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Agricultura 4.0 avança entre grandes produtores

Em seu novo estudo, “The Bio Revolution”, o Instituto Global McKinsey aborda como a combinação e os avanços das ciências biológicas e da computação alimentam uma nova onda de inovações. Entre os setores mais beneficiados por técnicas de biotecnologia, processamento de dados e inteligência artificial está o agronegócio. Ao analisar os segmentos de agricultura, aquicultura e alimentação, a pesquisa calculou acréscimos anuais nas receitas globais entre US$ 800 bilhões e US$ 1,2 trilhão. O montante representa 36% dos ganhos possíveis com a adoção de tecnologias nas próximas duas décadas.

Biomateriais, como a madeira, e a produção de bioenergia foram analisados em outra seção do estudo e somam incrementos entre US$ 200 bilhões e US$ 300 bilhões, ou 8% do total. A conta considera o uso de recursos técnicos disponíveis no mercado, prontos para utilização. Novas aplicações e descobertas científicas podem elevar os ganhos. “É hora de ligar os pontos, integrar e conectar as tecnologias”, afirma Silvia Massruhá, chefe-geral da Embrapa Informática Agropecuária.

Para ela, como protagonista na produção de alimentos, o Brasil deve reforçar a área de pesquisa e desenvolvimento no agronegócio para lucrar, também, no ramo da agricultura digital, ou 4.0. “Apesar de todos os desafios para a conectividade do campo, o Brasil é o país mais avançado nesta área”, sustenta a pesquisadora. Como exemplo, ela cita as lavouras dos Estados Unidos – onde os produtores rurais têm mais acesso a máquinas conectadas e a serviços de telecomunicações no campo, mas não avançaram, no mesmo ritmo brasileiro, na adoção das aplicações que criam valor e integram as cadeias produtivas. “Sem uso inteligente, um trator conectado é só um trator”, diz. Na linguagem simples, é como ter um smartphone sem aplicativos – ele só serve para completar ligações.

O sucesso brasileiro, na opinião dos especialistas, está no fato de os grandes produtores de commodities apostarem na migração da agricultura de precisão para a digital, o que acrescenta a seus modelos de negócios recursos e sistemas baseados em inteligência artificial e internet das coisas (IoT). Eles também adotam técnicas de genética e biotecnologia e já perceberam a importância de “ligar os pontos” para reduzir o uso de insumos químicos, ampliar a produtividade e abastecer com informações os institutos de pesquisa. Esse ciclo de convergência e retroalimentação entre tecnologias digitais e pesquisa científica foi puxado por mercados agressivos e importantes para o Brasil, como soja, celulose e carne. “Os benefícios da adoção de tecnologia capazes de enviar dados, em tempo real, ao produtor são indiscutíveis”, destaca Anselmo Del Toro Arce, sócio-diretor da Solinftec, agtech brasileira especializada em automação.

Mais específico, Cristiano Pontelli, gerente de projetos da Jacto, fabricante de equipamentos, destaca que a gestão da pulverização, com informações imediatas sobre o processo, pode salvar algo em torno de R$ 100 mil em um uma safra de soja – ou entre 3% e 5% dos custos com insumos de uma propriedade de grande porte. Ainda segundo ele, a frota de máquinas agrícolas bem monitorada consome até 10% menos combustível. “Os ganhos vão se somando durante a produção”, diz Pontelli. Arce, da Solinftec, acrescenta que lavouras conectadas já registraram redução total de 20% nos custos com insumos graças às novas aplicações. Pelas expectativas e previsões, quando a tecnologia chegar às propriedades de pequeno e médio porte, o salto produtivo será grande.

As novidades científicas também contam com a digitalização para avançarem na cadeia produtiva. Um exemplo vem da DSM, que desenvolve tecnologias de nutrição. Para a cadeia de bovinos, a empresa criou um suplemento que, adicionado à dieta regular de ruminantes (bovinos, ovinos e caprinos) reduz em 30% a emissão de gás metano – um dos principais aceleradores do efeito estufa – por estes animais. Segundo Mark van-Nieuwland, diretor global da DSM, o rastreamento de origem dessas carnes com recursos de computação, como o blockchain, aumenta o interesse dos produtores. “Eles conseguem responder à pressão de consumidores preocupados com a pegada ecológica”, diz. Há ainda a possibilidade de gerar créditos de carbono para venda no mercado, criando uma nova fonte de renda na pecuária.

