

    Rodrigo Pacheco

  • Caros autores,

    Primeiramente gostaria de parabenizá-los pela pesquisa e confecção deste artigo.

    Realmente nos dias atuais, o estudo da saúde ruminal é extremamente importante tanto para sanidade do animal, quanto para a elevação dos índices produtivos principalmente nos confinados.

    Nós do Departamento de Clínica Médica da USP, em especial eu e o Prof. Enrico Ortolani, temos estudo em meu Mestrado a incidência de abscesso hepático em bovino confinado nos últimos 5 anos, na qual notamos uma enorme tendência nos bovinos confinados com lesões ruminais, em relação aos terminados em sistemas extensivos.

    É fundamental a prevenção, seja a base de ionóforos ou Ac policlonados (como estudam) nos quadros de acidose ruminal e abscessos hepáticos, pois este é o ponto chave para o sucesso nos confinamentos nacionais.

    Sucesso em seus projetos!

    Forte abraço a todos,

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