O produtor rural brasileiro já entendeu as vantagens de migrar para a agricultura digital. Mas ainda há muito trabalho para ampliar o alcance da tecnologia e tirá-la da bolha dos grandes produtores. O último Censo Agropecuário (2017) apontou que mais de 70% das propriedades rurais brasileiras não possuem acesso à internet.

Mateus Barros, líder de negócios da Climate FieldView, braço de agricultura digital da Bayer para a América Latina, diz que ainda falta infraestrutura. No ano passado, a Climate ingressou na iniciativa ConectarAgro com outras sete empresas (TIM, Nokia, Jacto, Trimble, CNH Industrial, Solinfitec e AGCO). A ideia era unir os setores de insumos agrícolas ao de tecnologia da informação e comunicação para quebrar as barreiras que impedem a tecnologia de se espalhar pelo campo. “No agronegócio, todos os sistemas precisam conversar. O agricultor não vai perder tempo com detalhes técnicos”, reforça Barros.

O ConectarAgro tornou-se um grande piloto para construir uma plataforma capaz de absorver os mais diferentes aplicativos, sensores e máquinas utilizadas na lavoura. “Além disso, os serviços de telecomunicações alcançam pessoas que não tinham acesso a eles nas zonas rurais”, completa Alexandre Dal Forno, diretor de marketing corporativo e IoT da TIM Brasil. No início de julho, o ConectarAgro se transformou em uma associação para, como disse, Gregory Riordan, executivo da CNH escolhido para presidir a entidade, “trazer mais empresas e ampliar a representatividade do projeto”. Entre os resultados alcançados até agora estão a cobertura, com banda larga 4G, em cinco milhões e cem mil hectares no país.

A demanda das máquinas no campo tem mudado o planejamento das grandes operadoras, como a Embratel – marca da Claro para soluções corporativas. Eduardo Polidoro, diretor de negócios de IoT da empresa, explica que as oportunidades de negócios são mais complexas. “Não é fácil chegar às fazendas. Por isso, a solução exige experiência para combinar recursos que vão do rádio aos satélites”, diz. O que tem animado os negócios é o número crescente de máquinas, sensores, drones e câmeras com demanda por conectividade. Em muitos municípios há mais coisas do que pessoas penduradas à internet. “É aí que a conta fecha para a expansão das redes”, destaca o executivo.

Outro desafio, resume George Hiraiwa, produtor rural e coordenador do ecossistema para tecnologias do agronegócio em Londrina (PR), é unir a cadeia produtiva para estimular a colaboração e o desenvolvimento de soluções. O segmento é complexo, envolve desde as pesquisas agronômicas até setores como logística e mercado financeiro. “É preciso desenvolver sementes e também soluções para facilitar a venda de seguro-rural”, observa.

Só com grandes esforços, diz ele, será possível alcançar massa crítica para avançar na agricultura digital e passar para a etapa da biodigital – onde as ciências da vida e a digitalização realmente se encontram. Os próximos passos, lembra Hiraiwa, demandam políticas públicas de estímulo à inovação. Sem a união entre academia, empresas e governos não dá para continuar na dianteira desta corrida.

Decisões governamentais sobre temas como a tecnologia que será utilizada nas redes de telefonia móvel de quinta geração (5G) ou a destinação dos orçamentos para pesquisa afetam diretamente o setor. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) entendeu os recados e tem se articulado para participar de iniciativas de inovação. No ano passado, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, anunciou a cidade de Londrina como o primeiro polo de inovação e tecnologia da agricultura ligado à pasta. O objetivo é somar 12 deles em todo o país.

Na Embrapa, o papel das políticas públicas é o de digitalizar a maior quantidade possível de agricultores. “Existem soluções digitais gratuitas”, comenta Silvia. Entre elas, estão os protocolos e modelos de plantio. “Pelo aplicativo, ficou mais fácil o produtor pesquisar o momento ideal para plantar ou aplicar defensivos”, explica a especialista. Essas soluções são resultado do lançamento, no ano passado, do AgroAPI – ferramenta que dá acesso aos dados históricos sobre agricultura da Embrapa. O sistema já é utilizado por 300 clientes e permitiu a criação de 700 aplicações. Entre os usuários estão empresas de grande porte, startups, pesquisadores e a própria Embrapa. “Ficou mais fácil criar aplicativos. Precisamos criar volume”, diz.

Fonte: Valor Econômico.

This post was published on 31 de julho de 2020

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Equipe BeefPoint

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